SÉRIE ESPECIAL — O GOVERNO DOS PAPAS

Igreja

EPISÓDIO 2

PAPA FRANCISCO: UM PONTIFICADO MARCADO PELA REFORMA DA CÚRIA

Ênfase nas periferias, questões sociais, diplomacia e fortes debates internos na Igreja

Reportagem: Marcelo Rodrigues

A eleição do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, em 13 de março de 2013, abriu um capítulo singular na história contemporânea da Igreja Católica. Primeiro pontífice latino-americano, primeiro jesuíta a ocupar a Cátedra de Pedro e primeiro papa a escolher o nome Francisco, ele assumiu o governo da Igreja em um momento de grandes desafios internos e externos.

Sucessor de Bento XVI após sua histórica renúncia, Francisco encontrou uma Igreja confrontada por problemas administrativos na Cúria Romana, escândalos de abusos sexuais, dificuldades financeiras, secularização crescente em vários países e profundas transformações culturais.

Desde os primeiros momentos, seu estilo indicava que aquele seria um pontificado diferente. Francisco procurou colocar no centro de sua ação pastoral aquilo que chamava de uma Igreja “em saída”, voltada especialmente para os pobres e para aqueles que se encontravam nas periferias geográficas e existenciais.

A REFORMA DA CÚRIA ROMANA

Um dos grandes projetos de Francisco foi a reforma da estrutura administrativa da Santa Sé.

Pouco depois de sua eleição, o papa instituiu um conselho de cardeais para auxiliá-lo no governo da Igreja e na elaboração de uma ampla reorganização da Cúria Romana. O processo levou anos e culminou, em 2022, na Constituição Apostólica Praedicate Evangelium.

O documento reorganizou os dicastérios e organismos da Santa Sé e procurou reforçar o princípio de que as estruturas da Cúria devem estar a serviço da missão evangelizadora da Igreja.

Francisco também promoveu mudanças na administração econômica do Vaticano, criando novos mecanismos de controle, fiscalização e transparência.

O processo, entretanto, não ocorreu sem resistência. Mudanças administrativas, disputas internas e diferentes concepções sobre os rumos da Igreja produziram tensões que acompanharam boa parte de seu governo.

UMA IGREJA VOLTADA PARA AS PERIFERIAS

Francisco transformou a palavra “periferia” em uma das marcas de seu pontificado.

Sua primeira viagem fora de Roma foi para Lampedusa, ilha italiana que se tornou símbolo da crise migratória no Mediterrâneo. Ali, chamou a atenção do mundo para a situação dos migrantes que arriscavam — e muitas vezes perdiam — suas vidas tentando chegar à Europa.

Ao longo do pontificado, refugiados, migrantes, pobres, presos, idosos, pessoas com deficiência e populações atingidas por guerras apareceram repetidamente em seus discursos e gestos pastorais.

Francisco defendia que a Igreja não deveria permanecer fechada em si mesma. Em sua visão, evangelizar significava também aproximar-se daqueles que estavam afastados ou marginalizados.

Essa perspectiva ganhou expressão programática na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, publicada em 2013.

QUESTÕES SOCIAIS E O CUIDADO COM A CRIAÇÃO

As questões sociais ocuparam posição de destaque no magistério de Francisco.

Em 2015, publicou a encíclica Laudato Si’, dedicada ao cuidado da “casa comum”. O documento relacionou a proteção ambiental à dignidade humana, à pobreza e ao modelo de desenvolvimento econômico.

Francisco argumentava que a degradação ambiental atinge de maneira especialmente dura os mais pobres.

Em 2020, na encíclica Fratelli Tutti, tratou da fraternidade e da amizade social, criticando a polarização, a indiferença e formas de nacionalismo que, segundo sua análise, colocavam povos uns contra os outros.

Ao mesmo tempo, manteve posições fundamentais da doutrina católica, incluindo a condenação do aborto e da eutanásia e a defesa da dignidade da vida humana.

O PAPA DA DIPLOMACIA

Francisco também buscou fortalecer a presença diplomática da Santa Sé.

Um dos episódios mais conhecidos ocorreu na aproximação entre Estados Unidos e Cuba durante os governos de Barack Obama e Raúl Castro. A diplomacia vaticana participou dos esforços que contribuíram para o restabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países em 2014.

O papa realizou ainda viagens a regiões marcadas por conflitos e tensões.

Em 2021, tornou-se o primeiro papa da história a visitar o Iraque. Durante a viagem, encontrou-se com o grande aiatolá xiita Ali al-Sistani, em um gesto de diálogo entre cristãos e muçulmanos.

Francisco também insistiu repetidamente na busca de soluções diplomáticas para guerras e conflitos internacionais.

Durante a guerra entre Rússia e Ucrânia, iniciada em larga escala em 2022, suas declarações e iniciativas diplomáticas receberam tanto apoio quanto críticas. Francisco condenou a guerra e o sofrimento provocado pelo conflito, enquanto algumas de suas formulações sobre as responsabilidades e caminhos para a paz provocaram controvérsia, inclusive entre ucranianos.

O DIÁLOGO COM OUTRAS RELIGIÕES

O diálogo inter-religioso foi outra característica importante.

Em 2019, Francisco e o grande imã de Al-Azhar, Ahmed al-Tayeb, assinaram em Abu Dhabi o Documento sobre a Fraternidade Humana.

Francisco também aprofundou o diálogo com líderes judeus, ortodoxos e representantes de diferentes tradições religiosas.

Em 2016, encontrou-se em Cuba com o patriarca Kirill de Moscou, naquele que foi o primeiro encontro entre um papa e um patriarca de Moscou.

OS ABUSOS SEXUAIS: UMA DAS FERIDAS MAIS PROFUNDAS

Poucos problemas foram tão dolorosos para a Igreja durante o pontificado quanto os casos de abuso sexual cometidos por membros do clero.

Francisco adotou medidas para ampliar a responsabilização e criou instrumentos para investigar denúncias envolvendo bispos e superiores religiosos.

Em 2019, publicou o Vos Estis Lux Mundi, estabelecendo procedimentos para denúncias e investigações relacionadas a abusos e encobrimento.

Apesar dessas iniciativas, o Vaticano continuou sendo criticado por vítimas e organizações que consideravam insuficiente ou desigual a resposta da Igreja em determinados casos.

Foi uma das maiores crises institucionais enfrentadas pelo pontífice.

OS SÍNODOS E UMA IGREJA MAIS SINODAL

Francisco colocou grande ênfase na chamada “sinodalidade”: uma Igreja que procura ampliar a escuta e a participação na reflexão sobre sua missão.

Durante seu governo ocorreram importantes assembleias sinodais, como os Sínodos sobre a Família, o Sínodo da Amazônia e o processo do Sínodo sobre a Sinodalidade.

Esses encontros discutiram evangelização, participação dos leigos, papel das mulheres, família, questões pastorais e a presença da Igreja em diferentes culturas.

Também se tornaram palco de intensos debates entre setores da Igreja.

AMORIS LAETITIA E AS PRIMEIRAS GRANDES TENSÕES

A Exortação Apostólica Amoris Laetitia, publicada em 2016 após os sínodos sobre a família, tornou-se um dos documentos mais debatidos do pontificado.

Especialmente controversa foi sua abordagem pastoral a pessoas divorciadas que contraíram uma nova união civil.

Quatro cardeais apresentaram ao papa cinco dubia — dúvidas formais — pedindo esclarecimentos sobre pontos do documento.

O episódio revelou que existiam divergências importantes dentro da própria hierarquia sobre a interpretação e aplicação de algumas orientações pastorais de Francisco.

FIDUCIA SUPPLICANS E UM NOVO DEBATE

Em dezembro de 2023, o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou a declaração Fiducia Supplicans, aprovada por Francisco.

O documento permitiu, sob determinadas condições, bênçãos pastorais espontâneas a casais em situações consideradas irregulares pela doutrina católica, incluindo casais do mesmo sexo, deixando expresso que essas bênçãos não poderiam ser confundidas com casamento nem legitimar a união.

A declaração provocou uma das maiores controvérsias eclesiais do pontificado.

Diversos episcopados, especialmente na África, manifestaram fortes objeções à aplicação do documento. Posteriormente, o Vaticano publicou esclarecimentos sobre sua interpretação.

O episódio mostrou novamente a dificuldade de conciliar abordagens pastorais diferentes dentro de uma Igreja verdadeiramente universal.

TRADIÇÃO LITÚRGICA E TRADITIONIS CUSTODES

Outro ponto de tensão envolveu a celebração da Missa segundo o Missal Romano de 1962.

Em 2021, Francisco publicou o Traditionis Custodes, restringindo as possibilidades de celebração segundo o rito anterior à reforma litúrgica decorrente do Concílio Vaticano II.

A decisão alterou significativamente a política estabelecida por Bento XVI no Summorum Pontificum, de 2007.

Para Francisco, era necessário preservar a unidade eclesial em torno da reforma litúrgica. Para muitos católicos ligados à liturgia tradicional, entretanto, as restrições foram recebidas com tristeza e incompreensão.

A questão tornou-se mais um símbolo das tensões existentes dentro da Igreja.

FRANCISCO E BENTO XVI: DOIS PAPAS NO VATICANO

Durante quase uma década, uma situação inédita marcou a vida da Igreja: a convivência entre Francisco e Bento XVI, papa emérito.

Apesar das tentativas de alguns grupos de apresentar os dois como representantes de Igrejas rivais, Francisco demonstrou publicamente respeito e proximidade com seu predecessor.

Bento XVI, por sua vez, declarou fidelidade ao novo pontífice e permaneceu majoritariamente afastado da vida pública.

Sua morte, em 31 de dezembro de 2022, encerrou esse período singular. Francisco presidiu as exéquias de Bento XVI na Praça de São Pedro.

A PANDEMIA E A IMAGEM QUE ENTROU PARA A HISTÓRIA

Um dos momentos mais marcantes do pontificado ocorreu durante a pandemia de Covid-19.

Em 27 de março de 2020, Francisco caminhou sozinho pela Praça de São Pedro praticamente vazia e presidiu um extraordinário momento de oração.

A chuva, o silêncio e a praça deserta produziram uma das imagens mais fortes da história recente do papado.

Diante de um mundo paralisado pela pandemia, o sucessor de Pedro rezava praticamente sozinho no coração da Igreja.

Francisco recordou o Evangelho da tempestade acalmada e apresentou uma mensagem de esperança em meio ao medo e à morte.

UM PONTIFICADO QUE PROVOCOU ENTUSIASMO E RESISTÊNCIA

Poucos pontificados recentes despertaram debates tão intensos.

Para seus admiradores, Francisco aproximou a Igreja das periferias, deu maior visibilidade aos pobres, incentivou a preocupação ambiental, promoveu reformas administrativas e apresentou ao mundo uma Igreja mais próxima e misericordiosa.

Para seus críticos, algumas declarações, decisões pastorais e reformas produziram ambiguidades ou insegurança doutrinal, enquanto medidas relacionadas à liturgia tradicional aprofundaram divisões já existentes.

Essas duas percepções ajudam a compreender a complexidade de seu governo.

Francisco não atravessou águas tranquilas. Governou uma Igreja presente em culturas profundamente diferentes e em uma época marcada pela secularização, guerras, crise migratória, pandemia, polarização política e revolução tecnológica.

O LEGADO DE FRANCISCO

O pontificado de Francisco deixou marcas profundas na Igreja do século XXI.

A reforma da Cúria, a defesa dos pobres, a preocupação com migrantes e refugiados, a ecologia integral, a sinodalidade, o diálogo inter-religioso e sua insistência na fraternidade humana formam parte fundamental desse legado.

Mas seu governo também ficará registrado pelos intensos debates que provocou dentro da própria Igreja.

Francisco procurou conduzir a Barca de Pedro aproximando-a das periferias e daqueles que considerava esquecidos pela sociedade. Ao fazê-lo, encontrou apoio, resistência e questionamentos.

É justamente nesse contraste que se encontra uma das características fundamentais de seu pontificado.

Entre reformas e resistências, encontros diplomáticos e conflitos internacionais, gestos de proximidade e controvérsias eclesiais, Francisco ocupou um lugar singular na história moderna do papado.

SÉRIE ESPECIAL — O GOVERNO DOS PAPAS

Episódio 2 — Papa Francisco: um pontificado marcado pela reforma da Cúria

Reportagem: Marcelo Rodrigues
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