PADRE AFIRMA QUE “SER COMUNISTA É COISA BOA” DURANTE MISSA NA BAHIA

Igreja

Declaração foi feita pelo padre Gilvânio Cardoso em defesa de dom Vicente de Paula Ferreira; comparação entre comunismo e serviços públicos provocou repercussão entre os católicos

Uma declaração feita pelo padre Gilvânio Cardoso, da Diocese de Livramento de Nossa Senhora, na Bahia, provocou repercussão entre os fiéis católicos. Durante uma celebração realizada no sábado (15), o sacerdote afirmou que “ser comunista é coisa boa” e relacionou o comunismo à preocupação com o bem comum.

O pronunciamento ocorreu ao final da missa de Nossa Senhora do Livramento, padroeira da diocese, celebrada na praça em frente à catedral. A cerimônia foi presidida pelo bispo diocesano, dom Vicente de Paula Ferreira, e contou com a participação do clero local.

Segundo o padre Gilvânio, sua manifestação teve como objetivo defender dom Vicente das críticas recebidas nos últimos dias. O bispo foi chamado de comunista após declarações nas quais questionou determinadas formas de consagração a São Miguel Arcanjo e apresentou o demônio como uma realidade “muito mais simbólica”.

Ao comentar os ataques dirigidos ao bispo, o sacerdote declarou que os comunistas seriam pessoas preocupadas com o bem de todos e não movidas pelo egoísmo.

COMPARAÇÃO COM O SUS E A EDUCAÇÃO PÚBLICA

Em sua fala, padre Gilvânio afirmou que o comunismo não seria uma ideologia, mas uma forma de organização econômica. Para explicar seu entendimento, mencionou serviços públicos financiados pelos impostos, como o Sistema Único de Saúde, as Unidades de Pronto Atendimento e a educação pública.

O sacerdote argumentou que os impostos formam uma espécie de caixa comum, utilizada pelo Estado para devolver benefícios à população. Também criticou práticas de corrupção e o uso indevido do dinheiro público, mencionando “rachadinhas” e o orçamento secreto.

A comparação, entretanto, é contestada do ponto de vista histórico, político e econômico. A existência de sistemas públicos de saúde, educação e assistência social não transforma um país em comunista. Diversas democracias europeias e outras nações de economia de mercado mantêm amplas redes de proteção social financiadas por impostos, preservando a propriedade privada, a livre iniciativa e o pluralismo político.

O comunismo, em seu sentido histórico e ideológico, propõe a superação da propriedade privada dos meios de produção e a organização coletiva da economia. Nas experiências implantadas ao longo do século XX, especialmente após a Revolução Russa de 1917, regimes comunistas concentraram o poder político e econômico nas mãos do Estado, perseguiram opositores e restringiram liberdades civis e religiosas.

União Soviética, China, Coreia do Norte, Cuba e outros países viveram — ou ainda vivem — sob governos inspirados no comunismo. Essas experiências foram marcadas, em diferentes graus, por repressão, prisões políticas, perseguição religiosa, fome e milhões de mortes.

O QUE ENSINA A IGREJA CATÓLICA

A defesa do bem comum, da justiça social, dos pobres e da correta aplicação dos recursos públicos faz parte da Doutrina Social da Igreja. Esses princípios, porém, não devem ser confundidos com a ideologia comunista.

O Catecismo da Igreja Católica, no parágrafo 2425, afirma que a Igreja rejeita as ideologias totalitárias e ateias associadas ao comunismo e ao socialismo. Ao mesmo tempo, também condena o individualismo e a transformação do lucro na finalidade absoluta da economia.

Isso significa que a Igreja não aceita nem o coletivismo que elimina a liberdade e a propriedade privada nem um sistema econômico que abandone os pobres e coloque o dinheiro acima da dignidade humana.

Em 1937, na encíclica Divini Redemptoris, o papa Pio XI fez uma dura condenação ao comunismo ateu, classificando-o como “intrinsecamente perverso”. A Igreja, entretanto, sempre ensinou que os católicos devem trabalhar pelo bem comum, promover a solidariedade, combater as injustiças e assegurar que os bens da sociedade atendam também às necessidades dos mais vulneráveis.

A polêmica mostra a importância de distinguir a legítima preocupação cristã com os pobres da adesão a uma ideologia historicamente marcada pelo materialismo, pela negação de Deus e pela perseguição à Igreja.

Até a publicação desta reportagem, não havia informação sobre eventual esclarecimento ou retratação do padre Gilvânio Cardoso a respeito das declarações.

Reportagem: Marcelo Rodrigues
Fonte: ACI Digital e documentos do Magistério da Igreja

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