Dirigentes do partido apostam na força do bolsonarismo para tentar levar candidato ao segundo turno contra Eduardo Paes; trajetória posterior de Bolsonaro e Witzel, porém, mudou profundamente o contexto político
Por Marcelo Rodrigues
Lideranças do PL no Rio de Janeiro avaliam utilizar nas eleições de 2026 uma estratégia inspirada na surpreendente vitória de Wilson Witzel para o Governo do Estado em 2018: associar um candidato inicialmente distante da liderança nas pesquisas à força eleitoral do bolsonarismo e tentar impulsioná-lo até o segundo turno.
Segundo as informações apresentadas, dirigentes do partido enxergam no deputado estadual Douglas Ruas a possibilidade de repetir parte daquela trajetória eleitoral. A referência é a eleição de oito anos atrás, quando Witzel começou a disputa com baixo desempenho nas pesquisas, avançou durante a campanha e terminou eleito governador, derrotando Eduardo Paes no segundo turno.
A comparação, entretanto, precisa considerar que as circunstâncias políticas de 2026 são substancialmente diferentes das existentes em 2018.
A ARRANCADA DE WITZEL EM 2018
Na eleição daquele ano, Wilson Witzel conseguiu associar sua candidatura ao movimento eleitoral que impulsionava Jair Bolsonaro na disputa pela Presidência.
Bolsonaro estava em forte ascensão nacional, enquanto Witzel buscava se apresentar ao eleitor fluminense como uma alternativa às forças políticas tradicionais do estado.
A combinação ajudou o então candidato ao governo a chegar ao segundo turno e posteriormente derrotar Eduardo Paes.
É justamente essa capacidade de crescimento durante uma campanha curta e polarizada que integrantes do PL pretendem tomar como referência para Douglas Ruas em 2026.
Mas reproduzir uma estratégia eleitoral não significa necessariamente reproduzir o ambiente político que possibilitou seu sucesso.
O BOLSONARO DE 2026 NÃO ESTÁ NA MESMA SITUAÇÃO DE 2018
Esta talvez seja a diferença mais evidente entre os dois momentos.
Em 2018, Jair Bolsonaro disputava diretamente a Presidência e acabaria eleito. Em 2026, sua situação jurídica é completamente diferente.
O ex-presidente foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 27 anos e três meses de prisão pelos crimes relacionados à tentativa de golpe de Estado.
Portanto, a tentativa de reproduzir a campanha de 2018 ocorre sob condições objetivamente diferentes.
Isso não permite concluir, por si só, qual será o tamanho da influência de Bolsonaro sobre o eleitorado em outubro. Significa, porém, que o cenário político e jurídico enfrentado atualmente pelo ex-presidente é muito diferente daquele existente há oito anos.
RESTRIÇÕES À ATUAÇÃO POLÍTICA
Há ainda limitações impostas judicialmente ao ex-presidente.
As restrições representam mais uma diferença importante em relação à campanha de 2018, quando Bolsonaro participava diretamente da eleição, percorria o país como candidato e caminhava para conquistar a Presidência da República.
Em 2026, portanto, a capacidade de participação direta do ex-presidente na campanha de seus aliados ocorre dentro de uma realidade jurídica completamente diferente.
WITZEL TAMBÉM TEVE UM DESFECHO POLÍTICO CONTURBADO
Outro elemento importante da comparação está na própria trajetória de Wilson Witzel depois da vitória.
O então governador acabou afastado do cargo em 2020 no contexto das investigações relacionadas à área da Saúde durante a pandemia.
Posteriormente, enfrentou um processo de impeachment e perdeu definitivamente o mandato em 2021.
Dessa maneira, a eleição de 2018 pode ser lembrada pelo PL como exemplo de uma candidatura que saiu de uma posição pouco competitiva e chegou à vitória, mas sua história política não terminou naquela noite eleitoral.
DOUGLAS RUAS PODE REPETIR A ARRANCADA?
Essa é uma das questões que a eleição fluminense deverá responder.
O PL pode tentar aproveitar a identificação de parte expressiva do eleitorado do Rio de Janeiro com Bolsonaro para aumentar o conhecimento e a intenção de voto de Douglas Ruas.
Ao mesmo tempo, não há garantia de que a transferência de votos observada oito anos atrás possa ser reproduzida nas mesmas proporções.
São candidatos diferentes, conjunturas diferentes e, sobretudo, um cenário nacional completamente distinto.
Além disso, Eduardo Paes chega à disputa de 2026 em situação política diferente daquela enfrentada em 2018, enquanto Douglas Ruas terá o desafio de ampliar sua projeção estadual durante a campanha.
UMA ESTRATÉGIA CONHECIDA EM UM NOVO CENÁRIO
A chamada “estratégia Witzel”, portanto, pode funcionar como referência histórica para o PL, mas não como garantia de resultado.
Em 2018, a fotografia política mostrava Bolsonaro em ascensão rumo à Presidência e Witzel utilizando aquela onda eleitoral para chegar ao Palácio Guanabara.
Em 2026, a fotografia é outra: Bolsonaro está condenado, enquanto Witzel é um ex-governador que perdeu o mandato após um processo de impeachment.
Isso não significa que o bolsonarismo tenha deixado de possuir força eleitoral no Rio de Janeiro ou que Douglas Ruas não possa crescer durante a campanha.
Significa apenas que repetir uma estratégia é diferente de conseguir reproduzir as circunstâncias políticas que permitiram que ela funcionasse oito anos atrás.
A tentativa do PL de transformar a eleição de 2018 em referência para 2026 será, assim, um dos pontos a serem observados na corrida pelo Governo do Rio de Janeiro.
Reportagem: Marcelo Rodrigues
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