SÉRIE ESPECIAL: “O GOVERNO DOS PAPAS”

Igreja

EPISÓDIO 4

SÃO JOÃO PAULO II — UM DOS PONTIFICADOS MAIS MARCANTES DA HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA

Guerra Fria, queda do comunismo no Leste Europeu, atentado de 1981, viagens apostólicas e forte atuação internacional

Reportagem: Marcelo Rodrigues

Poucos pontífices exerceram influência tão profunda sobre a Igreja Católica e sobre a história política e social de seu tempo quanto São João Paulo II. Eleito em 16 de outubro de 1978, o cardeal polonês Karol Józef Wojtyła conduziu a Igreja por mais de 26 anos, atravessando acontecimentos que transformaram profundamente o mundo.

Seu pontificado acompanhou a fase decisiva da Guerra Fria, a crise e posterior queda dos regimes comunistas do Leste Europeu, a dissolução da União Soviética, conflitos internacionais, profundas mudanças culturais e o avanço acelerado da globalização.

Ao mesmo tempo, João Paulo II transformou a maneira como o Papa se fazia presente no mundo. Viajou, encontrou multidões, dialogou com governantes, aproximou-se dos jovens e levou pessoalmente a mensagem da Igreja aos cinco continentes.

UM PAPA VINDO DO LESTE EUROPEU

Karol Wojtyła nasceu em 18 de maio de 1920, em Wadowice, na Polônia. Sua juventude foi marcada por duas das grandes tragédias políticas do século XX.

Primeiro, viveu a ocupação nazista da Polônia durante a Segunda Guerra Mundial. Depois, viu seu país ficar sob um regime comunista alinhado à União Soviética.

Essas experiências ajudaram a formar um sacerdote profundamente comprometido com a dignidade da pessoa humana, a liberdade religiosa e a defesa da fé diante dos sistemas totalitários.

Quando foi eleito Papa, em 1978, tornou-se o primeiro pontífice não italiano em mais de quatro séculos.

Logo no início de seu pontificado pronunciou uma mensagem que se transformaria praticamente em um programa de governo:

“Não tenhais medo! Abri, ou melhor, escancarai as portas a Cristo!”

Era uma convocação espiritual, mas suas palavras também encontrariam enorme repercussão em sociedades submetidas a regimes que restringiam a liberdade religiosa.

A POLÔNIA E O ENFRAQUECIMENTO DO COMUNISMO

Uma das dimensões mais importantes de seu pontificado foi sua atuação durante a Guerra Fria.

Em junho de 1979, João Paulo II realizou sua primeira viagem apostólica à Polônia como Papa. Milhões de pessoas participaram das celebrações.

A presença de um Papa polonês diante de multidões demonstrava que, apesar de décadas de domínio comunista, a identidade religiosa e cultural do povo permanecia viva.

Pouco depois ganharia força o movimento sindical Solidariedade, liderado por Lech Wałęsa, que se tornou um dos principais focos de oposição ao regime comunista polonês.

João Paulo II apoiou a defesa dos direitos dos trabalhadores e da liberdade, procurando ao mesmo tempo evitar que o confronto político conduzisse o país a um derramamento de sangue.

Não seria historicamente correto atribuir a queda do comunismo exclusivamente ao Papa. Fatores econômicos, sociais e geopolíticos, além da atuação de lideranças como Ronald Reagan, Margaret Thatcher, Mikhail Gorbachev e dos movimentos de oposição do próprio Leste Europeu, tiveram importância fundamental.

Mas a influência moral de João Paulo II, especialmente na Polônia, é considerada um elemento relevante no processo que enfraqueceu os regimes comunistas da região.

Em 1989, o Muro de Berlim caiu.

Nos anos seguintes, os regimes comunistas do Leste Europeu entraram em colapso e, em 1991, a própria União Soviética deixou de existir.

O Papa polonês que havia vivido sob o nazismo e o comunismo testemunhava uma transformação histórica que parecia impossível quando iniciou seu pontificado.

O ATENTADO DE 13 DE MAIO DE 1981

Um dos momentos mais dramáticos do pontificado aconteceu em 13 de maio de 1981.

Na Praça de São Pedro, enquanto percorria o local em um veículo aberto e saudava os fiéis, João Paulo II foi atingido por disparos efetuados pelo turco Mehmet Ali Ağca.

Gravemente ferido, o Papa foi levado ao Hospital Gemelli, em Roma, onde passou por uma longa cirurgia.

Sobreviveu.

A data do atentado possuía um significado especial para a espiritualidade católica: 13 de maio é o dia associado à primeira aparição de Nossa Senhora aos três pastorinhos de Fátima, em Portugal, em 1917.

João Paulo II atribuiu sua sobrevivência à proteção de Nossa Senhora de Fátima.

Posteriormente, uma das balas relacionadas ao atentado foi entregue ao Santuário de Fátima e colocada na coroa da imagem de Nossa Senhora.

O PERDÃO AO HOMEM QUE TENTOU MATÁ-LO

Dois anos depois, em dezembro de 1983, João Paulo II protagonizou uma das imagens mais simbólicas de seu pontificado.

O Papa visitou Ali Ağca na prisão.

Os dois conversaram reservadamente.

João Paulo II já havia manifestado publicamente seu perdão ao homem que tentou assassiná-lo. A visita transformou-se em uma poderosa demonstração prática da mensagem cristã sobre misericórdia e perdão.

O PAPA PEREGRINO

João Paulo II mudou profundamente a dimensão internacional do papado.

Durante mais de 26 anos de pontificado, realizou 104 viagens apostólicas internacionais, visitando mais de uma centena de países.

Era uma escala sem precedentes.

O Papa queria encontrar pessoalmente os povos, conhecer diferentes culturas e levar a presença da Igreja para além dos limites do Vaticano.

Esteve várias vezes na América Latina e visitou o Brasil em diferentes ocasiões.

Suas viagens reuniam multidões e transformaram João Paulo II em uma das figuras públicas mais reconhecidas do planeta.

JOÃO PAULO II E O BRASIL

O Brasil ocupou um lugar importante em suas viagens.

Sua primeira visita ao país aconteceu em 1980. Multidões acompanharam o pontífice em diferentes cidades.

Um dos episódios mais lembrados ocorreu no Rio de Janeiro, quando visitou a comunidade do Vidigal.

A imagem do Papa próximo das populações mais pobres ajudou a consolidar sua enorme popularidade entre os brasileiros.

João Paulo II retornaria outras vezes ao país, fortalecendo uma relação particularmente próxima com a Igreja brasileira.

O PAPA DOS JOVENS

Outro elemento fundamental de seu pontificado foi a relação com a juventude.

João Paulo II acreditava que os jovens não deveriam ser vistos apenas como o futuro da Igreja, mas como parte ativa de sua missão no presente.

A Jornada Mundial da Juventude tornou-se uma das maiores expressões dessa visão.

Milhões de jovens passaram a participar dos encontros internacionais com o Papa.

Seu estilo direto, sua capacidade de comunicação e sua disposição para conversar com novas gerações fizeram com que fosse chamado muitas vezes de “Papa dos jovens”.

DEFESA DA VIDA E DA FAMÍLIA

No campo doutrinário e moral, João Paulo II manteve posições firmes em defesa da vida humana desde a concepção até a morte natural.

O pontífice se posicionou contra o aborto, a eutanásia e práticas que considerava incompatíveis com a dignidade da pessoa humana.

Também dedicou grande atenção à família e ao matrimônio.

Sua chamada Teologia do Corpo, desenvolvida principalmente em suas catequeses, apresentou uma extensa reflexão sobre o significado do corpo humano, do amor, da sexualidade e do matrimônio dentro da visão cristã.

DIÁLOGO COM OUTRAS RELIGIÕES

O pontificado também registrou importantes iniciativas de diálogo inter-religioso.

Em 1986, João Paulo II promoveu em Assis um encontro internacional de oração pela paz que reuniu representantes de diferentes religiões.

Também marcou a história ao visitar a Sinagoga de Roma naquele mesmo ano.

Em 2000, durante sua peregrinação à Terra Santa, visitou o Muro Ocidental, em Jerusalém, onde colocou uma oração pedindo perdão pelas faltas cometidas contra o povo judeu.

Esses gestos tiveram grande significado para as relações entre católicos e judeus.

UM PAPA DIANTE DAS GUERRAS

João Paulo II também utilizou a diplomacia da Santa Sé para defender soluções pacíficas para conflitos internacionais.

Manifestou-se contra diferentes guerras e insistiu repetidamente que a negociação deveria prevalecer sobre a violência.

Nos meses anteriores à invasão do Iraque em 2003, o Vaticano desenvolveu intensa atividade diplomática na tentativa de evitar a guerra.

Mesmo já debilitado fisicamente, João Paulo II continuava utilizando sua autoridade moral para defender a paz.

O GRANDE JUBILEU DO ANO 2000

Um dos acontecimentos religiosos mais importantes de seu pontificado foi o Grande Jubileu do Ano 2000.

Milhões de peregrinos foram a Roma.

João Paulo II desejava que a entrada no terceiro milênio cristão fosse também um momento de renovação espiritual.

Durante o Jubileu, realizou um histórico pedido de perdão pelas faltas cometidas por membros da Igreja ao longo da história.

Foi um gesto de reconhecimento das fragilidades humanas dentro da própria comunidade cristã.

OS ÚLTIMOS ANOS

Com o passar dos anos, a saúde de João Paulo II deteriorou-se progressivamente.

O homem que durante décadas havia percorrido o planeta passou a enfrentar limitações físicas cada vez maiores.

Sofria de Parkinson e outras enfermidades.

Mesmo assim, permaneceu exercendo o pontificado.

Sua fragilidade passou a fazer parte de sua mensagem pública. O Papa que tantas vezes havia falado sobre a dignidade dos idosos, enfermos e pessoas vulneráveis passou a testemunhar pessoalmente essa condição.

Nos últimos meses, sua dificuldade para falar e se locomover tornou-se evidente.

Ainda assim, continuava aparecendo diante dos fiéis sempre que sua saúde permitia.

A MORTE DE JOÃO PAULO II

João Paulo II morreu em 2 de abril de 2005, aos 84 anos.

Roma foi tomada por peregrinos.

Chefes de Estado, autoridades religiosas e representantes de diferentes países participaram das cerimônias.

Durante seu funeral, uma expressão ecoou entre muitos fiéis reunidos na Praça de São Pedro:

“Santo subito!” — “Santo já!”

Era a demonstração da profunda ligação criada entre João Paulo II e milhões de católicos ao redor do mundo.

A CANONIZAÇÃO

João Paulo II foi beatificado em 2011 pelo Papa Bento XVI.

Em 27 de abril de 2014, foi canonizado pelo Papa Francisco, juntamente com São João XXIII.

A cerimônia reuniu uma multidão na Praça de São Pedro e entrou para a história da Igreja.

Karol Wojtyła passou oficialmente a ser venerado como São João Paulo II.

UM PONTIFICADO QUE ATRAVESSOU A HISTÓRIA

Avaliar João Paulo II significa olhar para muito mais do que os acontecimentos internos da Igreja.

Seu pontificado esteve diretamente ligado a algumas das maiores transformações do final do século XX.

Ele enfrentou o comunismo sem comandar exércitos.

Sobreviveu a um atentado e perdoou o homem que tentou assassiná-lo.

Percorreu o mundo levando a mensagem cristã.

Dialogou com outras religiões.

Falou aos jovens.

Defendeu a vida, a família, a liberdade religiosa e a dignidade humana.

E conduziu a Igreja através da passagem para o terceiro milênio.

João Paulo II mostrou que a influência de um Papa pode ultrapassar as fronteiras do Vaticano e alcançar os grandes acontecimentos da história mundial.

Sua voz foi ouvida tanto nas praças lotadas por peregrinos quanto nos corredores onde eram tomadas decisões políticas internacionais.

O jovem polonês que conheceu de perto dois regimes totalitários terminou sua vida como uma das personalidades mais reconhecidas de sua época.

Foram mais de 26 anos à frente da Barca de Pedro.

Um pontificado marcado pela fé, pelo sofrimento, pela coragem e por acontecimentos que mudaram o mundo.

São João Paulo II permanece como uma das figuras centrais da história contemporânea da Igreja Católica.

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