Por Marcelo Rodrigues | RCNEWS
A rotina de milhares de trabalhadores informais no Rio de Janeiro tem sido marcada por tensão, medo e incerteza. Vendedores ambulantes — que há décadas fazem parte da identidade econômica e cultural da cidade — denunciam uma atuação cada vez mais dura e, em muitos casos, abusiva da Guarda Municipal do Rio de Janeiro.
Relatos frequentes apontam para apreensões violentas de mercadorias, perseguições em vias públicas e, o que é ainda mais grave, o desaparecimento de produtos nos depósitos públicos. Para muitos desses trabalhadores, a perda da mercadoria não representa apenas prejuízo financeiro, mas a destruição imediata da única fonte de sustento de suas famílias.
Fiscalizar é necessário — mas até que ponto?
É inegável que a atuação do poder público na organização do espaço urbano e no combate à venda de produtos de procedência duvidosa é fundamental. No entanto, a linha entre fiscalização e repressão tem sido ultrapassada de forma preocupante.
A ausência de critérios claros, de diálogo e de políticas públicas efetivas escancara uma realidade: o ambulante é tratado como problema, não como parte da solução.
Ao invés de inclusão, formalização e apoio, o que se vê nas ruas é a criminalização da pobreza.
Pais de família acuados
Por trás de cada barraca desmontada, existe uma história. São pais e mães que acordam cedo, enfrentam sol e chuva, e encontram no comércio informal uma alternativa honesta diante da escassez de oportunidades no mercado formal.
Quando suas mercadorias são levadas, muitas vezes sem transparência ou possibilidade de recuperação, não é apenas um carrinho ou uma caixa de produtos que desaparece — é o sustento de uma família inteira que se esvai.
Falta de política pública escancara omissão
A principal crítica recai sobre a ausência de uma política estruturada por parte da Prefeitura do Rio. Ao longo de anos, pouco foi feito para integrar esses trabalhadores à economia formal de maneira digna e viável.
ex-prefeito Eduardo Paes, que esteve à frente da cidade por três mandatos e meio antes de deixar o cargo para disputar o Governo do Estado, teve tempo e capital político suficientes para enfrentar o problema. No entanto, falhou em apresentar uma solução concreta e duradoura.
A gestão optou por medidas paliativas e ações de força, ignorando a complexidade social e econômica que envolve o comércio ambulante no Rio.
Economia informal ignorada
Fechar os olhos para a economia informal é, no mínimo, um ato de negligência. O comércio de rua movimenta milhões, gera empregos e mantém comunidades inteiras ativas.
Ignorar essa realidade ou tratá-la apenas com repressão demonstra um distanciamento preocupante entre o poder público e a população que mais precisa dele.
Entre a ordem e a dignidade
O desafio da cidade do Rio de Janeiro não é eliminar os ambulantes, mas encontrar formas inteligentes de organizá-los, regulamentá-los e apoiá-los. A força não pode ser o principal instrumento de gestão pública.
A cidade que se orgulha de sua diversidade e vitalidade não pode continuar tratando trabalhadores como inimigos.
A pergunta que fica é: até quando a sobrevivência de milhares será tratada como caso de polícia?








