SÉRIE ESPECIAL – O GOVERNO DOS PAPAS

Igreja

EPISÓDIO 7

PAPA JOÃO XXIII
O PAPA BOM

Por Marcelo Rodrigues

INTRODUÇÃO

Quando o cardeal Angelo Giuseppe Roncalli apareceu na sacada da Basílica de São Pedro, em 28 de outubro de 1958, poucos poderiam imaginar que aquele homem de 76 anos, eleito inicialmente sob a expectativa de um pontificado de transição, provocaria uma das maiores transformações da história contemporânea da Igreja Católica.

João XXIII governou a Igreja por menos de cinco anos. Foi um pontificado curto, mas extraordinariamente intenso.

Seu jeito simples, paternal e próximo das pessoas rapidamente conquistou católicos e não católicos. Ficaria conhecido mundialmente como “O Papa Bom”.

Mas por trás da imagem afável existia um pontífice determinado.

João XXIII convocou o Concílio Vaticano II, promoveu o diálogo ecumênico, aproximou a Igreja do mundo contemporâneo, defendeu a paz em plena Guerra Fria e deixou documentos que continuam fundamentais para a Doutrina Social da Igreja.

Em 2014, foi canonizado pelo Papa Francisco.

ANGELO RONCALLI: DAS ORIGENS HUMILDES AO PAPADO

Angelo Giuseppe Roncalli nasceu em 25 de novembro de 1881, em Sotto il Monte, na região de Bérgamo, Itália.

Era filho de uma numerosa família de agricultores.

Sua origem simples marcou profundamente sua personalidade e sua espiritualidade.

Foi ordenado sacerdote em 1904.

Durante a Primeira Guerra Mundial, serviu inicialmente como sargento do corpo médico e depois como capelão militar.

Posteriormente iniciou uma longa carreira diplomática a serviço da Santa Sé.

Passou pela Bulgária, Turquia, Grécia e França.

Essa experiência colocou Roncalli em contato com diferentes povos, culturas, religiões e realidades políticas, preparando-o para a missão que assumiria décadas depois.

PATRIARCA DE VENEZA

Em 1953, o Papa Pio XII criou Roncalli cardeal e o nomeou Patriarca de Veneza.

Mesmo ocupando uma das posições mais importantes da Igreja italiana, manteve seu estilo simples e pastoral.

Gostava de estar próximo das pessoas.

Visitava paróquias, conversava com trabalhadores e procurava manter contato direto com os fiéis.

Cinco anos depois, sua vida mudaria definitivamente.

A ELEIÇÃO DE JOÃO XXIII

Após a morte de Pio XII, o conclave reuniu-se para escolher seu sucessor.

Em 28 de outubro de 1958, Angelo Roncalli foi eleito Papa.

Escolheu o nome João XXIII.

Sua idade avançada fez com que muitos observadores considerassem que teria um pontificado curto e essencialmente administrativo.

A história mostraria algo completamente diferente.

O chamado “Papa de transição” tomaria uma decisão que transformaria profundamente a Igreja Católica.

O CONCÍLIO VATICANO II

Em 25 de janeiro de 1959, apenas três meses depois de sua eleição, João XXIII surpreendeu a Igreja ao anunciar a intenção de convocar um Concílio Ecumênico.

Nascia o projeto do Concílio Vaticano II.

João XXIII acreditava que a Igreja precisava apresentar a mensagem eterna do Evangelho ao homem contemporâneo utilizando uma linguagem capaz de dialogar com as novas realidades do mundo.

Uma palavra italiana tornou-se associada ao projeto:

“aggiornamento”.

O termo expressava a ideia de atualização ou renovação pastoral.

Não significava abandonar a tradição ou modificar a essência da fé católica, mas buscar maneiras renovadas de anunciar Cristo ao mundo contemporâneo.

Em 11 de outubro de 1962, João XXIII abriu solenemente o Concílio Vaticano II na Basílica de São Pedro.

Milhares de bispos vindos de todas as partes do mundo participaram daquele acontecimento histórico.

O Papa, porém, não viveria para acompanhar sua conclusão.

O Concílio seria encerrado em 1965 por seu sucessor, Paulo VI.

A IGREJA E O MUNDO CONTEMPORÂNEO

João XXIII acreditava que a Igreja deveria dialogar com o mundo sem perder sua identidade.

Seu pontificado incentivou uma postura pastoral baseada no encontro, na misericórdia e na evangelização.

O Papa defendia que a verdade cristã deveria ser anunciada com clareza, mas também com caridade.

Essa perspectiva influenciaria profundamente o Concílio Vaticano II e os pontificados posteriores.

O ECUMENISMO

Outro aspecto marcante de seu governo foi a busca pela unidade entre os cristãos.

João XXIII promoveu uma aproximação significativa com outras comunidades cristãs.

Em 1960 criou o Secretariado para a Promoção da Unidade dos Cristãos.

Representantes de outras tradições cristãs foram convidados como observadores para o Concílio Vaticano II.

Era um gesto de enorme significado histórico.

Depois de séculos de distanciamento, a Igreja Católica intensificava oficialmente o diálogo ecumênico.

A GUERRA FRIA

O pontificado de João XXIII aconteceu em um dos momentos mais perigosos da Guerra Fria.

Estados Unidos e União Soviética possuíam enormes arsenais nucleares.

O mundo vivia sob o temor permanente de uma guerra capaz de destruir grande parte da humanidade.

O momento mais crítico ocorreu em outubro de 1962.

Foi a Crise dos Mísseis de Cuba.

Estados Unidos e União Soviética chegaram perigosamente perto de um confronto nuclear.

João XXIII fez um apelo público pela paz e pela prudência dos governantes.

Sua intervenção foi recebida com respeito internacional.

Poucos meses depois, o Papa publicaria um dos documentos mais importantes de seu pontificado.

PACEM IN TERRIS

Em 11 de abril de 1963, João XXIII publicou a encíclica “Pacem in Terris” — Paz na Terra.

O documento foi dirigido não apenas aos católicos, mas “a todos os homens de boa vontade”.

Foi algo extremamente significativo.

João XXIII tratou de temas como:

  • paz entre as nações;
  • dignidade da pessoa humana;
  • direitos e deveres;
  • liberdade religiosa;
  • justiça social;
  • relações internacionais;
  • necessidade do diálogo;
  • perigo das armas nucleares.

A encíclica tornou-se uma das grandes referências da Doutrina Social da Igreja no século XX.

MATER ET MAGISTRA

Dois anos antes, em 1961, João XXIII havia publicado outra importante encíclica social:

“Mater et Magistra” — Mãe e Mestra.

O documento retomava e desenvolvia a tradição social iniciada por Leão XIII.

O Papa abordava questões relacionadas ao trabalho, à economia, à desigualdade social, ao desenvolvimento dos povos e à responsabilidade do Estado e da sociedade na promoção do bem comum.

A DEFESA DA DIGNIDADE HUMANA

Para João XXIII, a paz não poderia existir sem respeito à dignidade da pessoa humana.

Esse princípio aparece constantemente em seus ensinamentos.

A sociedade deveria ser organizada de maneira que cada pessoa tivesse seus direitos fundamentais respeitados.

Essa visão influenciaria fortemente os documentos do Concílio Vaticano II e o desenvolvimento posterior da Doutrina Social da Igreja.

O PAPA PRÓXIMO DO POVO

João XXIII rompeu algumas barreiras simbólicas existentes em torno do papado.

Visitou hospitais.

Visitou crianças doentes.

Foi ao presídio Regina Coeli, em Roma.

No Natal de 1958, ao visitar os presos, pronunciou palavras que ficaram famosas ao demonstrar que não queria que aqueles homens se sentissem esquecidos pela Igreja.

Seu jeito espontâneo contrastava com a imagem mais cerimonial que muitas pessoas associavam ao papado.

Essa proximidade contribuiu decisivamente para que recebesse o apelido de “Papa Bom”.

O DISCURSO DA LUA

Na noite de 11 de outubro de 1962, após a abertura do Concílio Vaticano II, milhares de pessoas permaneceram reunidas na Praça de São Pedro.

João XXIII apareceu na janela do Palácio Apostólico.

Sem um discurso previamente preparado, falou de maneira simples às famílias presentes.

Ao observar a lua sobre Roma, pronunciou algumas das palavras mais lembradas de seu pontificado.

Pediu aos pais que, ao voltarem para casa, abraçassem seus filhos e lhes dissessem:

“Esta é a carícia do Papa.”

O episódio ficou conhecido como o “Discurso da Lua”.

Aquela noite sintetizou de maneira extraordinária a personalidade de João XXIII:

um Papa capaz de conduzir um Concílio Ecumênico e, ao mesmo tempo, falar como um pai às famílias.

PRINCIPAIS DOCUMENTOS DO PONTIFICADO

Entre os documentos mais importantes de João XXIII destacam-se:

  • Ad Petri Cathedram (1959);
  • Sacerdotii Nostri Primordia (1959);
  • Grata Recordatio (1959);
  • Princeps Pastorum (1959);
  • Mater et Magistra (1961);
  • Aeterna Dei Sapientia (1961);
  • Paenitentiam Agere (1962);
  • Pacem in Terris (1963).

Seu magistério foi particularmente importante para a Doutrina Social da Igreja, a paz mundial e a preparação espiritual do Concílio Vaticano II.

A DOENÇA E OS ÚLTIMOS MESES

Durante o Concílio, a saúde de João XXIII começou a piorar.

O Papa sofria de câncer no estômago.

Mesmo debilitado, continuou acompanhando os acontecimentos da Igreja e trabalhando pela paz.

João XXIII faleceu em 3 de junho de 1963, aos 81 anos.

A notícia provocou enorme comoção internacional.

Católicos e não católicos lamentaram sua morte.

O mundo havia perdido o homem que, em poucos anos, transformara profundamente a imagem pública do papado.

O CONCÍLIO CONTINUA

Após sua morte, o cardeal Giovanni Battista Montini foi eleito Papa e adotou o nome Paulo VI.

Caberia a ele continuar e concluir o Concílio Vaticano II iniciado por João XXIII.

Muitas das sementes lançadas pelo “Papa Bom” produziriam frutos durante as décadas seguintes.

A CANONIZAÇÃO

João XXIII foi beatificado pelo Papa São João Paulo II em 2000.

Em 27 de abril de 2014, foi canonizado pelo Papa Francisco.

Na mesma celebração foi canonizado São João Paulo II.

A Igreja passou oficialmente a venerá-lo como São João XXIII.

O LEGADO

João XXIII governou a Igreja durante apenas quatro anos e sete meses.

Pouquíssimo tempo para os padrões históricos do papado.

Mas foi suficiente para deixar uma marca profunda.

Seu legado pode ser resumido em alguns grandes pilares:

  • convocação do Concílio Vaticano II;
  • renovação pastoral da Igreja;
  • defesa da paz mundial;
  • fortalecimento da Doutrina Social da Igreja;
  • promoção do ecumenismo;
  • diálogo com o mundo contemporâneo;
  • defesa da dignidade humana;
  • proximidade pastoral com os fiéis.

CONCLUSÃO

São João XXIII mostrou que a bondade não significa fraqueza.

Por trás do sorriso do “Papa Bom” existia um pontífice corajoso, capaz de tomar decisões que mudariam profundamente a história da Igreja.

Ele recebeu uma Igreja que atravessava rapidamente as transformações do século XX e compreendeu que era necessário encontrar novas maneiras de apresentar ao mundo a mesma mensagem de sempre: Jesus Cristo.

Convocou o Concílio Vaticano II.

Trabalhou pela unidade dos cristãos.

Defendeu a dignidade humana.

Ergueu sua voz pela paz quando o mundo esteve à beira de uma guerra nuclear.

E aproximou novamente a figura do Papa das pessoas comuns.

João XXIII não viu o encerramento do Concílio que convocou.

Mas sua visão permaneceu.

O homem que muitos imaginavam ser apenas um Papa de transição tornou-se um dos pontífices mais importantes do século XX.

São João XXIII entrou para a história como o Papa que abriu as portas de uma nova etapa na vida da Igreja.

E permaneceu no coração dos fiéis com o nome pelo qual o mundo aprendeu a conhecê-lo:

O PAPA BOM.

No próximo episódio da série “O GOVERNO DOS PAPAS”, conheceremos Paulo VI, o Papa que recebeu a difícil missão de continuar e concluir o Concílio Vaticano II e conduzir a Igreja durante os turbulentos anos que se seguiram.

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