Magé: Fé, História e Natureza — o encanto religioso e turístico de um dos municípios mais antigos do Rio

Rio de Janeiro

Por séculos, Magé, na Baixada Fluminense, tem sido um território onde o sagrado e o natural caminham lado a lado. Fundado em 1566, o município guarda memórias do Brasil colonial, da devoção católica que moldou sua cultura e de paisagens exuberantes que fazem dele um destino de fé e contemplação.

Um município entre a serra e o mar

Quem chega a Magé se surpreende com a mistura de montanha, mar e mata. O município é cercado por rios, manguezais e cachoeiras, e conserva boa parte da Mata Atlântica. Entre os pontos mais procurados está a Cachoeira Véu da Noiva, em Santo Aleixo — uma queda d’água de mais de 100 metros, cercada por trilhas e piscinas naturais.

“Eu venho aqui desde menina. A água é gelada, mas parece que renova a alma”, conta Dona Lúcia Ferreira, moradora do distrito de Rio do Ouro. “Tem gente que vem pra relaxar, outros vêm pra rezar, agradecer… cada um encontra o que precisa.”

Outro destaque é o Caminho do Ouro, trilha histórica usada por tropeiros e escravos no século XVIII, ligando as minas de ouro do interior ao porto de Guia de Pacobaíba — primeira estação ferroviária do Brasil. “É caminhar pela história. Cada pedra do caminho conta um pedaço do que fomos”, explica o guia turístico Ricardo Nogueira, que atua na região há 12 anos.

O berço da fé católica fluminense

O catolicismo chegou cedo a Magé e se espalhou pelos distritos. Igrejas erguidas há mais de três séculos se tornaram símbolos da devoção popular. São templos que sobreviveram a guerras, epidemias e transformações urbanas.

Entre elas, destaca-se a Igreja de São Nicolau de Suruí, de 1710, e a Igreja de Nossa Senhora da Piedade de Magepe, construída em meados do século XVII. No alto do Morro do Bonfim, a Capela de Nosso Senhor do Bonfim, de 1883, é um dos pontos mais visitados, especialmente durante a Semana Santa.

“Os sinos dessas igrejas são como a voz da cidade. Quando tocam, parece que Magé inteira para por um instante”, diz Padre Antônio Carlos, pároco da Matriz de Nossa Senhora da Guia.

Em 2024, o município lançou o roteiro religioso “Caminho das Centenárias”, que reúne quatorze igrejas com mais de 100 anos. O circuito foi reconhecido como Patrimônio Imaterial do Estado do Rio. Para o historiador Eduardo Quintanilha, “Magé é um verdadeiro museu a céu aberto da fé católica fluminense”.

O sagrado nas águas e nas trilhas

No Poço Bento, localizado próximo ao Caminho do Ouro, os fiéis acreditam que São José de Anchieta teria abençoado as águas, curando doenças durante o período colonial. O local virou ponto de peregrinação.

“Meu filho ficou doente e eu trouxe água daqui. Foi um milagre”, relata Dona Marinalva Souza, devota que visita o poço todos os anos. “As pessoas vêm buscar fé, não só água.”

Os moradores enxergam esses espaços como pontes entre o natural e o divino. “Aqui a gente não separa natureza e religião. Tudo é criação de Deus”, resume o jovem catequista Caio Nunes, que organiza romarias pelo município.

Desafios e preservação

Apesar da riqueza cultural, algumas igrejas e capelas sofrem com o tempo. As Ruínas da Igreja de Nossa Senhora da Estrela dos Mares, do século XVII, ainda aguardam restauração completa. A Prefeitura de Magé, em parceria com o Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, realiza estudos para escoramento e recuperação.

“Preservar é manter viva a memória de um povo. Cada ruína é um testemunho de fé”, afirma Maria Eduarda Campos, coordenadora do Departamento de Cultura e Patrimônio da cidade.

O turismo religioso, ecológico e histórico vem sendo trabalhado de forma integrada, com sinalização de pontos turísticos, visitas guiadas para estudantes e incentivo ao agroturismo nos distritos rurais.

Um roteiro de fé e identidade

Magé não é apenas um destino para quem busca belas paisagens. É também um convite à reflexão sobre o tempo, a fé e a história. Em cada igreja centenária, em cada trilha coberta de folhas, em cada água que brota da serra, o visitante encontra um pedaço da alma mageense.

“Quem passa por Magé sente algo diferente — é como se a terra, a fé e a história conversassem com a gente”, diz o padre Antônio, olhando para o altar da Guia de Pacobaíba.

E é justamente essa fusão entre o sagrado e o natural que faz de Magé um dos lugares mais ricos e singulares da Baixada Fluminense — um patrimônio vivo da cultura e da fé do povo fluminense.

Reportagem e pesquisa: Marcelo Rodrigues

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