EPISÓDIO 2 — ANTES DO ASFALTO: COMO NASCEU A BR-116
Formada por trechos construídos em diferentes épocas, a rodovia reúne histórias de caminhos antigos, grandes obras e projetos de integração do território brasileiro.
Reportagem: Marcelo Rodrigues — RCNEWS
A BR-116 não nasceu inteira, em uma única obra. O caminho que hoje liga Fortaleza, no Ceará, a Jaguarão, no Rio Grande do Sul, foi formado pela articulação de ligações regionais, construídas e melhoradas em diferentes momentos. Conhecer sua origem exige acompanhar essa história por partes: a abertura das estradas, a construção de pontes, a chegada do pavimento e as mudanças de traçado e identificação.
Neste segundo episódio, o RCNEWS volta ao passado para apresentar alguns dos marcos que ajudaram a formar esse eixo rodoviário. Uma trajetória que passa pela antiga Rio–São Paulo, pela Rio–Bahia e pelas ligações entre o Sudeste e o Sul. A síntese histórica do Ministério dos Transportes registra esses empreendimentos entre as prioridades da expansão rodoviária brasileira no século XX.
OS CAMINHOS ANTES DOS MOTORES
Muito antes das grandes rodovias, o deslocamento entre regiões dependia de uma rede de caminhos terrestres, rios e, posteriormente, ferrovias. No Sul, um exemplo é o Caminho de Viamão, registrado na cronologia do Detran do Paraná em 1731: uma ligação que saía do território gaúcho, passava pelos Campos Gerais e alcançava Sorocaba, em São Paulo.
Esses caminhos ajudam a compreender a necessidade histórica de transportar pessoas, animais e mercadorias entre regiões. Entretanto, associar um caminho antigo a uma rodovia atual exige cuidado: os percursos podem se aproximar em determinados lugares e seguir direções diferentes em outros.
Por isso, a história da BR-116 precisa considerar tanto a circulação anterior ao automóvel quanto os projetos de engenharia que estabeleceram suas pistas.
A LIGAÇÃO ENTRE RIO E SÃO PAULO
Um dos antecedentes importantes foi a antiga estrada Rio–São Paulo, inaugurada em 1928, segundo o Ministério dos Transportes. Mais de duas décadas depois, uma nova ligação entre as duas capitais marcaria outra etapa dessa história: a Rodovia Presidente Dutra.
Inaugurada em 19 de janeiro de 1951, pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra, a nova estrada encurtou o percurso rodoviário entre Rio de Janeiro e São Paulo em 111 quilômetros. Conforme o histórico publicado pelo Ministério, o tempo de viagem caiu de aproximadamente 12 horas, em 1948, para seis horas com a nova ligação.
Esse marco corresponde à inauguração da Dutra, trecho que integra a BR-116. A formação do restante do percurso tem outras datas e etapas, fundamentais para compreender a rodovia em sua dimensão nacional.
RIO–BAHIA: A CONSTRUÇÃO DE UMA LIGAÇÃO REGIONAL
Outra parte decisiva foi a Rio–Bahia, identificada anteriormente como BR-4. O Ministério dos Transportes situa em 1963 a conclusão de sua pavimentação, um marco na consolidação dessa ligação.
A legislação da época permite acompanhar o esforço financeiro destinado às obras. Em abril de 1960, a Lei nº 3.753 concedeu prioridade aos melhoramentos e à pavimentação da Rio–Bahia. Em maio de 1962, a Lei nº 4.058 autorizou crédito especial que incluía recursos para pavimentar o trecho entre Leopoldina, em Minas Gerais, e Feira de Santana, na Bahia.
Esses documentos mostram por que abertura ao tráfego, pavimentação e conclusão de serviços precisam ser diferenciadas. Uma estrada podia permitir a passagem de veículos e ainda depender de intervenções para oferecer melhores condições de circulação.
A CONEXÃO COM O SUL
Na ligação entre São Paulo e Curitiba, outro marco foi a Rodovia Régis Bittencourt, cuja construção é registrada em 1961 pela cronologia do Detran do Paraná. O trecho integra a BR-116 e compõe a conexão rodoviária entre o Sudeste e o Sul.
Vista em conjunto, essa sequência ajuda a compreender a formação da rodovia: obras realizadas em épocas distintas passaram a compor um percurso mais amplo. Cada trecho conserva uma história própria, ligada às características do terreno, às cidades e às decisões públicas de seu período.
O QUE SIGNIFICA BR-116?
A identificação também conta parte dessa história. Segundo o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, a sigla BR identifica uma rodovia federal. O primeiro algarismo informa sua categoria: o número 1 corresponde às rodovias longitudinais, de orientação geral norte–sul.
Os dois algarismos seguintes indicam sua posição no sistema nacional, conforme critérios geográficos relacionados a Brasília e aos limites do país. Assim, o número 116 funciona como uma referência para localizar e organizar a estrada na malha federal.
A HISTÓRIA QUE TAMBÉM PRECISA SER OUVIDA
Os registros oficiais apresentam datas, projetos e investimentos. A série buscará acrescentar a essa documentação a memória das comunidades: pessoas que acompanharam obras, famílias que abriram negócios e trabalhadores que conheceram diferentes condições de viagem.
Esses relatos poderão ajudar a compreender como as mudanças chegaram à vida cotidiana. Serão ouvidos como testemunhos pessoais e confrontados, quando necessário, com documentos e outros registros.
A formação da BR-116 reúne decisões de governos, trabalho de engenheiros e operários e experiências de sucessivas gerações de usuários. Conhecer esse passado prepara a próxima etapa da série: observar de perto os lugares e as pessoas que dão vida à estrada.
No próximo episódio: “Ceará — onde a viagem começa”.
Marcelo Rodrigues, presidente do RCNEWS e pesquisador da Vida dos Santos.
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