Treinador do clube carioca comandou três jogadores do atual campeão da Champions em diferentes fases da carreira
Renato Paiva ainda é um treinador de carreira curta no futebol profissional: seu primeiro trabalho neste contexto foi o Independiente del Valle, em 2021, quatro anos antes de assumir o Botafogo. Mas a vida do treinador no esporte tem mais de 20 anos, quase todos nas categorias de base do Benfica.
A histórica vitória sobre o PSG no último domingo, pela 2ª rodada da Copa do Mundo de Clubes, também serviu para o português reencontrar alguns de seus pupilos. O treinador trabalhou com Gonçalo Ramos e João Neves nas categorias inferiores do time lusitano e com o zagueiro Willian Pacho no Del Valle – o ge contou essa história.
— Estive com os jogadores (portugueses do PSG) no fim, trouxe suas camisas e o carinho deles. Não vou dizer agradecimento (pelo impacto nas carreiras). Eles gostam muito de falar em agradecimento, mas digo sempre que eles não têm que agradecer porque são os principais responsáveis. “Se vocês não quisessem isso e não fossem quem são, não teriam chegado onde chegaram”. Posso dizer, e hoje eu comentava isso com minha comissão técnica sobre a conversa com Pacho e Gonçalo Ramos, com quem tenho uma ligação muito maior… Estavam frustrados pela derrota, mas senti um pouquinho de felicidade no abraço, nas palavras dos dois – revelou Paiva, sobre o contato com os jogadores após o jogo, em entrevista ao ge.
Paiva ainda conversa com eles de forma regular. Após a vitória, recebeu elogios dos adversários mesmo defendendo o Botafogo.
— (Gonçalo) me disse “mister, eu detesto perder, mas se tiver que perder, que seja assim para você. Estou muito feliz por você, porque você merece muito o que está acontecendo”. (Pacho) me deu um abraço muito apertado e até emocionado. Ele até me disse “sonhei muito em ser jogador profissional, sonhei muito em chegar a altos patamares, mas se você me dissesse que eu chegaria tão rápido, eu não acredito. Você foi quem me abriu a porta para eu eu estrear enquanto jogador profissional.” São esses momentos que fazem muito valer a pena o que é a profissão de um treinador de futebol, em especial um que trabalhou na base e que viu estes meninos todos crescerem – completou.
Gonçalo Ramos e Pacho foram titulares. João Neves começou a partida no banco e entrou aos 10 minutos do segundo tempo.
“O cemitério do futebol está cheio de favoritos”
Esta frase dita pelo treinador na entrevista coletiva antes do jogo viralizou e foi reforçada após a vitória. O comandante explicou o que a afirmação significa.
— Quer dizer que muitas vezes a teoria é diferente da prática. E muitas vezes, se há ciência onde 2 mais 2 não são 4, é no futebol. Quis dizer isso mesmo. Às vezes os maiores orçamentos, os melhores treinadores, os melhores jogadores não ganham. O futebol permite isso. É um esporte que te permite finalizar uma vez no gol, sofra 20 finalizações e ganhe de 1 a 0. E muitas vezes essa finalização pode até ser um gol contra (risos). Acima de tudo, antes de a bola começar a rolar, pode-se dizer o que quiser. Pode consultar as estatísticas, as probabilidades, as opiniões mais diversas e subjetivas possíveis. Quando a bola rola e termina (o jogo), há um resultado que vai definir o que muitas vezes contraria essas mesmas estatísticas, esses mesmos favoritismos. A história do futebol está cheia desses momentos em grandes finais, jogos normais de competições do campeonato. É uma das partes da história do futebol – afirmou.
Foi a primeira vitória de um clube brasileiro sobre um europeu em 13 anos, desde o título mundial do Corinthians sobre o Chelsea. O desempenho dos times do país têm impressionado – o Flamengo bateu o próprio time inglês, e Fluminense e Palmeiras empataram com, respectivamente, Borussia Dortmund e Porto. Renato Paiva vê que os representantes da competição também representam o futebol brasileiro como um todo.
— Tem, porque o Botafogo enquanto clube trabalha e desenvolve-se num contexto que é o Brasil, nas competições que se jogam em solo brasileiro. Série A, Copa do Brasil, os estaduais. Você enfrenta jogadores e times brasileiros. Obviamente, este é um trabalho que tem uma marca muito de Brasil. Depois, como disse ontem, o próprio calendário brasileiro da forma como é construído, sendo mega exigente para todos, também tem essa parte positiva de te fazer crescer e encontrar soluções onde os problemas se amontoam. Isso tudo, quando você traz para esse tipo de competição, te ajuda muito. Há uma clara influência do que é o contexto brasileiro. Depois, a qualidade dos jogadores brasileiros, que é o que eu sempre disse que foi a maior e o melhor produtor de jogadores de futebol do mundo acho que desde sempre. E as equipes vão recebendo influência de jogadores de outros países da américa do sul, mas essencialmente a grande marca é do Brasil. Todo esse contexto faz com que as equipes cheguem muitíssimo bem preparadas para a exigência de uma competição deste gênero.
Mais declarações de Renato Paiva
Acha comum torcedores de outros clubes estarem vibrando pelos brasileiros na Copa?
— Na forma como eu vejo o esporte, acho isso absolutamente normal. Sempre torci para o Benfica e sempre queria que o Benfica ganhasse nas competições portuguesas. Mas quando eram competições europeias, eu queria que os clubes portugueses ganhassem, porque era bom para Portugal. Vejo o esporte dessa forma. E entendo que o verdadeiro torcedor que ama o futebol e o seu país, e que não fica nada atacado na sua paixão pelo seu clube específico em valorizar o outro mesmo que seja rival, só o torna mais nobre. Perceber de fato se há um torcedor que vive no Brasil, e é brasileiro a princípio, que é uma marca que está sendo divulgada diante do mundo todo. Enquanto brasileiro, acho que é um momento de orgulho para todos. Depois, há os “antis”, mas isso haverá no futebol como há na sociedade. Hoje, infelizmente, você pode fazer 50 coisas ótimas. Se faz uma que não é tão boa, é essa que vai vender, repercutir e ganhar dimensão. Nâo é um problema do futebol, mas da sociedade, e o futebol não se dissocia. Nossa sociedade hoje está assim, tal como o imediatismo. Hoje Renato Paiva é um gênio, há três dias era um burro. Hoje o jogador X é fantástico, há três dias era perneta. Isso é a sociedade em que há um esporte paralelo a todos os esportes, que é o esporte da razão. Eu quero ter a razão à força, diga o que eu disser. Muitas vezes, você fala contra o seu clube, até espero que não tenha êxito, para que eu tenha razão. Isso é um mal da sociedade que eu não sei como vai ser corrigido. Mas sei como nós, Botafogo e grupo, vivemos com isso: fechados, não ouvindo absolutamente nada que te ponha na Lua ou cá embaixo. Nós precisamos de equilíbrio. E até já contextualizando, precisamos jogar o último jogo para ganhá-lo e passar de fase, o que ainda não fizemos.
Se tivesse que fazer uma lista dos dias mais especiais da sua carreira, em qual lugar ficaria PSG 0 x 1 Botafogo?
— O dia mais importante em questões profissionais foi quando entrei no Benfica e comecei todo este trajeto. O segundo dia mais bonito que tive foi quando fomos campeões no Independiente Del Valle, não sendo uma equipe favorita e sendo a minha primeira experiência no exterior no futebol profissional. Começar assim foi marcante, fazendo história em um país e um clube que nunca tinha sido campeão. O terceiro momento de maior impacto é este (PSG 0 x 1 Botafogo) pela magnitude do feito, pela repercussão mundial, onde chegou esta notícia. São os três momentos que coloco em um mesmo patamar, mas com sentimentos diferentes.
Fonte: GE


