SÉRIE ESPECIAL – O GOVERNO DOS PAPAS EPISÓDIO 9

Igreja

PAPA PIO XI
O DEFENSOR DA IGREJA DIANTE DOS TOTALITARISMOS

Por Marcelo Rodrigues

INTRODUÇÃO

A história da Igreja Católica no século XX foi marcada por um dos períodos mais turbulentos da humanidade. O avanço dos regimes totalitários, a crise econômica mundial, o crescimento do comunismo soviético, o fascismo italiano e o nazismo alemão colocaram a Santa Sé diante de desafios inéditos.

Foi nesse cenário que, em 1922, foi eleito Papa Pio XI, sucedendo Bento XV. Seu pontificado durou até 1939 e ficou marcado pela firme defesa da liberdade da Igreja, pela condenação das ideologias que ameaçavam a dignidade humana e por uma intensa atuação diplomática.

Conhecido como um homem culto, decidido e profundamente espiritual, Pio XI conduziu a Barca de Pedro em um período em que muitos governos buscavam controlar completamente a sociedade, a educação, a cultura e até mesmo a religião.

A eleição de Pio XI representou o início de uma nova fase na relação entre a Igreja e os Estados modernos.

A SITUAÇÃO DO MUNDO EM SUA ELEIÇÃO

Quando Pio XI assumiu o papado, a Europa ainda sofria as consequências da Primeira Guerra Mundial.

Entre os principais desafios estavam:

  • devastação econômica;
  • desemprego crescente;
  • crise política em diversos países;
  • crescimento dos movimentos revolucionários;
  • expansão do comunismo soviético;
  • fortalecimento do nacionalismo extremo.

Muitos países buscavam líderes fortes para restaurar a ordem. Esse ambiente favoreceu o surgimento dos regimes totalitários.

OS GRANDES DESAFIOS DO PONTIFICADO

Durante seus dezessete anos de pontificado, Pio XI enfrentou diversos desafios simultaneamente.

Entre eles:

  • expansão do comunismo ateu na União Soviética;
  • ascensão do fascismo de Benito Mussolini na Itália;
  • crescimento do nazismo liderado por Adolf Hitler na Alemanha;
  • perseguições religiosas no México durante a Guerra Cristera;
  • perseguições anticatólicas na Espanha;
  • fortalecimento do secularismo na Europa.

Poucos papas tiveram de enfrentar tantos conflitos ideológicos ao mesmo tempo.

A QUESTÃO DOS TOTALITARISMOS

Este talvez tenha sido o aspecto mais marcante de seu pontificado.

Pio XI compreendeu rapidamente que os regimes totalitários pretendiam ocupar um espaço que pertencia somente a Deus.

Essas ideologias buscavam transformar o Estado em autoridade absoluta.

A Igreja defendia justamente o contrário:

o Estado possui autoridade legítima, mas ela encontra limites na lei moral, na dignidade da pessoa humana e na liberdade religiosa.

A reação de Pio XI foi firme.

O FASCISMO ITALIANO

Quando Benito Mussolini chegou ao poder, muitos acreditavam que haveria estabilidade para a Itália.

Em 1929 foi assinado o Tratado de Latrão.

Esse acordo solucionou a chamada “Questão Romana”, existente desde 1870.

O tratado:

  • reconheceu oficialmente o Estado da Cidade do Vaticano;
  • garantiu a independência territorial da Santa Sé;
  • normalizou as relações entre Igreja e Estado italiano.

Entretanto, quando o fascismo tentou controlar a juventude católica e limitar a ação da Igreja, Pio XI reagiu.

Na encíclica Non Abbiamo Bisogno (1931), criticou fortemente o totalitarismo fascista e rejeitou a tentativa do Estado de monopolizar a educação da juventude.

O NAZISMO

A ascensão de Adolf Hitler trouxe novos desafios.

Inicialmente, buscou-se garantir a liberdade da Igreja através da assinatura do Concordata de 1933.

Contudo, o regime nazista passou rapidamente a descumprir diversos compromissos.

Bispos foram perseguidos.

Sacerdotes presos.

Associações católicas dissolvidas.

Em resposta, Pio XI publicou uma das mais importantes encíclicas do século XX:

Mit Brennender Sorge (1937).

Escrita em alemão — algo incomum para uma encíclica — ela denunciava:

  • o racismo;
  • o culto ao Estado;
  • a idolatria da raça;
  • o neopaganismo;
  • as violações do acordo firmado com a Santa Sé.

O documento foi distribuído secretamente e lido simultaneamente nas igrejas alemãs, surpreendendo o governo nazista.

O COMUNISMO

Outro grande adversário enfrentado por Pio XI foi o comunismo soviético.

A perseguição aos cristãos na União Soviética preocupava profundamente o Papa.

Em 1937 publicou a encíclica Divini Redemptoris.

Nela denunciava:

  • o materialismo ateu;
  • a supressão da liberdade religiosa;
  • a perseguição aos cristãos;
  • a destruição da família;
  • o ataque ao direito de propriedade.

Foi uma das condenações mais contundentes já feitas pela Santa Sé ao comunismo.

A GUERRA CRISTERA

No México, leis anticlericais proibiram diversas atividades religiosas.

Igrejas foram fechadas.

Sacerdotes expulsos.

Muitos católicos reagiram.

Surgiu então a Guerra Cristera.

Pio XI apoiou espiritualmente os fiéis perseguidos e condenou energicamente as medidas do governo mexicano.

OS DOCUMENTOS MAIS IMPORTANTES

Entre seus principais documentos destacam-se:

  • Ubi Arcano Dei (1922);
  • Quas Primas (1925), que instituiu a Solenidade de Cristo Rei;
  • Casti Connubii (1930), sobre o matrimônio cristão;
  • Quadragesimo Anno (1931), sobre a doutrina social da Igreja;
  • Non Abbiamo Bisogno (1931);
  • Mit Brennender Sorge (1937);
  • Divini Redemptoris (1937).

Todos permanecem importantes referências para o pensamento social da Igreja.

A DOUTRINA SOCIAL

Pio XI fortaleceu significativamente a Doutrina Social da Igreja.

Na encíclica Quadragesimo Anno, atualizou os ensinamentos da Rerum Novarum de Leão XIII.

Defendeu:

  • justiça social;
  • dignidade do trabalhador;
  • equilíbrio entre capital e trabalho;
  • rejeição tanto do liberalismo econômico sem limites quanto do socialismo revolucionário;
  • princípio da subsidiariedade.

Esses ensinamentos continuam influenciando a ação social da Igreja em todo o mundo.

AS MISSÕES

Seu pontificado também foi marcado pelo incentivo às missões.

Pio XI ficou conhecido como “Papa das Missões”.

Promoveu a criação de dioceses em vários continentes.

Incentivou a formação do clero local.

Valorizou a evangelização respeitando as culturas dos diversos povos.

A CANONIZAÇÃO DE SANTOS

Durante seu pontificado foram canonizados diversos santos importantes.

Entre eles:

  • Santa Teresinha do Menino Jesus;
  • São João Maria Vianney;
  • São Roberto Belarmino.

Também proclamou Santa Teresinha padroeira universal das missões.

O LEGADO

Quando faleceu, em fevereiro de 1939, a Europa caminhava rapidamente para a Segunda Guerra Mundial.

Seu sucessor encontraria um cenário ainda mais dramático.

Entretanto, Pio XI deixou um legado marcante.

Foi um Papa que não se calou diante dos abusos dos regimes totalitários.

Defendeu a liberdade da Igreja.

Protegeu a dignidade da pessoa humana.

Combateu o racismo, o culto ao Estado e o materialismo ateu.

Embora tenha recorrido frequentemente ao diálogo diplomático, jamais deixou de denunciar aquilo que considerava incompatível com o Evangelho.

CONCLUSÃO

O pontificado de Pio XI permanece como um dos mais importantes da história contemporânea da Igreja.

Sua firmeza diante do fascismo, do nazismo e do comunismo demonstra que a missão do sucessor de Pedro vai além das fronteiras religiosas: consiste também em defender a verdade, a liberdade e a dignidade humana quando estas são ameaçadas.

Em uma época em que muitos governos buscavam transformar o Estado em uma autoridade absoluta, Pio XI recordou ao mundo que somente Deus ocupa esse lugar.

No próximo episódio da série “O Governo dos Papas”, conheceremos o pontificado de Pio XII, que conduziu a Igreja durante a Segunda Guerra Mundial, um dos períodos mais dramáticos da história da humanidade.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *