Por Marcelo Rodrigues
A América Latina atravessa uma nova mudança de ciclo político. Depois da chamada “onda rosa”, que levou partidos de esquerda e centro-esquerda ao poder em vários países no início desta década, eleições recentes apontam para um fortalecimento da direita, especialmente na América do Sul.
Esse movimento não significa, porém, que todo o continente tenha adotado a mesma orientação. A região continua dividida entre governos de esquerda, centro-esquerda, centro-direita, direita conservadora e administrações com características autoritárias.
A classificação ideológica também exige cautela. Alguns governos combinam políticas sociais tradicionalmente associadas à esquerda com medidas econômicas favoráveis ao mercado. Outros defendem valores conservadores, mas mantêm forte presença do Estado na economia.
Mesmo com essas diferenças, o cenário atual mostra que a direita conquistou espaços importantes. As vitórias de candidatos conservadores em países como Chile, Bolívia, Colômbia e Peru aceleraram uma mudança que já havia começado com Javier Milei na Argentina e Daniel Noboa no Equador.
A DIREITA É MAIORIA NA AMÉRICA DO SUL?
Considerando os governos atualmente instalados e as transições presidenciais confirmadas, a direita e a centro-direita governam a maioria dos países sul-americanos.
O campo da esquerda ou centro-esquerda permanece no comando de Brasil, Uruguai, Guiana, Suriname e Venezuela. Já Argentina, Chile, Paraguai, Equador, Peru, Bolívia e Colômbia caminham sob governos de direita ou centro-direita.
Esse cenário representa uma mudança significativa em relação ao início da década, quando a maior parte do continente era governada por partidos progressistas.
ARGENTINA — DIREITA LIBERTÁRIA
A Argentina é governada por Javier Milei, representante da direita libertária. Seu governo defende a redução do Estado, privatizações, controle dos gastos públicos, liberdade econômica e forte aproximação com os Estados Unidos e Israel.
Milei tornou-se uma das principais referências da direita latino-americana e procura liderar um movimento conservador no continente.
Orientação predominante: Direita Libertária.
BOLÍVIA — CENTRO-DIREITA
Após quase vinte anos de domínio do Movimento ao Socialismo (MAS), a Bolívia passou por uma importante mudança política.
O novo governo defende maior abertura econômica, aproximação com investidores privados e redução da influência do Estado sobre a economia.
Orientação predominante: Centro-direita.
BRASIL — ESQUERDA
O Brasil permanece sob o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores.
O governo mantém programas sociais, investimentos públicos, fortalecimento da presença do Estado na economia e uma política externa voltada ao multilateralismo.
As eleições presidenciais de 2026 poderão alterar profundamente o equilíbrio político da América do Sul.
Orientação predominante: Esquerda.
CHILE — DIREITA CONSERVADORA
A eleição de José Antonio Kast marcou uma forte mudança política no Chile.
Seu governo prioriza o combate à criminalidade, o controle da imigração, o fortalecimento da economia de mercado e a defesa de valores conservadores.
Orientação predominante: Direita Conservadora.
COLÔMBIA — DIREITA
Após o governo de Gustavo Petro, a Colômbia escolheu um presidente de perfil conservador.
A nova administração promete endurecer o combate ao narcotráfico, incentivar investimentos privados e fortalecer a segurança pública.
Orientação predominante: Direita.
EQUADOR — CENTRO-DIREITA
Daniel Noboa governa o Equador com forte foco no combate às organizações criminosas.
Seu governo combina políticas econômicas liberais com ações rigorosas de segurança pública.
Orientação predominante: Centro-direita.
GUIANA — CENTRO-ESQUERDA
A Guiana mantém um governo de centro-esquerda, mas com forte incentivo à exploração do petróleo e parcerias com empresas internacionais.
Os recursos do petróleo financiam programas sociais e grandes obras de infraestrutura.
Orientação predominante: Centro-esquerda.
PARAGUAI — CENTRO-DIREITA
O Paraguai permanece governado pelo Partido Colorado.
O governo defende responsabilidade fiscal, fortalecimento do agronegócio, investimentos privados e posições conservadoras em temas sociais.
Orientação predominante: Centro-direita.
PERU — DIREITA
O Peru passou por mais uma mudança política com a eleição de uma presidente identificada com a direita conservadora.
As prioridades do novo governo são estabilidade econômica, fortalecimento da segurança pública e incentivo aos investimentos.
Orientação predominante: Direita.
SURINAME — CENTRO-ESQUERDA
O Suriname possui um governo de centro-esquerda, que busca conciliar responsabilidade fiscal, programas sociais e o desenvolvimento da indústria do petróleo.
Orientação predominante: Centro-esquerda.
URUGUAI — CENTRO-ESQUERDA
O Uruguai continua sendo governado pela Frente Ampla.
Seu governo mantém políticas sociais, equilíbrio fiscal e diálogo constante com o setor produtivo, sendo considerado uma das esquerdas mais moderadas da América Latina.
Orientação predominante: Centro-esquerda.
VENEZUELA — ESQUERDA CHAVISTA
A Venezuela continua sendo governada pelo chavismo.
O país permanece enfrentando dificuldades econômicas, isolamento internacional e fortes críticas relacionadas ao funcionamento de suas instituições democráticas.
Orientação predominante: Esquerda Chavista.
O QUE EXPLICA O AVANÇO DA DIREITA?
O fortalecimento da direita na América do Sul não ocorre apenas por razões ideológicas.
A insegurança pública, o crescimento do narcotráfico, a inflação, o baixo crescimento econômico e o desgaste de governos progressistas contribuíram para a eleição de candidatos conservadores em diversos países.
Ao mesmo tempo, cresce entre parte do eleitorado a defesa de governos que prometem maior rigor no combate ao crime, redução do tamanho do Estado e incentivo ao setor privado.
UM CONTINENTE EM TRANSIÇÃO
A América do Sul vive um dos períodos de maior transformação política das últimas décadas.
A direita ampliou sua presença e hoje governa a maioria dos países da região. Entretanto, importantes nações, como Brasil, Uruguai, Guiana, Suriname e Venezuela, continuam sob governos de esquerda ou centro-esquerda.
As próximas eleições presidenciais poderão alterar novamente esse equilíbrio, demonstrando que a política latino-americana permanece dinâmica e sujeita a rápidas mudanças.
Mais do que uma disputa entre esquerda e direita, a região enfrenta desafios comuns: crescimento econômico, combate à pobreza, fortalecimento das instituições democráticas, segurança pública e enfrentamento do crime organizado.
Independentemente da orientação ideológica dos governos, esses temas continuarão sendo decisivos para o futuro da América Latina.


