O escritor e jornalista Eduardo Bueno, conhecido como Peninha, sempre cultivou uma persona provocadora. Autor de best-sellers de história do Brasil e figura marcante em programas de rádio, TV e internet, construiu sua carreira equilibrando erudição e deboche, conquistando admiradores e críticos. Mas o que por anos foi um diferencial de estilo agora se transformou em combustível para a maior crise pública de sua trajetória.
Em setembro, Peninha publicou um vídeo nas redes sociais em que ironizava a morte de Charlie Kirk, ativista conservador norte-americano assassinado naquele mês. Na gravação, disse que a morte de um militante político é sempre trágica — “exceto quando é Charlie Kirk” — e insinuou que a perda poderia ser “boa para suas filhas”. A fala, em tom de escárnio, rapidamente viralizou e desencadeou uma reação em cadeia.
O episódio não ficou restrito ao debate virtual. A Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) cancelou uma apresentação de Peninha em Porto Alegre, e a Livraria Travessa suspendeu uma palestra que estava programada na capital gaúcha. Até mesmo o podcast que ele mantinha com um parceiro de longa data foi encerrado, marcando uma ruptura em um dos projetos que mais ampliavam sua presença digital.
Diante da repercussão negativa, Peninha divulgou uma retratação, reconhecendo “deslizes e excessos”, embora tenha insistido em defender seu posicionamento político e acusado setores organizados de promoverem um “movimento orquestrado” contra ele. A reação, porém, não impediu que a polêmica ganhasse contornos institucionais: parlamentares gaúchos enviaram um ofício ao consulado dos Estados Unidos em Porto Alegre, classificando as declarações como ofensivas e diplomática e culturalmente inaceitáveis.
A crise expõe um paradoxo na trajetória de Peninha. Por décadas, sua irreverência foi justamente o que o destacou em meio à divulgação histórica tradicional. Sua forma coloquial de narrar a história do Brasil, recheada de ironia, palavrões e provocações, cativou gerações de leitores e ouvintes. Mas no ambiente polarizado de hoje, a mesma irreverência que o projetou passa a ser vista como irresponsabilidade — especialmente quando ultrapassa a fronteira do humor para o deboche diante de uma morte.
Agora, o escritor enfrenta não apenas o cancelamento de eventos e projetos, mas também um desgaste simbólico: a dificuldade de manter a imagem de intelectual irreverente sem que ela seja confundida com hostilidade gratuita. A pergunta que se coloca é se Peninha conseguirá transformar mais essa controvérsia em parte de sua narrativa — como já fez em outras polêmicas ao longo da carreira — ou se desta vez o peso do estilo será maior do que sua capacidade de reinvenção.
Reportagem e pesquisa: Marcelo Rodrigues


