EPISÓDIO 3 — CEARÁ: ONDE A VIAGEM COMEÇA
De Fortaleza ao interior, o início da rodovia aproxima o movimento da capital da memória dos antigos caminhos do sertão.
Reportagem: Marcelo Rodrigues — RCNEWS
A viagem começa em Fortaleza. É na capital cearense que a BR-116 inicia seu percurso em direção ao Sul do país. Neste primeiro encontro com os estados atravessados pela estrada, o Ceará apresenta uma chave para compreender a proposta da série: conhecer o Brasil exige olhar para suas capitais e também para os municípios, comunidades e caminhos do interior.
No território cearense, documentos do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes registram o eixo entre Fortaleza e a divisa com Pernambuco, com referências a localidades como Russas e Icó. A ligação ajuda a situar uma viagem que atravessa espaços urbanos e regiões cuja história de circulação é muito anterior ao asfalto.
DA CAPITAL AOS CAMINHOS DO INTERIOR
Partir de Fortaleza pela BR-116 significa acompanhar uma das ligações entre a capital e o interior. Ao longo desse percurso, a estrada oferece um ponto de partida para compreender como diferentes localidades se relacionam com o restante do estado e do país.
Mas o mapa rodoviário é apenas uma das camadas dessa história. Para entender o território, é preciso considerar os caminhos que existiam antes da numeração federal, quando o transporte de animais e mercadorias ajudava a estabelecer conexões entre o sertão e o litoral.
Pesquisa publicada nos Anais do Museu Paulista registra que Russas estava na antiga Estrada Geral do Jaguaribe. Icó, por sua vez, ocupava o encontro dessa ligação com a Estrada Nova das Boiadas, mantendo conexões com outras regiões. Esses caminhos revelam uma organização territorial anterior à rodovia moderna, sem que isso signifique uma coincidência integral entre seus traçados.
RUSSAS: MEMÓRIA DE COMÉRCIO E TRABALHO
Russas é uma das referências deste episódio. Sua trajetória permite observar como a circulação de pessoas e produtos participou da formação das localidades do Vale do Jaguaribe.
Segundo o histórico publicado pela Universidade Federal do Ceará, a povoação se consolidou como entreposto de vaqueiros que levavam gado de Icó para negociação no porto de Aracati, no período do comércio de carne de charque. A cidade integra, portanto, uma história de deslocamentos e trocas que antecede os caminhões e ônibus.
Essa memória ajuda a formular uma pergunta para o presente: como as mudanças nos transportes transformaram o trabalho e os negócios locais? A resposta exige acompanhar as experiências de produtores, comerciantes e trabalhadores, reconhecendo que os efeitos da estrada podem ser diferentes para cada atividade.
A cultura local também merece uma parada. O histórico da UFC destaca práticas artesanais com barro, palha de carnaúba, tecidos e bordados, além de manifestações musicais e religiosas. São expressões que ajudam a conhecer a cidade para além de sua posição no mapa.
JAGUARIBE: A IMPORTÂNCIA DOS ACESSOS
Outro ponto de referência é Jaguaribe. Em registro de vistoria publicado em 2025, o DNIT identifica a ponte sobre o rio Pitombeira, na BR-116, como parte do acesso ao município. A informação chama atenção para uma dimensão essencial da rodovia: sua relação com as entradas das cidades e com as estruturas que permitem chegar até elas.
Para quem viaja por longa distância, uma ponte ou um entroncamento pode ser apenas uma passagem. Para quem depende daquele acesso, integra o caminho cotidiano para o trabalho, o comércio e os serviços.
É nessa diferença de perspectivas que a série buscará retratar o Brasil real: compreender a estrada tanto pela experiência de quem passa quanto pela de quem permanece.
ICÓ: UMA HISTÓRIA ANTERIOR À BR
Em Icó, a presença da rodovia pode ser localizada também pelo registro da unidade operacional da Polícia Rodoviária Federal, situada no quilômetro 383 da BR-116.
A história do município, entretanto, remete a uma rede de caminhos muito mais antiga. Seu papel nas conexões entre sertão e litoral mostra que o interior cearense já possuía relações comerciais e territoriais próprias antes da infraestrutura rodoviária atual.
Reconhecer esse passado evita reduzir as cidades a lugares de passagem. Elas têm memória, população e vida própria — elementos fundamentais para compreender a região por onde a estrada segue.
FÉ E VIDA COMUNITÁRIA
Em Russas, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário integra essa memória. A UFC registra o início de sua construção em 1707 e destaca a presença das festas religiosas na sociabilidade das comunidades locais.
Para o RCNEWS, conhecer essas expressões de fé será também uma forma de compreender os vínculos entre gerações, as tradições e o cuidado comunitário. A história de uma localidade aparece em seus documentos, mas também nos lugares onde seus moradores se encontram e celebram.
O COMEÇO DE UMA VIAGEM PELO BRASIL
Este episódio, produzido com base em pesquisa documental, apresenta algumas referências do trecho cearense. As entrevistas e visitas de campo deverão aprofundar as experiências de quem vive e trabalha junto à rodovia.
O Ceará abre a viagem mostrando que a BR-116 atravessa territórios com histórias anteriores à sua construção. Conhecer essas histórias é o primeiro passo para entender o que a estrada representa hoje.
No próximo episódio: “Paraíba — um pequeno trecho, histórias que merecem espaço”.
Marcelo Rodrigues, presidente do RCNEWS e pesquisador da Vida dos Santos.
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