Celebrada oito dias após a Assunção, a memória litúrgica reconhece a participação singular da Virgem Maria na realeza de Cristo
A Igreja Católica celebra, no dia 22 de agosto, a memória de Nossa Senhora Rainha. A festa, celebrada oito dias após a Solenidade da Assunção, contempla a Virgem Maria coroada no Céu e participante da realeza de seu Filho, Jesus Cristo.
Maria é reconhecida como Rainha porque é a Mãe de Jesus, o Rei do Universo. Sua realeza, entretanto, não é marcada pelo poder terreno, pela dominação ou pela busca de privilégios. Ela nasce da humildade, da obediência e do serviço completo à vontade de Deus.
Na Anunciação, o anjo Gabriel revelou a Maria que ela seria a Mãe do Salvador:
“O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra. Por isso, o Santo que nascer será chamado Filho de Deus.”
Diante do anúncio, Maria respondeu com uma entrega total:
“Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,35.38).
Aquela que se declarou serva tornou-se Rainha. Esse aparente contraste expressa a lógica do Evangelho: diante de Deus, é verdadeiramente grande aquele que serve; é exaltado aquele que se humilha; e recebe a coroa aquele que permanece fiel.
A MÃE DO REI
A realeza de Maria está inseparavelmente ligada à realeza de Cristo. Se Jesus é Rei, sua Mãe ocupa um lugar singular na história da salvação.
Desde os primeiros séculos, os cristãos reconheceram a dignidade especial da Virgem Maria. Ela foi escolhida por Deus para gerar, alimentar, educar e acompanhar o Filho eterno que assumiu a natureza humana.
Maria não é uma deusa e não ocupa o lugar de Cristo. Toda a sua grandeza vem de Deus e conduz a Jesus. Sua missão é sempre apresentar o Filho à humanidade e orientar os homens para que obedeçam à vontade divina.
Nas Bodas de Caná, suas palavras resumiram essa missão: “Fazei tudo o que Ele vos disser”.
A verdadeira devoção mariana nunca afasta o cristão de Jesus. Ao contrário, conduz o coração diretamente a Cristo.
RAINHA PELA SANTIDADE E PELO SERVIÇO
Maria é Rainha porque foi cumulada pela graça e respondeu ao chamado divino com fé, pureza e fidelidade. Sua vida foi inteiramente oferecida ao cumprimento dos planos de Deus.
O poeta italiano Dante Alighieri, na obra “Divina Comédia”, apresentou a Virgem como aquela que reúne em si a bondade presente nas criaturas.
A Igreja contempla em Maria a superabundante generosidade do amor divino. Ela foi agraciada com o duplo diadema da virgindade e da maternidade divina: permaneceu Virgem e tornou-se verdadeiramente a Mãe de Deus.
Sua coroa não representa vaidade ou superioridade humana. É o reconhecimento de uma existência completamente entregue ao Senhor. Maria reinou servindo, amando, sofrendo e permanecendo fiel.
No Calvário, permaneceu aos pés da cruz quando muitos haviam fugido. Uniu sua dor ao sacrifício redentor do Filho e acolheu, na pessoa do discípulo amado, todos os seguidores de Cristo como seus filhos.
MARIA NO CORAÇÃO DA IGREJA
O livro dos Atos dos Apóstolos apresenta Maria reunida em oração com os discípulos após a Ascensão de Jesus.
Enquanto aguardavam a vinda do Espírito Santo, os apóstolos permaneceram unidos. No meio deles estava a Mãe de Jesus, como presença de fé, esperança e comunhão.
Maria tornou-se um vínculo entre os discípulos e o Cristo ressuscitado. Aquela que havia sido coberta pela sombra do Espírito Santo na Anunciação estava novamente presente quando o mesmo Espírito desceu sobre a Igreja em Pentecostes.
Sua presença materna acompanhou a comunidade cristã nascente. Por isso, a Igreja também a invoca como Mãe da Igreja, reconhecendo que sua missão espiritual continua junto aos discípulos de seu Filho.
SINAL DE CONSOLAÇÃO E ESPERANÇA
Nossa Senhora Rainha resplandece na vida da Igreja como sinal de consolação e esperança segura.
Sua glorificação mostra aos cristãos aquilo que Deus deseja realizar em todos aqueles que permanecem fiéis. Maria já participa plenamente da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte.
Pelo Batismo, os cristãos também recebem uma dignidade real. São chamados a participar da realeza de Cristo, vivendo não como dominadores, mas como servidores do Reino de Deus.
Contemplar Maria coroada no Céu significa recordar que a última palavra não pertence ao sofrimento, ao pecado ou à morte. A última palavra pertence a Deus.
A humilde jovem de Nazaré, que confiou plenamente na promessa divina, foi elevada à glória. Sua vida anuncia que Deus exalta os pequenos, acolhe os humildes e cumpre suas promessas.
A INSTITUIÇÃO DA FESTA
A festa litúrgica de Nossa Senhora Rainha foi instituída pelo papa Pio XII em 1954, por meio da encíclica Ad Caeli Reginam. A primeira celebração ocorreu em 1955.
Inicialmente, a festa era comemorada em 31 de maio, encerrando o mês tradicionalmente dedicado a Nossa Senhora. Na época, o dia 22 de agosto era reservado à celebração do Imaculado Coração de Maria.
Com a reforma do calendário litúrgico, em 1969, durante o pontificado de São Paulo VI, as datas foram reorganizadas. A memória de Nossa Senhora Rainha passou a ser celebrada em 22 de agosto, enquanto a festa do Imaculado Coração de Maria foi colocada no sábado seguinte à Solenidade do Sagrado Coração de Jesus.
A mudança aproximou a realeza de Maria da celebração de sua Assunção. O intervalo de oito dias ressalta a união entre os dois mistérios: aquela que foi elevada de corpo e alma ao Céu é contemplada coroada como Rainha.
A RAINHA QUE CONDUZ A CRISTO
Invocar Maria como Rainha é reconhecer a grande obra realizada por Deus em sua vida. É também pedir sua intercessão e aprender com seu exemplo de fé.
Maria reina como Mãe. Sua autoridade é materna, sua presença é consoladora e sua missão é conduzir os filhos ao encontro com Jesus.
Diante de um mundo marcado por conflitos, incertezas e afastamento de Deus, Nossa Senhora Rainha continua sendo um sinal de esperança. Sua vida mostra que a obediência ao Senhor não diminui a liberdade humana, mas conduz à verdadeira plenitude.
A celebração de 22 de agosto convida cada cristão a renovar a confiança na intercessão da Virgem Maria e a permitir que Cristo reine em sua vida, em sua família e em toda a sociedade.
Nossa Senhora Rainha, rogai por nós!
Reportagem: Marcelo Rodrigues
Presidente do RCNEWS e pesquisador da Vida dos Santos


