Série Especial – Episódio 10
PAPA BENTO XV
O Papa da Paz
A difícil missão de conduzir a Barca de Pedro durante a Primeira Guerra Mundial
Por Marcelo Rodrigues
A história da Igreja Católica é marcada por pontífices que enfrentaram momentos de intensa turbulência. Poucos, porém, receberam uma missão tão delicada quanto o Papa Bento XV, chamado a conduzir a Barca de Pedro em meio à maior tragédia que o mundo já havia conhecido até então: a Primeira Guerra Mundial.
Eleito em 3 de setembro de 1914, apenas algumas semanas após o início do conflito, Bento XV encontrou uma Europa mergulhada no nacionalismo, no ódio entre as nações e em uma guerra que rapidamente transformaria cidades em ruínas e milhões de famílias em vítimas da violência.
Sua maior preocupação não era favorecer qualquer país, mas preservar a missão universal da Igreja e trabalhar incansavelmente pela paz.
Quem foi Bento XV?
Nascido Giacomo Paolo Giovanni Battista della Chiesa, em Gênova, na Itália, no dia 21 de novembro de 1854, Bento XV pertencia a uma família tradicional da nobreza italiana.
Formou-se em Direito antes de ingressar no sacerdócio. Posteriormente estudou na Academia Eclesiástica Pontifícia, preparando-se para a carreira diplomática da Santa Sé.
Sua inteligência, prudência e capacidade diplomática chamaram a atenção do Papa Leão XIII e, mais tarde, de São Pio X, que o nomeou Arcebispo de Bolonha e, pouco depois, Cardeal.
Após a morte de São Pio X, foi eleito Papa aos 59 anos.
O mundo em guerra
Quando Bento XV assumiu o pontificado, a Europa vivia uma escalada militar sem precedentes.
O atentado contra o arquiduque Francisco Ferdinando, em Sarajevo, desencadeou uma reação em cadeia entre as grandes potências europeias.
O conflito rapidamente envolveu:
- Alemanha
- Áustria-Hungria
- Império Otomano
- Bulgária
contra
- França
- Reino Unido
- Rússia
- Sérvia
- Itália (a partir de 1915)
- Estados Unidos (a partir de 1917) e diversos aliados.
As trincheiras tornaram-se símbolo daquele conflito.
Milhões de soldados morreram sob bombardeios, ataques com gás, metralhadoras e doenças.
A humanidade conhecia pela primeira vez uma guerra industrializada.
O Papa da Paz
Enquanto governos investiam bilhões em armamentos, Bento XV levantava praticamente sozinho a bandeira da paz.
Em diversas ocasiões afirmou que aquela guerra era um verdadeiro:
“Massacre inútil.”
A expressão entrou para a história.
Em 1917, apresentou às nações um amplo plano de paz.
Entre suas propostas estavam:
- redução dos armamentos;
- solução pacífica dos conflitos;
- arbitragem internacional;
- liberdade dos mares;
- respeito aos povos;
- reconstrução baseada na justiça.
Infelizmente, praticamente todas as grandes potências ignoraram seu apelo.
Mesmo assim, Bento XV jamais desistiu.
A neutralidade da Santa Sé
O Papa tomou uma decisão extremamente difícil.
A Santa Sé permaneceria neutra.
Essa posição desagradou praticamente todos os governos envolvidos.
Cada lado esperava que o Papa condenasse o inimigo.
Entretanto, Bento XV entendia que o sucessor de Pedro deveria ser pai espiritual de todos os povos, independentemente da nacionalidade.
Sua neutralidade permitiu que a Igreja desenvolvesse inúmeras ações humanitárias.
A gigantesca obra humanitária
Sob sua liderança, o Vaticano criou uma das maiores operações humanitárias da época.
Milhares de famílias receberam ajuda.
Entre as iniciativas destacaram-se:
- troca de prisioneiros;
- localização de desaparecidos;
- envio de alimentos;
- assistência médica;
- auxílio aos refugiados;
- contato entre famílias separadas pela guerra.
Centenas de milhares de pessoas foram beneficiadas diretamente pela ação da Santa Sé.
Um pontificado além da guerra
Mesmo durante o conflito, Bento XV não deixou de governar a Igreja.
Seu pontificado também ficou marcado por importantes realizações.
Em 1917 promulgou o primeiro Código de Direito Canônico unificado da Igreja Católica.
Também incentivou fortemente as missões, defendendo que a evangelização deveria respeitar as culturas locais e formar um clero nativo nos territórios missionários.
Seu pontificado fortaleceu a presença da Igreja na Ásia, África e América Latina.
Relação com o Brasil
Bento XV demonstrou grande atenção à Igreja no Brasil.
Durante seu pontificado foram fortalecidas dioceses, ampliadas estruturas missionárias e incentivada a formação do clero brasileiro.
Seu olhar missionário contribuiu para o crescimento da Igreja em diversos países da América Latina.
Curiosidades
- Foi eleito poucas semanas após o início da Primeira Guerra Mundial.
- Recebeu o título de “Papa da Paz”.
- Chamou a guerra de “massacre inútil”.
- Promulgou o primeiro Código de Direito Canônico em 1917.
- Incentivou fortemente as missões católicas.
- Morreu em 22 de janeiro de 1922.
Seu legado
Durante muitos anos Bento XV foi injustamente lembrado apenas como o Papa da Primeira Guerra Mundial.
Hoje, historiadores reconhecem que sua atuação diplomática e humanitária foi extraordinária.
Embora seus apelos pela paz tenham sido ignorados pelos governantes da época, sua voz permanece atual.
Num mundo ainda marcado por guerras, terrorismo, perseguições religiosas e conflitos internacionais, Bento XV continua sendo um exemplo de que a Igreja deve sempre ser instrumento de reconciliação.
Seu pontificado recorda que o verdadeiro poder do sucessor de Pedro não está nas armas, mas na autoridade moral do Evangelho.
Uma frase para a história
“A guerra é um massacre inútil.”
— Papa Bento XV
Conclusão
Quando o mundo escolheu as armas, Bento XV escolheu a paz.
Quando os governos alimentaram o ódio, ele anunciou a fraternidade.
Quando milhões acreditavam que a guerra era inevitável, o sucessor de São Pedro permaneceu fiel ao Evangelho de Cristo, lembrando que nenhuma vitória militar vale o preço da destruição da dignidade humana.
Sua história demonstra que, mesmo nas águas mais turbulentas da humanidade, a Barca de Pedro continua navegando guiada pela esperança e iluminada pelo Espírito Santo.
Na série especial O Governo dos Papas, Bento XV permanece como um dos maiores símbolos da diplomacia, da caridade e da paz na história da Igreja.
Reportagem: Marcelo Rodrigues
Série Especial – O Governo dos Papas
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