EPISÓDIO 1 — CID MOREIRA: A VOZ QUE ATRAVESSOU GERAÇÕES
Do rádio à televisão, das bancadas às gravações da Bíblia, o comunicador construiu uma presença que permanece na memória brasileira.
Por Marcelo Rodrigues — RCNEWS
Duas palavras bastavam para reconhecer quem estava diante do microfone: “Boa noite”. Na voz grave de Cid Moreira, o cumprimento ganhou uma identidade própria. Para gerações de brasileiros, tornou-se parte do ritual de acompanhar os acontecimentos pela televisão.
É com essa lembrança que o RCNEWS abre a série “Vozes da Notícia”. A trajetória de Cid acompanha uma transformação decisiva na comunicação: o caminho entre o rádio, que já ocupava os lares, e a televisão, que passaria a reunir o país diante das mesmas imagens.
DAS ORIGENS EM TAUBATÉ AO MICROFONE
Nascido em Taubaté, no interior de São Paulo, em 27 de setembro de 1927, Cid Moreira formou-se em contabilidade, mas encontrou na locução seu caminho profissional. Segundo seu depoimento ao Memória Globo, um amigo percebeu seu talento em apresentações nas festas da cidade e o incentivou a fazer um teste na Rádio Difusora Taubaté.
Vieram os comerciais, a experiência na Rádio Bandeirantes, em São Paulo, e a passagem pela Rádio Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro. O aprendizado no rádio ajudaria a formar o apresentador: dicção cuidadosa, domínio das pausas e atenção ao ritmo de cada frase.
UMA ESTREIA NA HISTÓRIA DA TELEVISÃO
Em 1º de setembro de 1969, Cid dividiu com Hilton Gomes a apresentação da primeira edição do Jornal Nacional. Transmitido ao vivo do Rio de Janeiro, o programa inaugurava uma experiência de telejornal em rede, apoiada na infraestrutura de telecomunicações que permitia conectar diferentes cidades.
Naquela estreia, a notícia política sobre a junta militar que assumira o governo dividiu espaço com assuntos internacionais e com a classificação da seleção brasileira para a Copa de 1970.
A televisão ampliava seu alcance, e a voz de Cid passava a acompanhar esse processo. Sua presença na bancada ajudaria a dar continuidade e reconhecimento a um noticiário que se tornaria parte da rotina nacional.
O ROSTO E A VOZ DA BANCADA
Cid permaneceu na apresentação do Jornal Nacional de 1969 a 1996. Nesse período, formou parcerias marcantes, especialmente com Sérgio Chapelin. Segundo levantamento do Memória Globo, apresentou cerca de oito mil edições.
Seu estilo valorizava a leitura precisa e a força da locução. A postura contida, o olhar para a câmera e a voz facilmente reconhecível compunham uma maneira de apresentar notícias que se tornou referência.
Em 1996, a reformulação do telejornal levou William Bonner e Lillian Witte Fibe à bancada, consolidando um modelo que aproximava apresentação e participação na edição. Cid encerrava uma etapa de sua carreira, mas continuaria presente na televisão.
DO FANTÁSTICO ÀS ESCRITURAS
No Fantástico, sua voz também encontrou espaço para o mistério, a curiosidade e o entretenimento. A narração dos quadros de Mister M tornou-se uma de suas participações mais lembradas, mostrando como sua interpretação podia dar personalidade a conteúdos muito diferentes.
Outro capítulo importante foi a gravação de textos bíblicos. A partir da década de 1990, dedicou-se à narração de salmos e, em 2011, realizou o projeto de gravar a Bíblia integralmente.
As gravações levaram sua voz a outro tipo de escuta: a leitura religiosa, a reflexão e os momentos pessoais de espiritualidade. O trabalho ampliou o alcance de sua atuação para além do noticiário.
UMA PRESENÇA QUE PERMANECE
Cid Moreira morreu em 3 de outubro de 2024, aos 97 anos, em Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro. Sua morte encerrou uma longa trajetória, mas deixou um acervo que permite revisitar diferentes fases da comunicação brasileira.
Seu legado convida a observar o trabalho por trás de uma voz marcante. Informar diante de uma câmera exige clareza, preparo e capacidade de sustentar a atenção de quem escuta. Em Cid, esses elementos encontraram uma expressão singular.
Ao abrir “Vozes da Notícia”, o RCNEWS homenageia um profissional cuja lembrança continua associada ao encontro entre a notícia e o público. Uma presença que permanece reconhecível mesmo sem imagem — basta ouvir o seu “boa noite”.
NO PRÓXIMO EPISÓDIO
Sérgio Chapelin — Sobriedade e credibilidade diante das câmeras.
Marcelo Rodrigues — presidente do RCNEWS
RCNEWS — Informação com responsabilidade cristã
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