Defesa de ivermectina e cloroquina colocou Bolsonaro no centro de uma forte controvérsia, mas evidências científicas posteriores não confirmaram a eficácia dos medicamentos contra a Covid-19
A utilização da ivermectina, da cloroquina e da hidroxicloroquina contra a Covid-19 tornou-se um dos assuntos mais controversos da pandemia. No Brasil, o debate ultrapassou os limites da medicina e passou a integrar uma intensa disputa política envolvendo o então presidente Jair Messias Bolsonaro, autoridades sanitárias, pesquisadores e integrantes da oposição.
Bolsonaro defendeu publicamente o chamado tratamento precoce e sustentou que médicos deveriam ter autonomia para prescrever medicamentos já disponíveis no mercado. A posição provocou duras críticas e contribuiu para que adversários políticos o acusassem de promover uma política considerada irresponsável diante da crise sanitária.
O ex-presidente chegou a ser chamado de “genocida” por opositores e manifestantes. Entretanto, essa classificação representou uma acusação política e não uma condenação judicial. Além disso, as críticas dirigidas ao governo não se limitaram à defesa da cloroquina e da ivermectina: também envolveram a compra de vacinas, o uso de máscaras, as medidas de distanciamento, declarações públicas e a condução geral da pandemia.
Nos primeiros meses da emergência sanitária, estudos laboratoriais, pesquisas observacionais e pequenos ensaios levantaram a possibilidade de que medicamentos já conhecidos pudessem atuar contra o coronavírus. Alguns trabalhos chegaram a apontar resultados favoráveis à ivermectina, alimentando a expectativa de uma alternativa barata e de fácil acesso.
Todavia, resultados laboratoriais ou observacionais não são suficientes para comprovar que um medicamento funciona no organismo humano. Ensaios clínicos maiores, controlados e randomizados, publicados posteriormente, não encontraram redução consistente de internações, agravamento ou mortes entre pacientes tratados com ivermectina.
Um ensaio publicado no New England Journal of Medicine concluiu que a ivermectina não reduziu de forma significativa as internações ou a permanência prolongada em unidades de emergência. Outro estudo, conduzido pela plataforma norte-americana ACTIV-6, também não identificou benefício clínico relevante para pacientes com quadros leves ou moderados.
Em relação à cloroquina e à hidroxicloroquina, a agência reguladora dos Estados Unidos, a FDA, revogou ainda em junho de 2020 a autorização emergencial concedida anteriormente. Segundo a instituição, os dados disponíveis indicaram que os medicamentos provavelmente não seriam eficazes contra a Covid-19 e poderiam causar problemas cardíacos e outros efeitos adversos.
A Organização Mundial da Saúde passou a recomendar que a ivermectina fosse utilizada contra a Covid-19 somente em pesquisas clínicas e adotou uma recomendação contrária ao emprego da hidroxicloroquina no tratamento da doença. Uma revisão da Cochrane, organização internacional especializada na avaliação de evidências médicas, também não encontrou comprovação suficiente para sustentar o uso da ivermectina na prevenção ou no tratamento da infecção.
Isso não significa que todos os questionamentos feitos durante a pandemia fossem ilegítimos ou que o debate científico devesse ter sido censurado. A ciência trabalha com hipóteses, testes, revisões e mudanças de orientação conforme novos dados aparecem. Médicos, pesquisadores e autoridades tinham o direito de discutir possíveis tratamentos, especialmente no início de uma doença até então desconhecida.
Também é legítimo analisar criticamente se decisões sanitárias foram influenciadas por interesses políticos, econômicos ou ideológicos. A polarização criou um ambiente no qual dúvidas técnicas eram frequentemente interpretadas como posicionamentos partidários. Ao mesmo tempo, discordâncias políticas não substituem os ensaios clínicos necessários para demonstrar a eficácia de um medicamento.
O episódio mostra que houve uma profunda politização da saúde pública brasileira. Bolsonaro foi alvo de acusações severas, algumas formuladas no terreno do confronto político. Contudo, essa constatação não permite afirmar que a eficácia da ivermectina e da cloroquina tenha sido posteriormente comprovada.
Passados os anos mais críticos da pandemia, o conjunto das evidências científicas de melhor qualidade continua sem recomendar esses medicamentos especificamente contra a Covid-19. A revisão histórica daquele período deve distinguir críticas políticas, responsabilidades administrativas e conclusões médicas, evitando tanto a perseguição ideológica quanto a transformação de resultados preliminares em verdades científicas definitivas.
Reportagem: Marcelo Rodrigues — Rede Católica News


