Leão XIV apresenta visão positiva de vertentes da Teologia da Libertação

Igreja

Papa destaca contribuição de Gustavo Gutiérrez, reafirma a opção pelos pobres e rejeita identificação automática dessa corrente com o marxismo

Em sua primeira entrevista extensa após ser eleito para conduzir a Igreja Católica, o Papa Leão XIV falou sobre a Teologia da Libertação e defendeu que o movimento não seja tratado como uma corrente única nem automaticamente identificado com a ideologia marxista.

A entrevista foi concedida à jornalista norte-americana Elise Ann Allen em julho de 2025, cerca de dois meses depois da eleição do pontífice. As conversas foram publicadas em setembro daquele ano na biografia Leão XIV: cidadão do mundo, missionário do século XXI.

Ao abordar o tema, o Papa declarou:

«“Há muitos estilos dessa grande escola chamada Teologia da Libertação.”»

Leão XIV acrescentou que “o Evangelho nos chama a todos à liberdade”, indicando que a libertação humana precisa ser compreendida a partir da mensagem de Cristo.

O olhar a partir dos pobres

O pontífice destacou especialmente a contribuição do sacerdote peruano Gustavo Gutiérrez, falecido em 2024 e considerado um dos principais formuladores da Teologia da Libertação na América Latina.

Na avaliação apresentada por Leão XIV, a perspectiva desenvolvida por Gutiérrez começa pelo esforço de olhar a realidade com os pobres e a partir de suas experiências, procurando reconhecer a presença de Deus entre aqueles que sofrem com a pobreza, a exclusão e diferentes formas de injustiça.

A declaração guarda relação com a longa experiência missionária de Robert Francis Prevost — nome de batismo de Leão XIV — no Peru. Antes de ser eleito Papa, ele viveu durante décadas no país, onde atuou como missionário, formador, administrador apostólico e bispo.

Esse contato direto com comunidades pobres ajuda a compreender sua sensibilidade diante das questões sociais latino-americanas.

Teologia da Libertação não é uma corrente única

Ao afirmar que existem diferentes estilos dentro dessa “grande escola”, Leão XIV reconhece que a expressão Teologia da Libertação reúne pensamentos e métodos distintos.

Algumas vertentes procuram desenvolver a opção preferencial pelos pobres a partir das Sagradas Escrituras, da Doutrina Social da Igreja e da comunhão com o Magistério. Outras receberam críticas por recorrerem a conceitos marxistas, especialmente à luta de classes e à interpretação predominantemente política da fé.

O Papa rejeitou a ideia de que a valorização da perspectiva dos pobres signifique, necessariamente, adesão ao marxismo. Dessa maneira, distinguiu a legítima preocupação cristã com a justiça social das ideologias incompatíveis com a fé católica.

O que a Igreja ensina

A posição apresentada por Leão XIV está em sintonia com o discernimento realizado pela Igreja nas últimas décadas. Em 1984, a então Congregação para a Doutrina da Fé publicou a instrução Libertatis Nuntius, advertindo sobre os riscos de vertentes que utilizavam conceitos marxistas de maneira insuficientemente crítica.

O mesmo documento, entretanto, reconheceu que uma Teologia da Libertação corretamente compreendida constitui um convite para aprofundar temas bíblicos fundamentais diante do sofrimento humano.

Em 1986, a instrução Libertatis Conscientia aprofundou o ensinamento sobre a liberdade cristã e a libertação integral, recordando que a missão da Igreja não pode ser reduzida a um projeto político. Para o cristianismo, a libertação mais profunda é aquela realizada por Cristo contra o pecado, origem das demais formas de escravidão.

A Igreja, portanto, não rejeita o compromisso com os pobres. Pelo contrário, considera a defesa da dignidade humana, da justiça, da solidariedade e do bem comum uma exigência do Evangelho. O que ela recusa é a redução da fé a uma ideologia ou a um programa revolucionário baseado na luta entre classes.

Simpatia não significa adesão irrestrita

As declarações de Leão XIV revelam uma apreciação positiva por determinadas intuições da Teologia da Libertação, principalmente pelo esforço de enxergar a realidade a partir dos pobres e caminhar ao lado deles.

Isso não significa, porém, uma aprovação indistinta de todas as correntes que utilizam essa denominação. Ao reconhecer a existência de diferentes estilos, o próprio Papa indica a necessidade de discernir cada proposta conforme o Evangelho e o ensinamento da Igreja.

A posição de Leão XIV reafirma que a opção pelos pobres pertence à missão cristã, mas deve permanecer centrada em Jesus Cristo, na conversão, na verdade sobre o ser humano e na comunhão eclesial.

Fontes: entrevista concedida a Elise Ann Allen e publicada na obra Leão XIV: cidadão do mundo, missionário do século XXI; “revista Vida Nueva” (https://www.vidanuevadigital.com/2025/09/29/leon-xiv-con-la-teologia-de-la-liberacion-el-evangelio-nos-llama-a-todos-a-la-libertad/); “instrução Libertatis Nuntius, do Vaticano” (https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_19840806_theology-liberation_en.html).

Reportagem: Marcelo Rodrigues, presidente do RCNEWS e pesquisador da Vida dos Santos
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