SÉRIE ESPECIALMARCELO CRIVELLAFÉ, POLÍTICA E ESPERANÇA

Igreja

Marcelo Crivella, o político que não se curvou ao sistema, optou pelos excluídos.

EPISÓDIO 3 — CRIVELLA MINISTRO: DA TRIBUNA DO SENADO À ESPLANADA DOS MINISTÉRIOS

Reportagem: Marcelo Rodrigues

Em março de 2012, a trajetória política de Marcelo Crivella entrava em uma nova fase. Depois de quase uma década no Senado Federal e de conquistar a reeleição pelo Rio de Janeiro em 2010, o parlamentar deixava temporariamente o Legislativo para assumir um desafio diferente: comandar o Ministério da Pesca e Aquicultura no governo da presidente Dilma Rousseff.

A nomeação colocou lado a lado dois personagens provenientes de universos políticos e ideológicos bastante distintos. Crivella, bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e uma liderança política ligada ao eleitorado religioso, passava a integrar o primeiro escalão de um governo comandado pelo Partido dos Trabalhadores.

A decisão também demonstrava o peso que o então PRB havia adquirido na coalizão governista. Ao anunciar Crivella, o Palácio do Planalto afirmou explicitamente que a mudança incorporava ao Ministério um importante partido aliado da base do governo.

O CONVITE DE DILMA

Crivella foi anunciado para substituir Luiz Sérgio no Ministério da Pesca e Aquicultura em 29 de fevereiro de 2012 e tomou posse em 2 de março, no Palácio do Planalto.

Segundo relato divulgado pela Rádio Senado na época, Crivella chegou inicialmente a pensar em recusar o convite e indicou outro nome para a função, mas acabou convencido pela própria presidente Dilma Rousseff a assumir o ministério.

Era uma decisão politicamente significativa.

Crivella havia sido reeleito senador apenas dois anos antes. Ao aceitar o convite, licenciava-se de um mandato conquistado com mais de 3,3 milhões de votos para assumir uma pasta do Poder Executivo.

Na despedida temporária do Senado, em 1º de março, apresentou a pesca como uma atividade estratégica para um país com enorme disponibilidade de recursos hídricos e potencial ainda pouco explorado.

QUATRO GRANDES METAS

Ao assumir o ministério, Crivella apresentou objetivos ambiciosos para o setor.

Segundo a Agência Senado, suas metas de longo prazo incluíam dobrar o consumo de peixe por habitante, multiplicar por cinco a produção da aquicultura sustentável, duplicar a captura sustentável de pescado no mar e gerar um milhão de empregos relacionados à pesca. Também defendeu a criação de uma instituição de pesquisa para o setor inspirada no modelo da Embrapa.

A passagem pelo ministério colocava diante do engenheiro um desafio administrativo de escala nacional.

Não se tratava mais apenas de elaborar projetos de lei, fazer pronunciamentos ou votar matérias no Congresso. Crivella agora precisava administrar políticas públicas, orçamento e programas destinados a pescadores e produtores espalhados por todo o Brasil.

O PLANO SAFRA DA PESCA E AQUICULTURA

Uma das principais iniciativas do período foi o Plano Safra da Pesca e Aquicultura.

Segundo balanço apresentado pelo próprio Crivella ao retornar ao Senado, a política de crédito implementada pelo governo Dilma destinava cerca de R$ 4 bilhões ao setor.

O objetivo era ampliar a produção e facilitar o acesso ao financiamento para pescadores e aquicultores.

Crivella também destacou medidas como a inclusão do pescado na cesta básica, ações de desoneração e a simplificação do licenciamento ambiental para novas unidades de criação de peixes.

Essas iniciativas procuravam enfrentar uma contradição que ele havia apontado desde sua chegada à pasta: apesar da extensa costa marítima e da enorme disponibilidade de água doce, o Brasil ainda estava distante dos maiores produtores mundiais de pescado.

OS NÚMEROS APRESENTADOS POR CRIVELLA

Ao deixar o ministério, Crivella apresentou um balanço otimista de sua gestão.

Segundo os números citados por ele no Senado, a produção brasileira de pescado teria passado de 1,4 milhão de toneladas em 2011 para 2,4 milhões de toneladas em 2013. Crivella atribuiu o crescimento, sobretudo, à política de crédito e às medidas adotadas pelo governo federal para estimular o setor.

É importante fazer uma distinção jornalística: esses números foram apresentados pelo próprio Crivella em seu balanço de gestão, conforme registrado pela Agência Senado. Portanto, devem ser entendidos como a avaliação feita pelo ex-ministro sobre os resultados de sua passagem pela pasta.

UMA ALIANÇA QUE ULTRAPASSAVA FRONTEIRAS IDEOLÓGICAS

Politicamente, talvez um dos aspectos mais interessantes daquele período tenha sido a relação de Crivella com o governo Dilma Rousseff.

De um lado estava uma presidente do PT.

Do outro, um senador evangélico que posteriormente se aproximaria de forças políticas conservadoras e que construiria boa parte de sua identidade pública em torno de valores religiosos.

Naquele momento, entretanto, prevaleceu a lógica de coalizão característica da política brasileira.

O próprio anúncio do Planalto deixou claro que a entrada de Crivella representava também a incorporação do PRB ao primeiro escalão da administração federal.

Esse episódio revela uma característica que acompanharia Crivella durante boa parte de sua trajetória: a disposição de dialogar com governos e grupos políticos diferentes quando entendia existir espaço para participação institucional.

Para admiradores, essa postura representava capacidade de diálogo e pragmatismo.

Para críticos, evidenciava contradições entre discurso político, identidade religiosa e alianças partidárias.

Essa discussão acompanharia Crivella nos anos seguintes.

DOIS ANOS NO MINISTÉRIO

Marcelo Crivella permaneceu à frente do Ministério da Pesca e Aquicultura entre março de 2012 e março de 2014. O Senado registra oficialmente sua passagem pela pasta no período de 2012 a 2014.

Em março de 2014, deixou o cargo e retornou ao Senado.

Sua experiência ministerial havia acrescentado um novo elemento ao currículo político: depois de parlamentar, Crivella agora podia apresentar-se também como alguém que havia comandado uma estrutura do Poder Executivo federal.

E isso teria importância para o passo seguinte.

O RIO CONTINUAVA NO HORIZONTE

Mesmo enquanto ocupava um cargo nacional, o Rio de Janeiro permanecia no centro das ambições políticas de Crivella.

O senador já havia disputado eleições majoritárias no estado e continuava construindo sua presença junto ao eleitorado fluminense.

Sua saída do ministério em 2014 ocorreria justamente no ano em que voltaria às urnas para disputar o Governo do Estado do Rio de Janeiro.

A passagem pela Esplanada dos Ministérios terminava, mas a busca pelo Poder Executivo estava longe de acabar.

Crivella ainda enfrentaria derrotas importantes antes de conquistar aquela que se tornaria a maior vitória eleitoral de sua carreira.

Anos depois, chegaria ao comando da segunda maior cidade do Brasil.

Mas, antes disso, precisaria atravessar uma longa sequência de campanhas, adversários poderosos e eleições que ajudariam a testar a resistência de sua liderança política.

NO PRÓXIMO EPISÓDIO:

“AS TENTATIVAS DE GOVERNAR O RIO” — AS CAMPANHAS, AS DERROTAS E A PERSISTÊNCIA DE MARCELO CRIVELLA ATÉ SE TORNAR UM DOS PRINCIPAIS NOMES DAS DISPUTAS MAJORITÁRIAS DO RIO DE JANEIRO.

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