REPORTAGEM ESPECIAL

Economia

CRISE NO HABIB’S: GRUPO CONTROLADOR ENTRA EM RECUPERAÇÃO JUDICIAL COM DÍVIDA DE R$ 265,2 MILHÕES

Processo também envolve operações ligadas às marcas Ragazzo e Tendall Grill; empresa afirma que restaurantes continuam funcionando normalmente

O Grupo Gennius, controlador das redes Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, entrou em recuperação judicial para tentar renegociar uma dívida declarada de aproximadamente R$ 265,2 milhões e preservar a continuidade de suas operações.

O processamento do pedido foi autorizado pela 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. A decisão é do juiz Jomar Juarez Amorim, que nomeou a consultoria KPMG como administradora judicial do processo.

A recuperação envolve uma ampla estrutura empresarial formada por holdings, franqueadoras, restaurantes próprios e companhias responsáveis pela produção de alimentos, distribuição, logística, publicidade e outros serviços utilizados pelas redes.

Entre as unidades diretamente incluídas no processo estão 119 restaurantes Habib’s, 26 lojas Ragazzo e seis churrascarias Tendall. As franquias administradas por empresários independentes não estão automaticamente em recuperação judicial, embora possam sofrer os efeitos da crise.

O Grupo Gennius afirma que as operações continuam normalmente e que a recuperação judicial tem como objetivo preservar os negócios, os empregos, o relacionamento com fornecedores e a sustentabilidade das marcas no longo prazo.

COMO A CRISE COMEÇOU

A crise financeira não surgiu repentinamente. Antes de formalizar o pedido de recuperação judicial, o Grupo Gennius já havia procurado a Justiça para obter proteção temporária contra cobranças, protestos e execuções promovidas pelos credores.

Em julho, a companhia conseguiu uma medida cautelar que suspendeu por 60 dias determinadas ações de cobrança. O período deveria ser utilizado para negociar uma solução consensual com bancos, fornecedores e outros credores.

Como não foi possível construir um acordo suficiente para reorganizar as obrigações, o grupo apresentou o pedido formal de recuperação judicial. A medida foi processada pela Justiça no dia 24 de agosto.

O Grupo Gennius atribui o agravamento da situação aos impactos econômicos acumulados desde a pandemia, às mudanças nos hábitos dos consumidores, à alta dos juros e ao aumento dos custos operacionais.

PANDEMIA E MUDANÇA NO CONSUMO

O setor de alimentação foi um dos mais afetados durante a pandemia. Restaurantes precisaram permanecer fechados ou operar com limitações, enquanto despesas com aluguéis, funcionários, fornecedores e manutenção continuaram existindo.

Empresas como o Habib’s ampliaram os canais de entrega e as vendas digitais, mas o crescimento do delivery também trouxe novos custos. As plataformas cobram comissões, a logística ficou mais cara e aumentou a concorrência com restaurantes menores e cozinhas voltadas exclusivamente para entregas.

Mesmo depois da reabertura das lojas, parte dos consumidores manteve novos hábitos. Muitas famílias reduziram as refeições fora de casa ou passaram a buscar promoções com maior frequência.

Para uma rede conhecida por oferecer produtos populares a preços competitivos, o aumento dos custos de carnes, queijos, farinha, óleo, energia, embalagens e transporte tornou mais difícil preservar preços baixos e margens suficientes para sustentar toda a estrutura empresarial.

JUROS ALTOS E CRÉDITO MAIS CARO

A elevação das taxas de juros também pressionou as finanças do grupo. Empresas com dívidas elevadas passam a gastar mais para renovar empréstimos, antecipar recebíveis e financiar o capital de giro.

O capital de giro é o dinheiro necessário para comprar ingredientes, pagar funcionários, manter os restaurantes e financiar a operação antes que as receitas das vendas entrem no caixa.

Com o crédito mais caro e restrito, a empresa passou a enfrentar dificuldades para equilibrar os pagamentos e manter sua complexa cadeia de produção e distribuição.

COMO A DÍVIDA ESTÁ DIVIDIDA

Dos R$ 265,2 milhões declarados no processo, aproximadamente R$ 22,3 milhões correspondem a créditos trabalhistas.

Outros R$ 241,7 milhões estão relacionados principalmente a credores sem garantias específicas, categoria que pode incluir instituições financeiras, fornecedores, proprietários de imóveis e prestadores de serviços.

Também existem cerca de R$ 1,1 milhão em créditos de microempresas e empresas de pequeno porte.

O grupo terá agora de apresentar um plano de recuperação com propostas para o pagamento dessas obrigações. O documento poderá estabelecer descontos, parcelamentos, prazos maiores, venda de ativos, reorganização societária e outras medidas.

Os credores terão o direito de analisar e votar a proposta.

TRAVAS BANCÁRIAS PREOCUPAM A EMPRESA

Além da renegociação das dívidas, uma das principais preocupações do Grupo Gennius é manter dinheiro suficiente no caixa para sustentar as operações.

A empresa solicitou à Justiça a suspensão das chamadas travas bancárias sobre recebíveis oferecidos como garantia. Esses mecanismos permitem que determinados bancos fiquem diretamente com parte dos valores das vendas realizadas por cartões para o pagamento de empréstimos.

O juiz responsável pelo processo negou inicialmente o pedido de liberação desses recebíveis vinculados a garantias fiduciárias.

A manutenção das travas pode reduzir o dinheiro disponível para a compra de alimentos, pagamento de salários e funcionamento das lojas. Por outro lado, os bancos defendem que os contratos e as garantias devem ser respeitados.

O equilíbrio entre os direitos dos credores e a necessidade de preservar o caixa será um dos pontos centrais da recuperação.

RISCO PARA O ABASTECIMENTO

A crise do Grupo Gennius apresenta uma característica especialmente delicada: a estrutura das redes é verticalizada.

Empresas ligadas ao próprio grupo produzem e distribuem diversos itens utilizados nos restaurantes, como pães, queijos, sorvetes, massas, molhos e outros ingredientes. O conglomerado também fornece serviços de logística, treinamento, publicidade e suporte operacional.

Por esse motivo, dificuldades financeiras em uma parte da estrutura podem provocar um efeito dominó sobre as demais.

Se uma indústria do grupo não conseguir comprar matérias-primas ou manter a produção, restaurantes próprios e franquias poderão enfrentar falta de ingredientes. Problemas na logística também podem atrasar entregas e comprometer o padrão dos produtos oferecidos ao público.

A rede afirma que o abastecimento e as operações seguem normalmente, mas a continuidade dependerá da preservação do caixa e da manutenção das relações com os fornecedores.

E OS FRANQUEADOS?

As unidades franqueadas são administradas por empresários independentes e, em regra, não fazem parte diretamente da recuperação judicial do Grupo Gennius.

Estima-se que as franquias representem aproximadamente 40% das lojas das marcas. Embora os franqueados não sejam automaticamente responsáveis pelas dívidas do controlador, eles dependem da estrutura central para receber produtos, publicidade, tecnologia, treinamento e apoio comercial.

Caso o fornecimento seja interrompido ou os serviços prometidos no contrato de franquia deixem de ser prestados, os empresários poderão buscar alternativas ou recorrer à Justiça.

Dependendo da gravidade da situação, poderão ser discutidas medidas como autorização para comprar produtos de outros fornecedores, revisão de taxas ou suspensão temporária do pagamento de royalties.

Os contratos de franquia, entretanto, precisam ser analisados individualmente. A recuperação judicial do controlador não autoriza automaticamente o franqueado a deixar de cumprir suas obrigações.

FUNCIONÁRIOS E EMPREGOS

A recuperação judicial não encerra automaticamente os contratos de trabalho. Os restaurantes continuam funcionando e os funcionários devem seguir recebendo salários e demais direitos normalmente.

Os créditos trabalhistas anteriores ao processo deverão ser incluídos no plano de recuperação e possuem tratamento específico na legislação.

A preservação dos empregos é uma das finalidades da recuperação judicial. No entanto, a reestruturação pode incluir fechamento de unidades deficitárias, redução de despesas e mudanças no número de funcionários.

O impacto real dependerá do plano que será apresentado pelo Grupo Gennius e da capacidade da empresa de manter suas receitas.

O QUE MUDA PARA OS CONSUMIDORES?

Neste primeiro momento, o consumidor pode continuar frequentando os restaurantes, utilizando os canais de entrega e adquirindo produtos das marcas.

A recuperação judicial não significa que todas as lojas fecharão ou que o grupo teve sua falência decretada. A empresa afirma que os restaurantes permanecem funcionando normalmente.

Clientes que tenham créditos, cupons, vales, saldos em aplicativos ou pedidos não entregues devem guardar os comprovantes. Em caso de problema, podem procurar os canais oficiais da empresa, o Procon ou a plataforma Consumidor.gov.br.

Também é recomendável acompanhar comunicados oficiais antes de adquirir pacotes promocionais ou créditos para utilização futura em valores elevados.

HABIB’S NÃO DECRETOU FALÊNCIA

A recuperação judicial é um mecanismo criado para evitar a falência de empresas que ainda apresentam condições de continuar funcionando.

Durante o processo, as cobranças incluídas na recuperação ficam submetidas às regras judiciais. A companhia recebe tempo para negociar e apresentar uma proposta de pagamento aos credores.

Se o plano for aprovado e cumprido, o grupo poderá superar a recuperação judicial e seguir operando. Caso a proposta seja rejeitada ou as obrigações sejam descumpridas, existe o risco de o processo evoluir para falência.

O FUTURO DA REDE

Fundado em 1988 pelo empresário Alberto Saraiva, o Habib’s transformou-se na maior rede brasileira especializada em comida árabe e construiu sua expansão oferecendo esfihas e outros produtos a preços populares.

A marca tornou-se conhecida em todo o país, enquanto o Grupo Gennius ampliou suas atividades com o Ragazzo, o Tendall Grill e empresas responsáveis por diferentes etapas da cadeia de alimentos.

Essa estrutura integrada ajudou na expansão, mas agora aumenta a complexidade da recuperação. Para superar a crise, o grupo precisará reorganizar dezenas de empresas, preservar o abastecimento, recuperar a confiança dos fornecedores e manter o apoio dos franqueados.

A dívida de R$ 265,2 milhões é menor do que os passivos apresentados recentemente por algumas gigantes do varejo, mas a dependência existente entre restaurantes, indústrias e operadores logísticos aumenta os riscos.

O Grupo Gennius garante que as operações seguem normalmente. O futuro das marcas, entretanto, dependerá da qualidade do plano de recuperação, da negociação com bancos e fornecedores e da capacidade de continuar atraindo consumidores para seus restaurantes.

A crise do Habib’s demonstra que nem mesmo uma marca popular, com décadas de presença no mercado e centenas de unidades, está protegida dos efeitos dos juros altos, da mudança nos hábitos de consumo e do aumento dos custos de operação.

Reportagem: Marcelo Rodrigues
Rede Católica News — informação com responsabilidade cristã

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