Por INFOVATICANA | 6 de março de 2026

Igreja

Desde o verão passado, uma série de audiências vem se formando no Vaticano, que dificilmente podem ser consideradas coincidência. Desde agosto de 2025, o Papa Leão XIV recebeu diversas figuras representativas da ala tradicional da Igreja: os cardeais Raymond Burke, Robert Sarah e Gerhard Müller; o bispo Athanasius Schneider; o cardeal Joseph Zen; e Monsenhor Fernando Rifan, administrador da Administração Pessoal Apostólica de Campos (Brasil), uma das estruturas canônicas que mantém a liturgia tradicional em plena comunhão com Roma.

Os registros no boletim da Santa Sé mostram quase uma audiência por mês:

  • 22/08/2025 — Sua Excelência o Cardeal Raymond Leo Burke
  • 02/09/2025 — Sua Excelência o Cardeal Robert Sarah
  • 15/11/2025 — S.E. Mons. Fernando Arêas Rifan, bispo titular de Cedamusa, administrador apostólico da Administração Apostólica Pessoal de São João Maria Vianney (Brasil)
  • 18/12/2025 — Sua Excelência Mons. Athanasius Schneider, bispo titular de Celerina, auxiliar de Maria Santíssima em Astana (Cazaquistão)
  • 07/01/2026 — Sua Excelência o Cardeal Joseph Zen Ze-kiun, SDB, Bispo Emérito de Hong Kong (China)
  • 29/01/2026 — Sua Excelência o Cardeal Gerhard Ludwig Müller

Consideradas separadamente, essas reuniões podem parecer uma parte normal da agenda de qualquer pontífice. Mas, em conjunto — e no contexto da crise litúrgica que a Igreja vem vivenciando desde Traditionis Custodes — elas convidam a pelo menos uma reflexão: Leão XIV busca uma solução estável para as comunidades ligadas ao Vetus Ordo?

Talvez estejamos sendo ingênuos ao repetir a pergunta.

Um debate que o Concílio não resolveu.

O consistório de janeiro despertou grandes expectativas a esse respeito. Durante semanas, especulou-se que a questão litúrgica encontraria espaço para reflexão colegiada entre os cardeais. Até mesmo o padre Louis-Marie de Blignières, fundador da Fraternidade de São Vicente Ferrer (França), enviou uma carta a vários cardeais propondo explorar soluções canônicas concretas para as comunidades ligadas ao rito antigo.

Nada disso aconteceu. O consistório — que decidiu concentrar-se em questões como a sinodalidade e a evangelização — não abordou publicamente o problema. O clima ficou ainda mais tenso após a publicação do documento do Cardeal Arthur Roche, interpretado por muitos como uma reafirmação da linha restritiva estabelecida por Traditionis Custodes.

O tempo está passando rapidamente para Écone — 01-07-2026

Um novo elemento de pressão se somou a essa situação. No início de fevereiro, a Fraternidade São Pio X (FSSPX) anunciou sua intenção de realizar novas consagrações episcopais em 1º de julho em Écone, com ou sem autorização de Roma.

Segundo a própria Fraternidade, a decisão foi tomada “após um longo processo de reflexão, oração e consultas internas, e depois de ter solicitado explicitamente à Santa Sé que apresentasse uma solução que garantisse a continuidade do ministério episcopal dentro da Fraternidade”.

O anúncio inevitavelmente trouxe à tona memórias da crise de 1988. Ninguém deseja uma repetição daquele episódio, mas também não se pode ignorar que a questão litúrgica permanece em aberto e que milhares de fiéis vivenciam essa situação com incerteza hoje: tanto dentro da FSSPX quanto nas comunidades tradicionais que estão em plena comunhão com Roma.

Desde então, o debate prosseguiu por meio de cartas, declarações e comentários trocados entre diferentes protagonistas do mundo eclesiástico.

Uma proposta em cima da mesa

Nesse contexto, começaram a surgir propostas que buscam superar o confronto que tem marcado o debate litúrgico há décadas. Numa entrevista recente à Famille Chrétienne, o padre Louis-Marie de Blignières enfatizou a necessidade de abandonar abordagens radicais.

“Dada a importância e a duração da crise, devemos ser razoáveis ​​e abandonar a lógica totalitária”, afirma. O sacerdote rejeita tanto a ideia de suprimir a liturgia tradicional quanto a de impor universalmente um retorno ao rito antigo: “Não desejo que os outros sejam tratados como nos trataram desde 1969”.

Sua proposta — que ele já havia apresentado ao consistório em janeiro — consiste em explorar a criação de um ordinariato para os fiéis ligado à liturgia tradicional, inspirado em estruturas já existentes na Igreja. Segundo Blignières, essa estrutura garantiria o acesso estável ao rito antigo e à pedagogia espiritual a ele associada, mantendo, ao mesmo tempo, a plena comunhão com as dioceses e a Igreja universal.

O ordinariato — segundo a sua proposta — ofereceria um instrumento jurídico flexível para responder às necessidades pastorais de muitos fiéis que hoje vivenciam essa questão com incerteza.

Mas por que essa proposta poderia ser uma das consideradas por Leão XIV?

Públicos que convidam à reflexão

As audiências realizadas nos primeiros dias de março acrescentam novos elementos a essa situação.

  • 02.03.2026 — Sua Eminência o Bispo David Arthur Waller, Ordinário do Ordinariato Pessoal de Nossa Senhora de Walsingham; Sua Eminência o Bispo Steven Joseph Lopes, Ordinário do Ordinariato Pessoal da Cátedra de São Pedro.
  • 05.03.2026 — Professor Stephen Bullivant, com o Professor Stephen Cranney.

Na segunda-feira, 2 de março, Leão XIV recebeu os chefes de dois dos ordinariatos pessoais estabelecidos para os fiéis do Anglicanismo: o de Nossa Senhora de Walsingham, no Reino Unido, e o da Cátedra de São Pedro, nos Estados Unidos e Canadá.

Essas estruturas, criadas por Bento XVI por meio da constituição apostólica Anglicanorum coetibus, mostram como a Igreja pode integrar tradições litúrgicas particulares dentro da plena comunhão eclesial.

Após a audiência com o Papa, os chefes dos ordinariatos também se reuniram com o Dicastério para a Doutrina da Fé, chefiado pelo Cardeal Victor Manuel Fernandez, onde compartilharam informações sobre a vida de suas comunidades e refletiram sobre diversos aspectos da transmissão da fé.

Nesta quinta-feira, 5 de março, o Papa também recebeu os pesquisadores Stephen Bullivant e Stephen Cranney, conhecidos por seus estudos sociológicos sobre o Catolicismo contemporâneo e sobre as atitudes dos fiéis em relação às diferentes formas do rito romano.

A audiência é particularmente significativa porque ambos estão preparando um estudo focado especificamente nos católicos que frequentam a Missa Tridentina. O estudo, intitulado “Trads: Católicos da Missa Tridentina nos Estados Unidos”, será publicado em novembro de 2026.

Num estudo preliminar publicado em 2023, os resultados mostraram que 98% dos participantes — fiéis que frequentam a Missa Tridentina — afirmaram sua crença na Presença Real de Cristo na Eucaristia, em comparação com 69% dos católicos em geral que a consideram um símbolo. Da mesma forma, uma grande maioria expressou aceitação da autoridade do Papa, e muitos também expressaram sua aceitação dos ensinamentos do Concílio Vaticano II, embora distinguindo entre os textos conciliares e algumas interpretações subsequentes.

Os autores concluem que a realidade dessas comunidades é mais rica e plenamente eclesial do que certos estereótipos costumam sugerir, e que os dados não corroboram a ideia de que essas sejam áreas marcadas por atitudes cismáticas ou por uma rejeição sistemática do Magistério.

O método de Leão XIV

Pode ainda ser cedo demais para saber se Leão XIV está preparando uma iniciativa concreta. Mas a série de audiências dos últimos meses confirma pelo menos uma atitude que o próprio Papa anunciou em entrevista a Elise Ann Allen:

“Ainda não tive a oportunidade de me reunir pessoalmente com um grupo de pessoas que defendem o Rito Tridentino. Essa oportunidade surgirá em breve, e tenho certeza de que haverá ocasiões para discutirmos o assunto”.

Não é necessário interpretar cada audiência como um sinal político. Mas também não parece razoável ignorar o contexto em que elas ocorrem.

A esperança — uma virtude profundamente cristã — nos convida a pensar que Roma ainda pode encontrar uma palavra capaz de abrir esse caminho.

Fonte: Infovaticana

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