Empresário foi afastado da gestão da SAF por Tribunal Arbitral da FGV; decisão será reavaliada na próxima quarta-feira
Apesar de ter viajado com a delegação do Botafogo para assistir ao empate com o Internacional, no último sábado, John Textor continua fora do comando da SAF. O empresário americano foi afastado em decisão do Tribunal Arbitral da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que pode ser revista na próxima quarta-feira.
A briga societária é mais um capítulo de uma trajetória que se assemelha a uma montanha-russa nos bastidores. O torcedor do Botafogo presenciou duas das maiores conquistas da história do clube — Libertadores e Campeonato Brasileiro, ambas em 2024 —, mas hoje vive um cenário de incerteza e caos administrativo.
O ge mostra, em uma linha do tempo, os principais altos e baixos de gestão Textor desde 2022, ano em que o Botafogo tornou-se SAF.
2022: a chegada ao Rio
Após conquistar o acesso em 2021, o Botafogo anunciou acordo com John Textor, que assumiu oficialmente o controle da SAF. A proposta foi chancelada pelo Conselho Deliberativo, pelos sócios e muito comemorada pela torcida, que fez festa na sede de General Severiano no dia da votação. Um empréstimo-ponte de R$ 50 milhões foi celebrado antes do assinatura definitiva.
O empresário chegou querendo aplicar sua maneira de fazer futebol: o “Botafogo Way”, lema repetido até os dias de hoje. Enderson Moreira, técnico da equipe em 2021, foi desligado; André Mazzuco assumiu o cargo de executivo de futebol.
Na primeira janela de transferências da era SAF, Textor gastou R$ 65 milhões e fez, à época, a maior contratação da história do clube. Patrick de Paula foi adquirido pelo Botafogo por R$ 33 milhões, referentes a 50% dos direitos do volante.
Em um ano de adaptação ao Brasil, a equipe comandada por Luís Castro – primeiro técnico contratado por Textor – foi eliminada pelo América-MG nas oitavas de final da Copa do Brasil e terminou o Campeonato Brasileiro na 11ª posição.
2023: a dor do “quase”
A segunda temporada da Era Textor foi marcada pela ascensão esportiva do Botafogo. A disputa pelo título brasileiro com o Palmeiras, ainda que perdida, representou uma virada de chave que pavimentou um caminho de glórias no ano seguinte.
A equipe de General Severiano, ao final do primeiro semestre, disparou na liderança do Brasileirão. A diferença chegou a 13 pontos, mas começou a derreter após a saída de Luís Castro, que recebeu uma proposta do Al-Nassr.
O Botafogo contratou o português Bruno Lage . A “gordura” na liderança começou a diminuir, e a pressão acarretou a demissão do português. Lúcio Flávio assumiu o time.
Até que veio o golpe mais duro: uma derrota de virada para o Palmeiras, dentro de casa, no Nilton Santos. Após abrir 3 a 0, o time alvinegro saiu derrotado por 4 a 3. Em meados de novembro, outra troca de comando, com a chegada de Tiago Nunes.
Paralelamente à derrocada no Brasileirão, Textor iniciou uma cruzada contra a CBF e viu a rivalidade com o Palmeiras se estender para os bastidores. O dono da SAF alvinegra chegou a contratar um estudo da empresa Good Game, que apontou que o Botafogo deveria ter dez pontos a mais na tabela e os paulistas, 13 a menos.
Os desdobramentos chegaram a envolver o STJD, o Ministério Público e até a Justiça Comum, mas não deram em nada. Dentro de campo, o Botafogo não apenas não conquistou o Brasileirão, como ficou fora do G-4, em quinto, indo à pré-Libertadores.
2024: o Botafogo conquista o Brasil e a América
John Textor continuou atuando nos bastidores. Frente aos microfones, o americano continuou afirmando que havia manipulação e corrupção no futebol brasileiro. Enquanto isso, o Botafogo começava a montar um dos maiores esquadrões de sua história.
Artur Jorge foi contratado como o novo técnico do Botafogo após a demissão de Tiago Nunes. Chegaram Luiz Henrique, Almada, Igor Jesus, Alex Telles, Vitinho, Gregore, John e Savarino. A espinha dorsal se formou ao decorrer do ano e ganhou força após exorcizar o fantasma de 2023, ao eliminar o Palmeiras nas oitavas de final da Libertadores.
O Botafogo viveu a sua lua de mel após conquistar a Libertadores contra o Atlético-MG, no Monumental de Nuñez, e o Campeonato Brasileiro, diante do São Paulo, no Estádio Nilton Santos. O americano virou ídolo para muitos torcedores.
2025: o castelo desmorona
Não houve muito tempo para comemorar as conquistas. No meio das celebrações, o técnico Artur Jorge recebeu uma proposta e seguiu para o Al-Rayyan, do Catar. Foram 55 longos dias até que Renato Paiva foi contratado para assumir o cargo.
Em meio às indefinições, com Carlos Leiria e Cláudio Caçapa como interinos, o Botafogo perdeu a Supercopa do Brasil para o rival Flamengo e, na Recopa Sul-Americana, foi vice para o Racing (Argentina). O Botafogo também vendeu um dos principais craques das conquistas de 2024, e Luiz Henrique foi para o Zenit.
Textor chamou a atenção por repetir, em algumas ocasiões, que a temporada começaria apenas em abril — declaração que foi lembrada por torcedores do Botafogo em protestos. O ponto alto do ano foi a vitória épica contra o PSG, em junho, Copa do Mundo de Clubes.
Em seguida, no entanto, o time foi eliminado para o Palmeiras nas oitavas de final da competição. A queda para o Vasco nas quartas de final da Copa do Brasil, no Nilton Santos, foi a cereja do bolo para uma temporada melancólica.
Em meio aos insucessos esportivos, o Botafogo viu iniciar uma debandada. Igor Jesus, Jair, John, Gregore e Cuiabano se despediram do clube; Gregore foi o único a não seguir para o Nottingham Forest, time do grego Evangelos Marinakis, constante parceiro de negócios de Textor.
Nos bastidores, o americano deixou o controle do Lyon; iniciou uma disputa societária na Eagle, sua rede multiclubes; e viu a relação com o Botafogo social estremecer.
2026: eliminação na Libertadores e afastamento
O planejamento esportivo de 2026 contou com um técnico definido desde o início da temporada, visto que Martín Anselmi foi contratado em dezembro passado. Mas a definição do comando técnico acabou ficando em segundo plano frente a outro problema administrativo e financeiro. Desta vez, um transfer ban imposto pela Fifa devido ao não pagamento por Thiago Almada.
Houve promessas de rápida quitação da dívida com o Atlanta United, mas isso não aconteceu. O clube só pôde registrar atletas novamente mais de um mês depois, na primeira semana de fevereiro, quando as partes chegaram a um acordo.
No aspecto campo e bola, o primeiro grande desafio foi a pré-Libertadores, mas o Botafogo acabou eliminado ainda na terceira fase. Sem vaga na fase de grupos do principal torneio do continente, restou a Sul-Americana.
Textor também rompeu relações com seu antigo parceiro Thairo Arruda, que deixou o cargo de CEO do Botafogo. A briga com a Eagle Football e a credora Ares deixou a Justiça do Rio e passou a ser debatida no Tribunal Arbitral da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que afastou Textor do comando da SAF na última quinta-feira.
Os problemas financeiros geraram outro transfer ban, desta vez por inadimplência junto ao Ludogorets pela transação de Rwan Cruz. A SAF também entrou com uma medida cautelar antecedente a um processo de recuperação judicial para tentar estancar a crise – um laudo encomendado pela SAF aponta dívida de curto prazo de R$ 1,6 bilhão.
Em março de 2026, Textor perdeu poderes como diretor na Eagle Bidco, empresa dona dos direitos da SAF, ainda que tenha permanecido como gestor do Botafogo. Na última quinta-feira, no entanto, o Tribunal Arbitral da FGV – que passou a ser o foro jurídico para as brigas societárias – afastou o americano. A decisão será reavaliada na próxima quarta-feira.
Fonte: GE


