O Eldorado venezuelano

Internacional

Da corrida colonial ao Arco Mineiro do Orinoco, a Venezuela entra no radar global por recursos estratégicos e pela escalada de violência nos garimpos.

O imaginário do Eldorado persiste desde a época das grandes navegações. O fantástico contagiou os invasores europeus que imaginavam encontrar nas Américas tanto ouro quanto viam (ou ouviram falar) nos templos hinduístas e budistas orientais.

Devemos a essa busca toda a história da Amazônia, inclusive o seu nome, uma referência às Amazonas, uma sociedade de mulheres guerreiras que viviam em Manoa, a cidade toda feita de ouro.

Ao longo da história americana, esse impulso exploratório foi sendo reatualizado sob diferentes formatos. Os Estados Unidos, ele próprio antiga colônia inglesa, consolidaram-se como potência bélica e econômica, estabelecendo relações de colonialidade com os outros países do continente.

À semelhança dos antigos invasores europeus, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, rompeu tratados internacionais e intensificou disputas geopolíticas em torno de recursos estratégicos, reeditando, em chave moderna, a busca pelo Eldorado na Amazônia.

Nesse contexto, a Amazônia ocupa posição central como guardiã de ouro, petróleo e de outros minerais estratégicos de interesse comercial para o que tem sido chamado de transição energética.

Mineração e garimpo
No português, o termo garimpeiro designa a exploração rudimentar de ouro e pedras preciosas, enquanto mineração refere-se, em geral, à exploração industrial de minérios.

Em espanhol, contudo, essa distinção praticamente não existe: utilizam-se os termos mina, minería e mineros tanto para atividades industriais quanto artesanais.

Assim, do ponto de vista linguístico, não há diferenciação explícita quanto ao tipo de técnica empregada na extração mineral, o que também se reflete nas ambiguidades das políticas públicas voltadas ao setor.

El dorado, o ouro dourado
A exploração de ouro na Venezuela teve início na região de El Callao, no estado Bolívar, em 1853. Algumas décadas depois, uma empresa inglesa assumiu a exploração vertical de mina de ouro. Outras empresas vieram, mas se foram junto com a alta do preço do metal precioso. Porém, deram início a uma cultura mineira na região que só cresceu.

Em 1970, foi fundada a empresa estatal Minerven, nacionalizada quatro anos depois. Paralelamente, multinacionais e empresas ligadas às elites econômicas nacionais receberam concessões, mas exploravam de maneira descontrolada e praticavam especulação financeira, descomprometidas com o desenvolvimento do setor.

Cultura mineira
A exploração rudimentar de ouro e diamante formou ao longo dos anos uma cultura garimpeira acostumada a viver de modo itinerante, indo de mina em mina em busca de riqueza.

Os garimpeiros disputam territórios com os povos indígenas e deixam um amplo rastro de devastação ambiental. Desenvolveram uma cultura violenta relacionada a muitos setores da clandestinidade, o comércio ilegal de armas e insumos, como o mercúrio, e a prostituição. E uma ampla rede de transporte (aéreo, terrestre, fluvial) e comunicação.

A garimpagem na Amazônia possui ainda uma característica transnacional porque agrega garimpeiros de diferentes países da Pan Amazônia que circulam na região.

O arco mineiro do Orinoco
Em 2011, o governo de Hugo Chávez criou oficialmente o Arco Mineiro do Orinoco, nacionalizando a exploração de ouro e metais estratégicos antes controlada por multinacionais. A iniciativa buscava reduzir a dependência da economia petrolífera. Mas Chávez deixou em aberto o papel dos pequenos garimpeiros.

O Arco Mineiro do Orinoco abrange uma área de 112 mil quilômetros quadrados, concentrando-se principalmente no norte do estado Bolívar, mas também nos estados de Delta Amacuro e Amazonas, todos na porção venezuelana da Pan Amazônia.

Em fevereiro de 2016, o governo de Nicolás Maduro retomou o projeto. Foram demarcadas 23 áreas de mineração, destinadas tanto à pequena exploração quanto à grande indústria, esta obrigatoriamente sob regime de capital misto público-privado, à semelhança do modelo petrolífero.

Os garimpeiros venezuelanos
A partir de 2017, foram realizadas as primeiras ações para formalizar a atividade de garimpagem no Arco Mineiro do Orinoco, como o censo de sua população. Em troca do reconhecimento oficial, os garimpeiros deveriam vender obrigatoriamente seu ouro à empresa estatal, ao preço do mercado internacional, comprometendo-se a respeitar normas específicas.

A modernização do setor previa, por exemplo, a substituição do uso de mercúrio por outras substâncias para aumentar o aproveitamento do ouro retirado da terra. Contudo, o agravamento da crise social no país minou esse, entre outros planos de governo.

O ouro azul
O coltan tem sido chamado de “ouro azul”, em função de sua coloração. É considerado um metal raro, não porque existe em pequena quantidade, mas porque poucos países possuem tecnologia para sua extração e utilização.

É encontrado no que tem sido chamado de “terras raras”, pois estão concentrados em locais específicos do planeta. A maior delas está localizada na China que, não por acaso, detém 91% da exploração de minérios chamados de estratégicos.

Uma importante fonte de coltán, o ouro azul, está localizada na fronteira entre a Venezuela e a Colômbia. No estado do Amazonas, o Orinoco é a fronteira física entre os dois países. O plano de governo para o Arco Mineiro do Orinoco incluía a exploração de coltán. Mas a participação estrangeira não se materializou em investimentos. Ao longo de uma década, os mineiros/garimpeiros de pequena escala seguem sendo responsáveis por grande parte de produção mineral da Venezuela.

As organizações criminosas
Assim como ocorreu nos garimpos da Amazônia brasileira, o perfil da violência nos garimpos venezuelanos mudou a partir de 2015.

Fatos importantes da Pan Amazônia, como a dissolução das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farcs), o fortalecimento de grupos dissidentes e a integração entre facções criminosas foram preponderantes para isso.

A impossibilidade de rastrear a origem do ouro facilita o contrabando desse mineral e a lavagem de dinheiro a partir dele, o que é muito oportuno para o tráfico de drogas, armas e pessoas. Em vez de empresas mineradoras, grupos armados de civis pró-governo, facções criminosas e paramilitares passaram a disputar, com violência, o controle territorial e o comércio de minérios.

O ouro negro
O governo dos Estados Unidos deixa claro que tem pretensões comerciais relacionadas ao petróleo, o ouro negro. A Venezuela tem a segunda maior reserva do mundo. Os EUA têm protagonizado cenas de cinema ao capturar navios venezuelanos carregados de petróleo, como faziam, antigamente, os piratas do Caribe por carregamentos de ouro e prata.

Uma vez mais, na geopolítica da Pan Amazônia, há atores disputando a exploração do eldorado multicor venezuelano. Entre os quais, grupos de poder nacionais, os Estados Unidos e conglomerados econômicos capitaneados por China e Rússia. Esses últimos disputam a hegemonia da economia mundial, hoje, baseada, principalmente, na aquisição de terras raras, em razão da centralidade de minérios estratégicos para a produção de novas tecnologias.

Fonte: BCN

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