Com elevado grau de doçura, reconhecimento de origem e trabalho da agricultura familiar, fruta tornou-se símbolo do município e uma importante fonte de renda para o campo
Reportagem especial: Marcelo Rodrigues
Suplemento: Rede Agro
Entre montanhas, propriedades familiares e áreas preservadas da Mata Atlântica, Tanguá mantém uma tradição agrícola que atravessa gerações. Localizado na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, o município tornou-se conhecido pela produção de uma fruta especial: a laranja tanguaense, reconhecida por sua doçura, suculência e baixa acidez.
A fama que durante anos foi transmitida pelos produtores e consumidores recebeu respaldo técnico com o reconhecimento da Indicação Geográfica das Laranjas da Região de Tanguá, envolvendo também os municípios de Rio Bonito, Araruama e Itaboraí.
A conquista representa a valorização de uma fruta que carrega as características do território, do clima, do solo e do conhecimento acumulado pelas famílias produtoras.
Doçura que pode ser medida
O grande diferencial das laranjas cultivadas na região está no equilíbrio entre a quantidade de açúcares e o nível de acidez.
A doçura das frutas pode ser avaliada em graus Brix, medida utilizada para indicar a concentração de sólidos solúveis, principalmente açúcares. Segundo informações divulgadas pelo Sebrae, laranjas consideradas doces costumam registrar entre 10 e 12 graus Brix. As produzidas na Região de Tanguá podem alcançar entre 14 e 16 graus Brix.
O resultado ajuda a explicar por que a fruta é reconhecida como uma das mais doces do Brasil. Não se trata apenas de propaganda ou orgulho local: suas características sensoriais foram analisadas durante o processo de reconhecimento da origem geográfica. “Segundo o Sebrae” (https://agenciasebrae.com.br/cultura-empreendedora/regiao-de-tangua-conquista-o-selo-de-denominacao-de-origem-e-e-a-100a-ig-reconhecida-no-pais/), a laranja tornou-se a primeira fruta produzida no Estado do Rio de Janeiro a conquistar esse registro.
O reconhecimento contempla variedades como seleta, natal comum e natal folha-murcha, conhecidas pela qualidade para consumo direto e produção de sucos.
A força da terra e do conhecimento dos agricultores
As qualidades da laranja tanguaense são resultado de uma combinação de fatores naturais e humanos.
As condições de solo, temperatura, luminosidade e regime de chuvas influenciam o desenvolvimento dos frutos. Entretanto, o conhecimento dos agricultores também é indispensável. São eles que selecionam as plantas, cuidam dos pomares, acompanham o amadurecimento e determinam o momento adequado da colheita.
Em muitas propriedades, o conhecimento sobre o cultivo foi transmitido de pais para filhos. As famílias aprenderam a observar o comportamento das árvores, enfrentar variações climáticas e proteger a qualidade da produção.
Esse patrimônio não está apenas na terra. Ele também está nas mãos calejadas, na memória e na experiência dos homens e mulheres que dedicaram suas vidas ao campo.
Indicação Geográfica valoriza a produção
O reconhecimento das Laranjas da Região de Tanguá como Indicação Geográfica, na modalidade Denominação de Origem, representa uma conquista histórica para a citricultura fluminense.
A Denominação de Origem identifica produtos cujas características estão ligadas diretamente ao meio geográfico, considerando elementos naturais e humanos. O selo protege o nome da região, diferencia a mercadoria no mercado e pode abrir novas oportunidades comerciais.
A “Prefeitura de Tanguá” (https://tangua.rj.gov.br/inpi-confirma-selo-e-qualidade-das-laranjas-de-tangua-e-regiao/) destacou que o processo contou com a participação da Associação dos Citricultores e Produtores Rurais de Tanguá, a Acipta, na preparação da documentação apresentada ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial.
A conquista também fortalece a organização dos agricultores. Para utilizar o nome protegido, os produtores precisam seguir padrões destinados a preservar a procedência e a qualidade da fruta.
O desafio agora é transformar o reconhecimento em resultados concretos, com aumento das vendas, melhores preços, acesso a novos mercados e maior retorno financeiro para quem produz.
Agricultura familiar movimenta o município
A produção de laranjas possui grande importância para a agricultura familiar de Tanguá. Pequenos e médios produtores mantêm pomares que geram trabalho desde o preparo da terra até a colheita, a seleção e a comercialização.
Além da venda das frutas frescas, a citricultura pode estimular diferentes atividades econômicas. A laranja serve como matéria-prima para sucos, doces, geleias, bolos, licores e outros produtos artesanais.
O aproveitamento da casca e dos resíduos também pode favorecer iniciativas sustentáveis, reduzindo desperdícios e abrindo espaço para novos negócios.
Quando existe assistência técnica, organização coletiva e acesso ao mercado, a pequena propriedade rural torna-se capaz de produzir renda, preservar a terra e manter as famílias no campo.
Circuito da Laranja une agricultura e turismo
A citricultura também se transformou em atração turística. Criado em 2010 e realizado de maneira sazonal, o Circuito da Laranja já recebeu milhares de visitantes, de acordo com a “Secretaria Municipal de Cultura e Turismo” (https://tangua.rj.gov.br/cultura-turismo/).
Durante o período de colheita, propriedades rurais abrem suas portas para moradores e turistas interessados em conhecer os pomares, conversar com os produtores e experimentar a fruta retirada diretamente da árvore.
O turismo rural aproxima o consumidor de quem produz. Também ajuda a divulgar os alimentos, o artesanato, a culinária e as belezas naturais do município.
Para as famílias do campo, a visitação representa outra possibilidade de renda. Para o público, oferece contato com uma realidade muitas vezes distante dos centros urbanos.
Cada visitante que chega a Tanguá contribui para movimentar restaurantes, comércio, hospedagem, transporte e produção artesanal.
Uma fruta que faz parte da identidade de Tanguá
A laranja ultrapassou os limites das propriedades e tornou-se um símbolo cultural do município. Ela aparece em festas, atividades turísticas, receitas, projetos e ações de divulgação da cidade.
Tanguá também recebeu o título de Capital Estadual da Laranja, reforçando uma identidade construída pelo trabalho de gerações de agricultores.
Mais do que uma atividade econômica, a citricultura guarda histórias familiares. Muitos moradores cresceram acompanhando pais e avós nos pomares, participando da colheita e comercializando as frutas.
Preservar essa atividade significa proteger parte da memória do município.
Desafios para manter os pomares
Apesar do reconhecimento, os produtores enfrentam dificuldades. Mudanças climáticas, períodos de estiagem ou chuvas intensas, doenças que atingem os citros, custos de insumos e problemas de transporte podem comprometer a produção.
A expansão urbana desordenada também ameaça áreas tradicionalmente destinadas à agricultura. Sem apoio, propriedades produtivas podem ser divididas ou abandonadas, reduzindo a presença rural no município.
Por isso, o fortalecimento da citricultura exige políticas permanentes de assistência técnica, acesso ao crédito, recuperação de estradas vicinais, incentivo à irrigação responsável e apoio à comercialização.
Também é necessário investir no combate às pragas, na renovação dos pomares e na capacitação dos agricultores.
Reconhecimento precisa chegar ao produtor
O selo de origem representa um novo capítulo para Tanguá, mas seu verdadeiro valor será medido pelos benefícios alcançados pelos produtores.
A divulgação da marca regional, a criação de embalagens identificadas, a presença em feiras e supermercados e o desenvolvimento de produtos derivados podem aumentar o valor agregado da fruta.
Escolas, órgãos públicos, restaurantes e estabelecimentos comerciais também podem ajudar a fortalecer a produção por meio da compra e da divulgação dos alimentos cultivados no município.
A laranja de Tanguá possui qualidade para conquistar novos consumidores. Para isso, precisa chegar ao mercado acompanhada de sua história, de sua procedência e da identidade dos agricultores que a produzem.
O ouro doce do campo tanguaense
Cada laranja colhida representa meses de cuidados, trabalho e esperança. Por trás da fruta existem famílias que enfrentam sol e chuva para manter viva uma das maiores tradições agrícolas do município.
Com sua elevada doçura, a laranja tanguaense demonstra que o campo fluminense possui qualidade, diversidade e potencial econômico.
Valorizar esse produto significa reconhecer o agricultor, proteger a zona rural e estimular um modelo de desenvolvimento que respeite a terra e as comunidades.
Sob a perspectiva cristã, o fruto do trabalho humano deve ser recebido com gratidão e repartido com justiça. A terra, confiada por Deus aos homens, precisa ser cultivada com responsabilidade, preservada para as próximas gerações e colocada a serviço da dignidade das famílias.
Tanguá tem na laranja um patrimônio, uma fonte de renda e um motivo de orgulho. É o ouro doce de uma terra que trabalha, produz e alimenta.
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