EPISÓDIO 6
SÃO PAULO VI
O PONTÍFICE QUE CONCLUIU O CONCÍLIO VATICANO II
Por Marcelo Rodrigues
Ao longo de dois mil anos de história, poucos papas enfrentaram um período de tantas transformações quanto São Paulo VI. Ele recebeu a difícil missão de conduzir a Igreja Católica em um dos momentos mais decisivos de sua história: concluir o Concílio Vaticano II e colocar em prática suas reformas em um mundo marcado pela Guerra Fria, pela revolução cultural dos anos 1960 e pelo avanço acelerado da secularização.
Se João XXIII teve a coragem de convocar o Concílio, foi Paulo VI quem teve a sabedoria, a prudência e a firmeza para conduzi-lo até o fim, garantindo que suas decisões fossem incorporadas à vida da Igreja sem romper com a tradição recebida dos Apóstolos.
UMA VIDA DEDICADA À IGREJA
Giovanni Battista Montini nasceu em 26 de setembro de 1897, em Concesio, na região da Lombardia, norte da Itália. Filho de uma família profundamente católica, destacou-se desde cedo por sua inteligência, espiritualidade e dedicação aos estudos.
Foi ordenado sacerdote em 1920 e rapidamente passou a trabalhar na Secretaria de Estado do Vaticano, tornando-se um dos colaboradores mais próximos de vários pontífices.
Durante décadas desenvolveu intensa atividade diplomática e pastoral, adquirindo grande experiência na administração da Igreja.
Em 1954 foi nomeado Arcebispo de Milão, uma das maiores e mais importantes dioceses do mundo.
Em 1963, após a morte de São João XXIII, foi eleito Papa, adotando o nome de Paulo VI.
CONCLUIR O CONCÍLIO VATICANO II
Quando assumiu o pontificado, o Concílio Vaticano II ainda estava em andamento.
Muitos se perguntavam se o novo Papa encerraria os trabalhos ou daria continuidade ao projeto iniciado por João XXIII.
Paulo VI escolheu seguir adiante.
Sob sua liderança, o Concílio foi concluído em 8 de dezembro de 1965, após quatro sessões que reuniram milhares de bispos do mundo inteiro.
Entre os principais frutos do Concílio destacam-se:
- maior participação dos leigos na missão da Igreja;
- renovação da liturgia;
- fortalecimento da ação missionária;
- diálogo ecumênico;
- aproximação com o mundo contemporâneo;
- reafirmação da vocação universal à santidade.
Paulo VI compreendia que a renovação deveria caminhar sempre em comunhão com a Tradição da Igreja.
UM MUNDO EM EBULIÇÃO
Seu pontificado coincidiu com profundas mudanças mundiais.
Era o tempo da Guerra Fria, da ameaça nuclear, da corrida espacial, das revoluções estudantis, da transformação dos costumes, da expansão do comunismo e do crescimento do secularismo.
Dentro da própria Igreja surgiram tensões entre grupos que desejavam mudanças cada vez mais profundas e aqueles que temiam o abandono das tradições.
Paulo VI procurou governar com equilíbrio, defendendo a unidade da Igreja mesmo diante de intensos debates.
A HUMANAE VITAE
Em 1968 publicou uma das encíclicas mais importantes e também mais debatidas da história contemporânea da Igreja: Humanae Vitae.
O documento reafirmou o ensinamento constante da Igreja sobre a dignidade do matrimônio, o valor da família e a abertura à transmissão da vida, mantendo a rejeição ao uso de métodos contraceptivos artificiais.
Embora tenha provocado críticas em diversos setores, tornou-se uma das grandes referências do Magistério da Igreja sobre moral familiar.
O PAPA PEREGRINO
Paulo VI revolucionou também a presença internacional dos papas.
Foi o primeiro pontífice da era moderna a realizar grandes viagens apostólicas pelo mundo.
Visitou a Terra Santa, a Índia, Portugal, Colômbia, Uganda, Filipinas, Austrália e diversos outros países.
Em 1965 tornou-se o primeiro Papa da história a discursar na Organização das Nações Unidas (ONU), fazendo um emocionante apelo pela paz.
Sua célebre frase permanece atual:
“Nunca mais a guerra! Nunca mais a guerra!”
O ENCONTRO COM O PATRIARCA ORTODOXO
Em Jerusalém, Paulo VI protagonizou um dos momentos mais importantes do diálogo ecumênico ao encontrar-se com o Patriarca Atenágoras I, líder da Igreja Ortodoxa de Constantinopla.
O encontro representou uma histórica aproximação entre católicos e ortodoxos após séculos de separação.
O ATENTADO NAS FILIPINAS
Em 1970, durante visita às Filipinas, Paulo VI escapou de um atentado.
Um homem disfarçado de sacerdote aproximou-se do Papa portando uma faca.
A rápida intervenção da equipe de segurança evitou uma tragédia.
Mesmo após o episódio, Paulo VI prosseguiu normalmente sua missão apostólica.
OS ÚLTIMOS ANOS
Os anos finais de seu pontificado foram marcados pelo sofrimento.
Além das dificuldades internas da Igreja, enfrentou crises internacionais, o terrorismo e profundas mudanças culturais que desafiaram a evangelização.
Mesmo assim, permaneceu fiel ao seu compromisso de conduzir a Barca de Pedro com serenidade, coragem e profunda confiança na ação do Espírito Santo.
Paulo VI faleceu em 6 de agosto de 1978, na Festa da Transfiguração do Senhor.
Foi sucedido por João Paulo I.
A CANONIZAÇÃO
Reconhecendo sua santidade de vida e sua importância para a Igreja, o Papa Francisco canonizou Paulo VI em 14 de outubro de 2018.
Hoje é venerado como São Paulo VI, um dos grandes papas do século XX.
LEGADO
São Paulo VI conseguiu realizar uma das tarefas mais difíceis da história da Igreja: concluir o Concílio Vaticano II e conduzir sua aplicação sem romper com a fé transmitida pelos Apóstolos.
Seu pontificado consolidou a presença missionária da Igreja no mundo contemporâneo, fortaleceu o diálogo com diferentes povos e reafirmou princípios fundamentais da doutrina católica em tempos de profundas mudanças culturais.
Mais do que um administrador, Paulo VI foi um pastor prudente, um evangelizador incansável e um homem de profunda oração, que soube manter a Igreja unida em uma das épocas mais desafiadoras de sua história.
No próximo episódio da série “O GOVERNO DOS PAPAS”, conheceremos o breve, porém marcante, pontificado de João Paulo I, o “Papa do Sorriso”, cujo governo durou apenas 33 dias, mas deixou um testemunho inesquecível de simplicidade, humildade e esperança.


