SÉRIE ESPECIAL — O INFERNO NA VISÃO DOS SANTOS

Igreja

EPISÓDIO 6

SANTO AFONSO MARIA DE LIGÓRIO E A ETERNIDADE DAS PENAS

Doutor da Igreja ensinava que o aspecto mais terrível do inferno é saber que a separação de Deus não terá fim, mas dedicou seu ministério a conduzir os pecadores à confiança, à oração e ao sacramento da Confissão

O sofrimento pode ser intenso, mas a esperança de que um dia terminará oferece algum consolo. Uma doença pode ser curada, uma provação pode passar e até a própria morte encerra as dores desta vida.

No inferno, porém, essa esperança não existe.

Para Santo Afonso Maria de Ligório, o aspecto mais terrível da condenação é a eternidade: a consciência de que a separação de Deus e suas consequências jamais terão fim.

Bispo, missionário, fundador dos Redentoristas e Doutor da Igreja, Santo Afonso dedicou importantes meditações aos chamados novíssimos: morte, juízo, inferno e paraíso.

Na obra “Preparação para a Morte”, ele não trata essas realidades como assuntos distantes. Procura despertar no leitor a consciência de que a vida presente é breve e cada pessoa caminha para a eternidade.

O livro apresenta meditações específicas sobre as penas do inferno, sua duração eterna e o remorso dos condenados. Entretanto, seria um erro enxergar Santo Afonso somente como um pregador do medo.

Ele viveu em uma época marcada pelo rigorismo religioso e tornou-se um grande defensor da misericórdia no sacramento da Reconciliação. Ensinava os confessores a acolher os pecadores com paciência, prudência e bondade, conduzindo-os ao abraço de Deus.

Suas advertências sobre o inferno tinham uma finalidade pastoral: convencer as pessoas a não adiarem a conversão.

QUEM FOI SANTO AFONSO?

Afonso Maria de Ligório nasceu em 27 de setembro de 1696, em Marianella, próximo a Nápoles, na Itália.

Pertencia a uma família nobre e recebeu uma formação intelectual de alto nível. Demonstrando grande capacidade desde jovem, tornou-se doutor em Direito Civil e Canônico e iniciou uma carreira de advogado.

Depois de perder uma importante causa judicial, passou por uma profunda crise. Compreendeu que o prestígio e o sucesso profissional não eram suficientes para sustentar sua vida.

Abandonou a advocacia e decidiu dedicar-se inteiramente a Deus.

Apesar da resistência do pai, Afonso iniciou sua preparação para o sacerdócio. Foi ordenado em 1726 e passou a trabalhar principalmente entre os pobres, os trabalhadores e as populações espiritualmente abandonadas da região de Nápoles.

Em 1732, fundou a Congregação do Santíssimo Redentor, conhecida como Congregação dos Redentoristas. A nova comunidade assumiu a missão de anunciar o Evangelho especialmente aos pobres e às pessoas que não recebiam assistência religiosa adequada.

Afonso tornou-se bispo de Santa Ágata dos Godos e exerceu um intenso ministério pastoral. Escreveu sobre teologia moral, oração, vida espiritual, devoção a Nossa Senhora e amor a Jesus Cristo.

Entre suas obras mais conhecidas estão “As Glórias de Maria”, “A Prática do Amor a Jesus Cristo”, “O Grande Meio da Oração” e “Preparação para a Morte”.

Faleceu em 1º de agosto de 1787. Foi canonizado em 1839, proclamado Doutor da Igreja em 1871 e declarado padroeiro dos confessores e dos teólogos moralistas em 1950.

PREPARAR-SE PARA A ETERNIDADE

“Preparação para a Morte” reúne 36 considerações destinadas ao exame de consciência e à conversão.

A obra aborda a brevidade da vida, a certeza da morte, a incerteza de sua hora, o valor do tempo, o pecado mortal, a misericórdia de Deus, o juízo particular, o juízo final, o inferno, o Céu, a oração e a perseverança.

O objetivo não é fazer com que o cristão pense constantemente na morte de maneira angustiante.

Meditar sobre o fim da vida significa aprender a utilizar corretamente o presente.

Quando uma pessoa recorda que seus bens, títulos e conquistas ficarão para trás, torna-se capaz de distinguir o que é passageiro daquilo que possui valor eterno.

A morte é certa, mas sua hora permanece desconhecida. Por isso, Santo Afonso insiste que a conversão não pode ser continuamente adiada.

A pessoa que pretende mudar somente no futuro age como se tivesse recebido a garantia de que haverá um amanhã.

O tempo pertence a Deus. A oportunidade concreta de amar, reparar o mal e procurar o perdão existe agora.

A PRINCIPAL PENA: PERDER DEUS

Ao refletir sobre o inferno, Santo Afonso apresenta diferentes formas de sofrimento. Contudo, acompanha a doutrina católica ao colocar a perda de Deus acima de todas as outras penas.

A alma foi criada para o Criador. Nenhum bem limitado consegue preencher completamente o desejo humano de felicidade.

Na condenação, a pessoa compreende que perdeu o Bem infinito para o qual havia sido criada.

Ela reconhece o amor recusado, as graças desprezadas e as oportunidades de conversão que deixou passar.

Essa perda não é temporária.

A alma não permanece afastada de Deus durante alguns anos ou séculos para depois alcançar a comunhão. A escolha realizada até o momento da morte assume uma condição definitiva.

O inferno não deve ser confundido com o purgatório.

No purgatório, as almas estão salvas. Elas amam Deus, possuem esperança e passam por uma purificação temporária antes de entrarem plenamente no Céu.

No inferno, existe a separação eterna daquele que é a fonte de toda vida, verdade e felicidade.

O SOFRIMENTO DE SABER QUE NÃO HAVERÁ FIM

Santo Afonso convida seus leitores a refletir sobre o significado da palavra “eternidade”.

Na experiência humana, tudo possui alguma medida. Os dias, os anos e os séculos podem ser contados.

A eternidade não é apenas um período muito longo. Ela não possui um ponto final.

Não importa quanto tempo se imagine, esse tempo ainda seria finito. Mesmo milhões de anos terminariam um dia. A eternidade, por definição, não termina.

Para o santo, essa consciência aumenta todas as demais penas.

Um condenado não sofre apenas o afastamento de Deus. Ele sabe que esse afastamento jamais será modificado.

Não existe expectativa de libertação, intervalo ou possibilidade de recomeço.

Na terra, uma pessoa presa pode contar os dias até sua liberdade. Um enfermo pode esperar por um tratamento. Alguém que sofre pode acreditar que a morte encerrará sua dor.

Na condenação eterna, não há um futuro capaz de modificar a condição presente.

Esse é o sofrimento de saber que o sofrimento não terá fim.

O REMORSO DOS CONDENADOS

Depois de meditar sobre as penas e a eternidade do inferno, Santo Afonso dedica uma consideração ao remorso dos condenados.

A consciência recorda aquilo que poderia ter sido feito para alcançar a salvação.

A alma percebe que, muitas vezes, trocou um bem eterno por uma satisfação passageira. Reconhece que recebeu advertências, inspirações, sacramentos e oportunidades de mudança.

O sofrimento torna-se ainda maior quando recorda que os meios de salvação estavam acessíveis.

Uma Confissão sincera, uma decisão firme de abandonar determinada ocasião de pecado ou uma resposta generosa à graça poderiam ter mudado o caminho.

Esse remorso não deve ser confundido com o arrependimento salvador.

Nesta vida, o reconhecimento do pecado pode conduzir à contrição e ao perdão. Depois da morte, termina o tempo destinado às escolhas.

Por isso, a meditação de Santo Afonso dirige-se aos vivos.

O leitor ainda pode fazer hoje aquilo que os condenados lamentariam não ter realizado.

JUSTIÇA E LIBERDADE HUMANA

A eternidade das penas pode provocar uma pergunta: como um Deus infinitamente bom permite uma consequência eterna para pecados cometidos durante uma vida limitada?

A doutrina católica não apresenta a condenação como uma decisão arbitrária de Deus.

O inferno está relacionado à liberdade e à direção definitiva assumida pela vontade humana.

O pecado mortal não é apenas a violação exterior de uma regra. Ele representa uma escolha grave contra Deus, realizada com conhecimento e consentimento suficientes.

Quando essa rejeição é mantida sem arrependimento até a morte, a pessoa permanece afastada da comunhão divina.

Deus respeita a liberdade da criatura, inclusive quando ela é utilizada para rejeitá-lo.

Isso não significa que todos os atos humanos possuam o mesmo grau de responsabilidade. A ignorância, o medo, os transtornos, as pressões e outras circunstâncias podem diminuir ou até eliminar a culpa pessoal.

Somente Deus conhece perfeitamente o coração, a consciência e a liberdade de cada pessoa.

Por essa razão, a Igreja ensina a existência do inferno, mas não declara que determinada pessoa esteja condenada.

DEUS NÃO PREDESTINA NINGUÉM AO INFERNO

O Catecismo da Igreja Católica afirma claramente que Deus não predestina ninguém à condenação eterna.

Para que alguém se perca, é necessária uma rejeição voluntária de Deus, mantida até o fim.

A vontade divina é a salvação.

Cristo entregou-se na Cruz, instituiu os sacramentos e confiou à Igreja a missão de anunciar o Evangelho a todos os povos.

Enquanto existe vida, Deus chama o pecador.

Esse chamado pode acontecer por meio da consciência, de uma pregação, de um sofrimento, do exemplo de outra pessoa ou de um desejo interior de mudança.

Santo Afonso considerava as advertências sobre a eternidade uma manifestação da misericórdia. Deus revela o perigo para que a pessoa possa evitá-lo.

Uma placa que alerta sobre um abismo não existe para destruir a liberdade do viajante. Existe para protegê-lo.

A MISERICÓRDIA NO CONFESSIONÁRIO

Santo Afonso viveu em um período influenciado pelo jansenismo e por outras formas de rigorismo.

Algumas pessoas enxergavam Deus principalmente como um juiz severo e tinham grande dificuldade para aproximar-se dos sacramentos. Confessores podiam impor exigências excessivas, causando desânimo nos penitentes.

Afonso combateu tanto o laxismo, que diminui a gravidade do pecado, quanto o rigorismo, que torna o caminho do perdão quase impossível.

Sua teologia moral procurava unir verdade e misericórdia.

Ele ensinava que o confessor deveria agir como pai, médico, mestre e juiz. Precisava reconhecer a gravidade do pecado, mas também acolher o penitente e ajudá-lo a recuperar a amizade com Deus.

Bento XVI descreveu Santo Afonso como um pastor de bondade suave e mansa.

Ao abordar o sacramento da Penitência, o Papa recordou que Afonso orientava os confessores a manifestarem o abraço jubiloso do Pai, que não se cansa de acolher o filho arrependido.

Essa postura mostra como devem ser interpretadas suas meditações mais severas.

O santo não falava sobre o inferno para fechar as portas da Igreja. Falava para conduzir as pessoas à Confissão e à misericórdia.

MISERICÓRDIA NÃO É PERMISSÃO PARA PECAR

Em “Preparação para a Morte”, Santo Afonso dedica uma meditação à misericórdia de Deus e outra ao abuso dessa misericórdia.

As duas precisam ser lidas juntas.

De um lado, ninguém deve desesperar. Deus pode perdoar os maiores pecados quando existe arrependimento verdadeiro.

De outro, ninguém deve utilizar a bondade divina como justificativa para continuar pecando deliberadamente.

Presunção é pensar: “Posso fazer o que quiser porque Deus me perdoará depois”.

Essa atitude transforma a misericórdia em desculpa e trata o tempo de conversão como se estivesse garantido.

O pecador não sabe quanto tempo terá, nem pode assegurar que no momento da morte possuirá disposição interior para mudar.

A confiança cristã não consiste em planejar o pecado e exigir posteriormente o perdão.

Confiar é abandonar-se à misericórdia enquanto se procura sinceramente romper com aquilo que ofende a Deus.

A ORAÇÃO COMO GRANDE MEIO DA SALVAÇÃO

Embora suas meditações sobre a eternidade sejam conhecidas, Santo Afonso considerava a oração um dos temas mais importantes de seu ensinamento.

Em “O Grande Meio da Oração”, afirma que a oração é necessária para receber as graças de que precisamos e perseverar até o fim.

A vida cristã não depende apenas da força de vontade.

A pessoa conhece o bem, mas experimenta fraquezas, tentações e hábitos difíceis de superar. Por isso, precisa pedir constantemente o auxílio de Deus.

Santo Afonso resumiu seu ensinamento em uma conhecida afirmação: quem reza se salva; quem não reza se condena.

A frase não transforma a oração em fórmula automática. Significa que aquele que persevera em pedir humildemente a graça permanece aberto à ação de Deus.

A oração conduz aos sacramentos, fortalece diante das tentações e ajuda o cristão a levantar-se depois das quedas.

Quem reconhece sua fragilidade não deve desanimar. Deve rezar ainda mais.

A PERSEVERANÇA FINAL

A salvação exige perseverança.

Não basta começar bem e depois abandonar o caminho. Também não se deve concluir que uma queda destruiu definitivamente todas as possibilidades.

Perseverar significa retornar continuamente a Deus.

O cristão pode enfrentar tentações, períodos de aridez e momentos de fraqueza. O importante é não transformar a queda em morada.

Santo Afonso ensina a pedir diariamente a graça da perseverança final: permanecer unido a Deus até o último instante.

Essa graça não torna desnecessária a colaboração humana.

A pessoa precisa evitar as ocasiões de pecado, procurar os sacramentos, alimentar-se da Palavra de Deus e manter uma vida regular de oração.

Também deve pedir ajuda quando enfrenta dependências, transtornos ou situações que não consegue superar sozinha.

Deus normalmente age por meio da Igreja, da família, dos amigos e das pessoas preparadas para oferecer acompanhamento.

NOSSA SENHORA E A ESPERANÇA DO PECADOR

A espiritualidade de Santo Afonso também foi profundamente mariana.

Em “As Glórias de Maria”, apresentou Nossa Senhora como Mãe que intercede pelos pecadores e os conduz a Jesus Cristo.

A devoção mariana não substitui o Salvador. Maria recebe tudo de Deus e sua missão é aproximar os filhos de seu Filho.

O pecador que deseja abandonar o mal pode recorrer à intercessão de Nossa Senhora, pedindo força para confessar-se, reparar os danos cometidos e perseverar em uma vida nova.

Santo Afonso via em Maria um auxílio poderoso contra o desespero.

A Mãe de Misericórdia não encoraja ninguém a permanecer no pecado. Ela acompanha aquele que deseja levantar-se e retornar à casa do Pai.

O CÉU TAMBÉM É ETERNO

As meditações de Santo Afonso não terminam no inferno.

Depois de tratar das penas, da eternidade e do remorso dos condenados, “Preparação para a Morte” apresenta uma consideração sobre o paraíso.

A eternidade não significa apenas a possibilidade de uma separação sem fim. Também significa a felicidade eterna na presença de Deus.

No Céu, a pessoa encontra a plenitude para a qual foi criada. Contempla Deus, participa de sua vida e vive na comunhão dos anjos e dos santos.

Não existe morte, pecado, sofrimento ou medo de perder a felicidade.

A meditação sobre o inferno somente pode ser compreendida corretamente quando colocada ao lado da esperança do Céu.

Deus não criou o ser humano para a condenação. Criou-o para participar eternamente de seu amor.

Cristo abriu o caminho e oferece a cada pessoa os meios necessários para percorrê-lo.

UMA LINGUAGEM FORTE PARA DESPERTAR CONSCIÊNCIAS

A linguagem de Santo Afonso reflete o estilo espiritual e missionário do século XVIII.

Suas meditações utilizam imagens fortes, perguntas diretas e apelos emocionais. O objetivo era alcançar pessoas simples, muitas vezes afastadas da formação religiosa.

Esses textos devem ser lidos dentro de seu contexto e em harmonia com o conjunto da doutrina católica.

O santo não ensinava uma espiritualidade baseada apenas no medo.

Afonso escreveu extensamente sobre o amor de Jesus, a Eucaristia, a oração, Nossa Senhora e a misericórdia. Sua severidade diante do pecado estava acompanhada por ternura diante do pecador arrependido.

O verdadeiro temor de Deus não é pânico diante de um tirano.

É a consciência de que não existe perda maior do que afastar-se daquele que nos ama e para quem fomos criados.

AINDA EXISTE TEMPO

A grande advertência deste sexto episódio está na palavra “eternidade”.

Um sofrimento eterno não possui manhã seguinte. Não existe contagem regressiva nem possibilidade de revisão depois da morte.

Justamente por isso, o presente possui um valor imenso.

Agora é possível arrepender-se. Agora é possível procurar a Confissão. Agora é possível perdoar, reparar uma injustiça e abandonar aquilo que destrói a comunhão com Deus.

A eternidade das penas não deve levar uma pessoa viva ao desespero.

Deve conduzi-la à decisão.

Santo Afonso não escreveu para convencer o pecador de que está perdido. Escreveu para mostrar que ele ainda pode ser salvo.

A morte é certa e sua hora é desconhecida, mas a misericórdia está disponível neste momento.

O tempo de escolher Deus é hoje.

No próximo episódio: São Francisco de Sales e a liberdade humana diante da graça — Deus não deseja a condenação e não abandona aquele que verdadeiramente quer ser salvo.

Reportagem: Marcelo Rodrigues
Presidente do RCNEWS e pesquisador da Vida dos Santos

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