REPORTAGEM ESPECIAL — ROCK IN RIO: A HISTÓRIA DAS EDIÇÕES QUE TRANSFORMARAM O BRASIL NA CAPITAL MUNDIAL DA MÚSICA

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Criado em 1985, festival atravessou gerações, chegou a outros países e consolidou-se como um dos maiores eventos musicais do planeta

Poucos festivais conseguiram construir uma relação tão profunda com o público brasileiro quanto o Rock in Rio. Idealizado pelo empresário Roberto Medina, o evento nasceu em janeiro de 1985 com uma proposta considerada ousada: trazer grandes nomes da música internacional para o Brasil e colocá-los ao lado dos principais artistas nacionais.

Naquele período, o país vivia o processo de redemocratização e ainda recebia poucas turnês de estrelas estrangeiras. O Rock in Rio ajudou a modificar esse cenário, projetando definitivamente o Brasil no circuito mundial dos grandes espetáculos.

Mais do que uma sequência de shows, o festival transformou-se em um acontecimento cultural, turístico e econômico. Suas edições acompanharam mudanças na música, no comportamento do público, na tecnologia e na própria sociedade brasileira.

1985 — O NASCIMENTO DE UM GIGANTE

A primeira edição aconteceu entre os dias 11 e 20 de janeiro de 1985, em uma área de aproximadamente 250 mil metros quadrados construída especialmente em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.

O espaço ganhou o nome de Cidade do Rock e contava com uma estrutura inédita para o país. Ao longo de dez dias, aproximadamente 1,4 milhão de pessoas passaram pelo festival.

O elenco reuniu artistas que estavam entre os maiores nomes da música mundial, como Queen, AC/DC, Iron Maiden, Ozzy Osbourne, Scorpions, Whitesnake, Rod Stewart, Yes, James Taylor e George Benson.

O Brasil também foi representado por Ney Matogrosso, Gilberto Gil, Elba Ramalho, Alceu Valença, Rita Lee, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho, Kid Abelha, Lulu Santos e outras atrações.

A apresentação do Queen, especialmente o momento em que Freddie Mercury conduziu o público durante “Love of My Life”, tornou-se uma das imagens mais conhecidas da história dos festivais de música.

O Barão Vermelho, ainda com Cazuza nos vocais, viveu naquela edição um momento decisivo de sua trajetória. Ney Matogrosso também marcou a abertura do evento com uma apresentação ousada, enfrentando inicialmente a resistência de parte do público.

O primeiro Rock in Rio mostrou ao mundo a intensidade dos fãs brasileiros e abriu caminho para que grandes turnês internacionais passassem a incluir o país em suas agendas.

1991 — O MARACANÃ SE TRANSFORMA EM PALCO

A segunda edição aconteceu entre 18 e 26 de janeiro de 1991. Sem a antiga Cidade do Rock, que havia sido demolida, o festival ocupou o Estádio do Maracanã.

O gramado e as arquibancadas receberam aproximadamente 700 mil pessoas durante nove dias de apresentações.

O Rock in Rio II reuniu nomes como Guns N’ Roses, Prince, George Michael, INXS, New Kids on the Block, A-ha, Santana, Judas Priest, Megadeth e Faith No More.

O Guns N’ Roses chegou ao Brasil no auge da popularidade e realizou apresentações que se tornaram históricas para seus fãs. Prince confirmou sua reputação como um dos artistas mais completos de sua geração, enquanto George Michael viveu um dos momentos de maior projeção de sua carreira solo.

Entre os brasileiros estavam Titãs, Engenheiros do Hawaii, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial, Lobão, Lulu Santos e Roupa Nova.

A edição mostrou que o festival não dependia exclusivamente da estrutura original para manter sua força. O Maracanã tornou-se, por alguns dias, o centro mundial da música.

2001 — UM FESTIVAL POR UM MUNDO MELHOR

Dez anos depois, o Rock in Rio retornou ao local de sua primeira edição. Entre 12 e 21 de janeiro de 2001, uma nova Cidade do Rock recebeu o terceiro festival brasileiro.

A edição ampliou a variedade de estilos e passou a contar com espaços alternativos, como as tendas dedicadas à música brasileira, eletrônica, africana e internacional.

O elenco trouxe nomes como Red Hot Chili Peppers, R.E.M., Iron Maiden, Guns N’ Roses, Britney Spears, Sting, Sheryl Crow, Foo Fighters, Oasis, Neil Young e ’N Sync.

Artistas brasileiros como Gilberto Gil, Daniela Mercury, Cássia Eller, Carlinhos Brown, O Rappa, Ira!, Pato Fu e Capital Inicial também participaram.

A apresentação do Iron Maiden deu origem a um dos registros ao vivo mais conhecidos da banda. O show do Red Hot Chili Peppers reuniu uma multidão diante do Palco Mundo.

A edição de 2001 também reforçou a campanha “Por um Mundo Melhor”. Durante alguns minutos, emissoras de televisão e rádio interromperam suas transmissões em uma mobilização simbólica pela paz.

O festival demonstrava, assim, que desejava associar sua marca não apenas ao entretenimento, mas também a causas sociais e ambientais.

A INTERNACIONALIZAÇÃO DA MARCA

Depois das três primeiras edições brasileiras, o Rock in Rio iniciou uma nova etapa. Em 2004, o festival chegou a Lisboa, em Portugal, começando sua expansão internacional.

A capital portuguesa passou a receber regularmente o evento. Posteriormente, o Rock in Rio também realizou edições em Madri, na Espanha, e em Las Vegas, nos Estados Unidos.

A internacionalização consolidou o projeto como uma marca global. Apesar das diferenças entre os países, alguns elementos foram preservados, como o Palco Mundo, a Cidade do Rock, os grandes encontros musicais e a campanha “Por um Mundo Melhor”.

2011 — O GRANDE RETORNO AO RIO DE JANEIRO

Após uma ausência de dez anos, o festival retornou ao Brasil em setembro de 2011. Uma nova Cidade do Rock foi construída na Barra da Tijuca, em uma área que posteriormente seria incorporada ao Parque Olímpico.

A quarta edição brasileira inaugurou um novo ciclo. A partir daquele momento, o evento passou a ser realizado com maior regularidade no país.

Coldplay, Rihanna, Katy Perry, Elton John, Stevie Wonder, Metallica, Red Hot Chili Peppers, Slipknot, System of a Down e Guns N’ Roses estiveram entre as principais atrações.

O festival retornou ainda mais diversificado, reunindo rock, pop, metal, música brasileira e atrações eletrônicas. A presença de diferentes gerações mostrou que o Rock in Rio já não pertencia somente ao público que acompanhou sua criação.

2013 — O ROCK DIVIDE ESPAÇO COM O POP

A edição de 2013 confirmou a periodicidade do festival e reforçou sua abertura para diferentes estilos musicais.

Beyoncé apresentou um dos espetáculos mais comentados daquela edição. Justin Timberlake, Alicia Keys, Bruce Springsteen, Bon Jovi, Metallica, Iron Maiden e Muse também passaram pelo Palco Mundo.

Bruce Springsteen emocionou o público ao interpretar “Sociedade Alternativa”, de Raul Seixas. Beyoncé surpreendeu ao incorporar elementos do funk carioca à sua apresentação.

O festival mostrava que, apesar de carregar o rock no nome, havia se transformado em um grande encontro da cultura musical contemporânea.

2015 — TRINTA ANOS DE HISTÓRIA

Em 2015, o Rock in Rio celebrou três décadas desde sua criação. A edição foi marcada pelo encontro entre memória e renovação.

Queen, agora com Adam Lambert nos vocais, retornou ao Palco Mundo 30 anos depois das apresentações históricas de Freddie Mercury. O reencontro teve forte significado emocional para o público.

Metallica, Rihanna, Katy Perry, Rod Stewart, Elton John, System of a Down e Slipknot também estiveram entre as principais atrações.

A edição carioca reuniu cerca de 595 mil pessoas e contou com aproximadamente 160 atrações. O Rock in Rio Card foi esgotado em menos de uma hora, demonstrando a força comercial alcançada pelo evento.

2017 — UMA NOVA CIDADE DO ROCK

O Rock in Rio inaugurou em 2017 sua estrutura no Parque Olímpico, construído para os Jogos do Rio de Janeiro no ano anterior.

A mudança proporcionou uma área maior e permitiu ampliar as opções de entretenimento, alimentação e experiências oferecidas ao público.

Maroon 5, Justin Timberlake, Aerosmith, Bon Jovi, Guns N’ Roses e Red Hot Chili Peppers estavam entre as principais atrações.

Lady Gaga seria responsável por uma das noites mais aguardadas, mas cancelou sua apresentação por problemas de saúde relacionados à fibromialgia. O Maroon 5, que já se apresentaria em outra data, foi chamado para substituí-la.

A edição consolidou o Parque Olímpico como a nova casa do festival no Rio de Janeiro.

2019 — DIVERSIDADE E NOVAS EXPERIÊNCIAS

Em 2019, a Cidade do Rock voltou a reunir diferentes estilos e gerações.

Drake, Foo Fighters, Bon Jovi, Iron Maiden, P!nk, Muse, Imagine Dragons e Red Hot Chili Peppers lideraram a programação.

O festival também ampliou espaços como o New Dance Order, dedicado à música eletrônica, e o Espaço Favela, criado para valorizar artistas e manifestações culturais das comunidades do Rio de Janeiro.

A edição mostrou uma transformação importante: o Rock in Rio havia deixado de ser apenas um conjunto de grandes shows para se tornar um amplo parque de experiências culturais e de entretenimento.

2022 — O REENCONTRO DEPOIS DA PANDEMIA

A edição originalmente esperada para 2021 precisou ser transferida em consequência da pandemia de Covid-19. O reencontro com o público aconteceu em setembro de 2022.

Depois de anos marcados pelo isolamento e pelo cancelamento de grandes eventos, a volta à Cidade do Rock ganhou um significado especial.

Iron Maiden, Post Malone, Justin Bieber, Guns N’ Roses, Green Day, Coldplay, Dua Lipa e outros grandes nomes lideraram as sete noites de apresentações.

O show do Coldplay destacou-se pela participação intensa do público e pelo espetáculo de luzes. A edição também ficou marcada pela diversidade, combinando rock, pop, rap, funk, música eletrônica e produção nacional.

2024 — QUARENTA ANOS DE LEGADO

A décima edição brasileira, realizada em 2024, celebrou os 40 anos do Rock in Rio, considerando a trajetória iniciada em 1985.

Travis Scott, Ed Sheeran, Katy Perry, Imagine Dragons, Avenged Sevenfold, Mariah Carey, Shawn Mendes e Akon estiveram entre as atrações.

A edição apresentou um dia com protagonismo feminino e reforçou a presença do pop, do rap, do trap e de outros gêneros no festival.

Uma das novidades foi o espetáculo musical “Sonhos, Lama e Rock and Roll”, inspirado na criação do evento e nas dificuldades enfrentadas para realizar a primeira Cidade do Rock.

A celebração dos 40 anos mostrou como um projeto inicialmente considerado arriscado tornou-se parte da memória afetiva de milhões de brasileiros.

2026 — A DÉCIMA PRIMEIRA EDIÇÃO BRASILEIRA

O Rock in Rio 2026 acontece nos dias 4, 5, 6, 7, 11, 12 e 13 de setembro, na Cidade do Rock, instalada no Parque Olímpico da Barra da Tijuca.

Foo Fighters, Avenged Sevenfold, Calvin Harris, Elton John, Stray Kids, Maroon 5 e Twenty One Pilots foram anunciados como os principais nomes das sete noites.

A programação também reúne artistas como Bring Me the Horizon, Sepultura, Rise Against, The Hives, Black Eyed Peas, Demi Lovato, Halsey, Gilberto Gil, João Gomes e Ivete Sangalo.

A edição já começou cercada por lembranças da história do festival. O Barão Vermelho promoveu uma reunião de integrantes de sua formação clássica e realizou um dueto virtual com Cazuza, projetado nos telões da Cidade do Rock.

O Sepultura fez sua última apresentação no festival durante a turnê de despedida da banda. O show ocorreu debaixo de chuva e representou o encerramento de um ciclo para o maior nome do metal brasileiro.

Outra novidade histórica será a estreia do K-pop no Palco Mundo, com o grupo Stray Kids. Elton John também retorna aos palcos para uma apresentação exclusiva no Brasil.

MAIS DO QUE ROCK

Ao longo das décadas, o festival recebeu críticas pela presença cada vez maior de artistas do pop, rap, funk, música eletrônica e outros gêneros.

Entretanto, essa diversidade faz parte da própria história do evento. Desde 1985, nomes como Elba Ramalho, George Benson, Ney Matogrosso, Gilberto Gil e James Taylor já dividiam a programação com bandas de rock e heavy metal.

O nome Rock in Rio tornou-se uma marca cultural. O festival passou a representar não apenas um gênero musical, mas a reunião de diferentes públicos em torno dos grandes espetáculos.

UM LEGADO BRASILEIRO PARA O MUNDO

O Rock in Rio ajudou a desenvolver a indústria brasileira de eventos, estabeleceu novos padrões de estrutura e segurança e mostrou aos artistas internacionais a força do público nacional.

O festival também movimenta hotéis, restaurantes, transportes, comércio e turismo, gerando empregos e atraindo visitantes de diferentes regiões do Brasil e do exterior.

Suas imagens permanecem na memória coletiva: Freddie Mercury conduzindo uma multidão, Cazuza cantando com o Barão Vermelho, o Guns N’ Roses no Maracanã, o retorno do Queen, o público iluminado no show do Coldplay e tantos outros encontros que atravessaram gerações.

Mais de quatro décadas depois, o Rock in Rio continua se renovando sem abandonar completamente sua história. A antiga Cidade do Rock mudou de lugar, os estilos musicais se multiplicaram e novas gerações ocuparam o público.

O sonho iniciado por Roberto Medina em 1985 ultrapassou as fronteiras do Brasil e transformou-se em uma das maiores marcas de música e entretenimento do mundo.

Reportagem: Marcelo Rodrigues

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