EDITORIAL — DEUS NÃO SE CURVA AOS NOSSOS CAPRICHOS

Igreja

DOM HENRIQUE SOARES NOS RECORDA QUE A VERDADEIRA CONVERSÃO COMEÇA QUANDO ABANDONAMOS A NOSSA LÓGICA PARA ACOLHER A VONTADE DE DEUS

Em uma profunda reflexão sobre a Liturgia da Palavra do 25º Domingo do Tempo Comum, o saudoso Dom Henrique Soares da Costa apresenta uma verdade que o homem moderno frequentemente tenta esquecer: Deus não existe para confirmar nossas vontades, justificar nossos pecados ou satisfazer nossos caprichos.

Somos nós que precisamos nos converter a Ele.

A partir das palavras do profeta Isaías — “Meus pensamentos não são como os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são como os meus caminhos” —, Dom Henrique mostra que a lógica divina está infinitamente acima dos cálculos humanos.

Não podemos reduzir Deus às nossas expectativas. Não podemos aceitar sua vontade apenas quando ela coincide com aquilo que desejamos. A fé verdadeira permanece também quando não compreendemos os acontecimentos, quando as respostas não chegam e quando os caminhos escolhidos pelo Senhor passam pela cruz.

Como advertiu Dom Henrique: “É você que tem que se converter a Deus. Não é Deus que tem que se converter à gente.”

Essa frase resume uma das maiores necessidades espirituais do nosso tempo.

Vivemos em uma sociedade que procura construir uma religião sem renúncia, uma fé sem obediência e um cristianismo sem cruz. Muitos desejam as consolações de Deus, mas rejeitam seus mandamentos. Procuram milagres, benefícios e soluções imediatas, mas não estão dispostos a abandonar o pecado, aproximar-se da confissão, participar da Santa Missa e transformar concretamente a própria vida.

Buscar o Senhor não significa apenas pronunciar seu nome. Buscar o Senhor significa converter-se.

Deus nos procura primeiro

A reflexão de Dom Henrique também nos oferece uma mensagem de esperança: ninguém poderia procurar o Senhor se não tivesse sido primeiramente procurado por Ele.

Deus nos chama por meio de sua Palavra, dos sacramentos, das alegrias e até mesmo das provações. Uma doença, uma derrota, uma tristeza ou aquela sensação de que os bens deste mundo não conseguem preencher o coração podem se transformar em instrumentos da graça.

O Senhor continua procurando seus filhos na praça da vida.

Assim como o proprietário da parábola saiu em diferentes momentos do dia para chamar trabalhadores para sua vinha, Deus não desiste do ser humano. Ele chama desde as primeiras horas, mas continua procurando até o final do dia. Enquanto houver vida, haverá um convite à conversão.

Entretanto, a graça divina não destrói nossa liberdade. Podemos acolhê-la ou recusá-la. Podemos permitir que ela produza frutos ou endurecer o coração. Deus nos chama, mas não nos obriga a amá-lo.

Por isso, a advertência do profeta permanece urgente: devemos buscar o Senhor enquanto Ele pode ser encontrado. Adiar indefinidamente a conversão pode tornar o coração insensível. Pouco a pouco, a Missa é abandonada, a oração desaparece, a confissão é esquecida e os mandamentos passam a ser tratados como obstáculos ultrapassados.

Até que Deus se torne apenas uma lembrança distante.

A inveja diante da bondade de Deus

A parábola dos trabalhadores da vinha revela ainda uma doença espiritual presente dentro e fora da Igreja: a incapacidade de nos alegrarmos com o bem concedido ao próximo.

Os trabalhadores contratados no início do dia receberam exatamente aquilo que havia sido combinado. Mesmo assim, revoltaram-se porque os últimos receberam a mesma recompensa.

Eles não foram vítimas de uma injustiça. Foram dominados pela inveja.

O coração invejoso não consegue desfrutar da graça que recebeu porque permanece preocupado com aquilo que Deus concedeu ao outro. Não agradece pelos próprios dons; prefere vigiar, comparar e murmurar.

Essa atitude também pode contaminar comunidades, pastorais, movimentos e grupos católicos. Há quem transforme o serviço à Igreja em disputa por reconhecimento, prestígio ou posição. Há quem trabalhe esperando recompensas humanas e depois pergunte, amargurado, o que recebeu em troca.

A resposta cristã é clara: servir ao Reino já é uma graça.

Deus não nos deve nada. Tudo o que somos, possuímos e realizamos nasce de sua misericórdia. A recompensa daquele que trabalha na vinha do Senhor é a própria alegria de ter sido chamado.

Viver à altura do Evangelho

São Paulo declara que, para ele, viver é Cristo e morrer é lucro. Não se trata de desprezo pela vida, mas da certeza de que nem mesmo a morte pode separar o cristão do amor de seu Senhor.

Quando Cristo ocupa verdadeiramente o centro, a vida e a morte adquirem um novo sentido. A existência deixa de ser uma busca desesperada por reconhecimento, poder e vantagens. Passa a ser uma oferta inteiramente dirigida a Deus.

A grande pergunta apresentada por essa palestra não é se conhecemos alguma coisa sobre Jesus, mas se Ele é realmente o centro da nossa vida.

Cristo é apenas uma ideia distante ou é o amor de nossa existência? Nossa fé aparece somente nos momentos de necessidade ou orienta nossas escolhas, nossos relacionamentos e nossa conduta?

Dom Henrique Soares nos convida a abrir o coração para a graça, abandonar a lógica da comparação e confiar no Senhor mesmo quando não compreendemos seus caminhos.

Deus continua nos procurando. Continua chamando-nos para sua vinha. Continua oferecendo sua misericórdia.

Cabe a cada um de nós responder.

Que não sejamos encontrados de braços cruzados, presos ao comodismo, à inveja e ao pecado. Que tenhamos a coragem de abandonar nossos caminhos para seguir os caminhos de Deus.

Porque o verdadeiro cristão não procura adaptar o Evangelho às próprias vontades. É ele quem permite que o Evangelho transforme inteiramente sua vida.

Rede Católica News
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