Presidência interina marca ruptura administrativa, arquiva CPIs e expõe disputa pelo comando definitivo do Legislativo fluminense
Por Marcelo Rodrigues
A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ) vive um de seus momentos mais turbulentos dos últimos anos. Em meio a uma crise institucional sem precedentes, o deputado estadual Guilherme Delaroli (PL) assumiu a presidência interina da Casa e, em poucos dias, imprimiu um ritmo próprio: demissões em massa, reorganização do poder interno e decisões que alteram o tabuleiro político do Parlamento fluminense.
Delaroli chegou ao comando da ALERJ após o afastamento e a prisão de Rodrigo Bacellar, investigado pela Polícia Federal por suposto envolvimento em vazamento de informações sigilosas. A mudança no comando não foi apenas protocolar. Ela veio acompanhada de uma faxina administrativa que atingiu o coração do Legislativo estadual.
Mais de 200 exonerados e o recado político
Logo nos primeiros dias à frente da presidência, Delaroli assinou a exoneração de mais de 200 servidores comissionados, muitos deles ligados diretamente ao grupo político do presidente afastado. Entre os nomes dispensados estavam figuras de alto simbolismo político, incluindo parentes do ex-governador Sérgio Cabral, condenado por corrupção.
As demissões atingiram assessores, diretores e ocupantes de cargos estratégicos, provocando forte reação nos bastidores da Casa. Oficialmente, a presidência justificou a medida como parte de uma “transição administrativa natural”. Nos corredores da ALERJ, no entanto, a leitura foi outra: um recado claro de que uma nova correlação de forças estava sendo instalada.
Parlamentares pressionaram pela reversão de algumas exonerações, enquanto grupos internos tentavam preservar espaços de poder. O movimento expôs a fragilidade de alianças e abriu uma disputa silenciosa pela influência sobre o novo comando do Legislativo.
CPIs arquivadas e mudança de rumo
Além das exonerações, Delaroli tomou outra decisão de alto impacto político: determinou o arquivamento de duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) que vinham sendo conduzidas por aliados de Bacellar e causavam desgaste ao governo estadual.
A medida foi justificada por questões técnicas e regimentais, mas gerou críticas de parlamentares da oposição, que acusaram a presidência interina de usar o cargo para reorganizar interesses políticos e conter investigações incômodas.
Quem é Guilherme Delaroli
Eleito deputado estadual em 2022 com mais de 114 mil votos, Guilherme Delaroli é um dos principais nomes do Partido Liberal no Rio de Janeiro. Ex-oficial da Polícia Militar, construiu sua base eleitoral principalmente na Região Metropolitana Leste Fluminense.
Antes de assumir a presidência interina, ocupava o cargo de 1º vice-presidente da ALERJ e presidia a Comissão de Obras Públicas. Também integra comissões estratégicas como Constituição e Justiça e Segurança Pública, o que lhe garantiu trânsito entre diferentes alas do Parlamento.
Delaroli sempre manteve um discurso voltado à organização administrativa, segurança pública e fortalecimento institucional da Casa.
Leis, requerimentos e atuação legislativa
No campo legislativo, Delaroli tem atuação marcada pela relatoria de projetos e pareceres técnicos, especialmente em matérias administrativas e de organização do serviço público. Entre seus trabalhos está a análise de propostas relacionadas a concursos públicos, reclassificação de candidatos e adequação de normas internas da ALERJ.
Embora não seja autor de grande volume de leis de forte apelo popular, seu perfil é visto como técnico e estratégico, com influência concentrada nos bastidores, nas comissões e na Mesa Diretora.
À frente da presidência, Delaroli sinalizou como prioridades a retomada da agenda legislativa, a votação de pautas sensíveis — como matérias ligadas ao financiamento da educação — e a reorganização interna da Assembleia.
Disputa pelo comando definitivo
A interinidade de Guilherme Delaroli acontece em um cenário de incerteza. O futuro da presidência da ALERJ depende do desfecho judicial envolvendo Rodrigo Bacellar, mas, até lá, o deputado do PL se movimenta para consolidar sua liderança e ampliar apoio político dentro da Casa.
As decisões tomadas até agora indicam que Delaroli não pretende ser apenas um presidente provisório. As demissões, o arquivamento de CPIs e a reorganização administrativa revelam um projeto claro de poder — e colocam seu nome no centro do debate sobre o futuro do Legislativo fluminense.


