Documento afirma que relator demonstrou maior disposição para avançar sobre Alexandre de Moraes, mas adotou postura diferente diante de informações envolvendo Toffoli e Kassio Nunes Marques
Um relatório interno de inteligência da Polícia Federal levantou questionamentos sobre a atuação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, na condução das investigações relacionadas ao Banco Master e às fraudes envolvendo descontos de aposentados e pensionistas do INSS.
De acordo com o documento, Mendonça teria demonstrado maior disposição para permitir o avanço de uma investigação envolvendo o ministro Alexandre de Moraes. A postura seria diferente daquela adotada diante de informações relacionadas aos ministros Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques.
O relatório também cita Gilmar Mendes e Luiz Fux ao abordar uma suposta diferença de tratamento entre integrantes do Supremo. Entretanto, as referências mais detalhadas do documento concentram-se em Moraes, Toffoli e Nunes Marques.
DOCUMENTO NÃO POSSUI VALOR PROBATÓRIO
O material exige cautela. O próprio relatório afirma que suas análises possuem baixo grau de confiança e não devem ser utilizadas como prova ou como fundamento isolado para medidas formais.
O documento não corresponde a um laudo pericial nem a um relatório conclusivo de investigação. Trata-se de uma análise interna destinada a levantar cenários, riscos e hipóteses sobre a condução dos procedimentos.
Segundo a própria Polícia Federal, determinadas avaliações apresentadas no material não possuem comparação documental suficiente para sustentar conclusões definitivas.
Por esse motivo, não é possível afirmar como fato comprovado que André Mendonça tenha favorecido ou protegido qualquer ministro. O relatório registra percepções de integrantes da PF que ainda precisariam ser demonstradas por elementos concretos.
INTERESSE EM APURAÇÃO SOBRE MORAES
Segundo a análise interna, Mendonça teria pedido mais de uma vez que investigadores encaminhassem uma provocação formal que permitisse o avanço de uma apuração envolvendo Alexandre de Moraes.
“O discurso do relator denota interesse no início de investigação formal quanto a ele, tendo solicitado mais de uma vez que a equipe de investigação encaminhasse alguma provocação a ele nesse sentido”, registra o documento.
O relatório também afirma que, durante reuniões anteriores, Mendonça teria perguntado especificamente sobre informações relacionadas a Moraes encontradas no celular do banqueiro Daniel Vorcaro.
Posteriormente, o ministro determinou diligências que resultaram na elaboração de um relatório contendo mensagens enviadas por Vorcaro a um número atribuído a Alexandre de Moraes.
As mensagens levantaram questionamentos sobre possíveis pedidos de ajuda do banqueiro a autoridades públicas. Moraes e sua família negam irregularidades relacionadas ao Banco Master.
POSTURA DIFERENTE EM RELAÇÃO A TOFFOLI
Ao analisar o comportamento de Mendonça diante de Dias Toffoli, o relatório da PF sustenta que o atual relator teria adotado uma posição mais cautelosa.
Segundo o documento, teria ocorrido uma “contemporização” diante de informações anteriormente encaminhadas ao Supremo pela Polícia Federal.
Toffoli foi o primeiro relator das investigações do Banco Master no STF, mas deixou a função em fevereiro de 2026. Após sua saída, André Mendonça foi sorteado para assumir a relatoria.
O nome de Toffoli apareceu no caso em razão de vínculos comerciais envolvendo uma empresa da qual ele integra o quadro societário e um fundo administrado pela Reag, instituição relacionada ao universo de negócios investigado.
As circunstâncias envolvendo Toffoli foram objeto de questionamentos, mas não autorizam, isoladamente, a conclusão de que o ministro tenha cometido algum crime.
DEFESA DE KASSIO NUNES MARQUES
O relatório também afirma que Mendonça teria apresentado uma postura defensiva diante de informações relacionadas ao ministro Kassio Nunes Marques.
Em uma das situações mencionadas, Mendonça teria alertado investigadores de que acusações divulgadas pela imprensa contra Nunes Marques poderiam fazer parte de uma estratégia destinada a atingir ou enfraquecer o próprio relator.
Na avaliação registrada no documento, essa posição contrastaria com o interesse demonstrado em relação a Alexandre de Moraes.
A própria análise, porém, reconhece que essa hipótese possui baixo grau de confiança e não está apoiada em uma comparação documental completa.
LUIZ FUX TAMBÉM É MENCIONADO
Luiz Fux aparece no relatório entre os ministros que, segundo a análise da PF, não teriam recebido o mesmo tratamento destinado a Moraes.
O documento, entretanto, não apresenta contra Fux uma descrição tão detalhada quanto as referências a Toffoli e Nunes Marques. Sua inclusão ocorre no contexto mais amplo da alegação de que Mendonça teria adotado comportamentos diferentes diante de autoridades em situações consideradas semelhantes pelos autores do relatório.
Assim como nos demais casos, a simples menção do nome de Fux não representa acusação formal nem comprovação de favorecimento.
REAÇÃO DE ALEXANDRE DE MORAES
O relatório foi utilizado por Alexandre de Moraes para questionar a conduta de André Mendonça.
Moraes encaminhou o material ao presidente do STF, Edson Fachin, acompanhado de um pedido para que possíveis irregularidades atribuídas ao relator do caso Master fossem analisadas.
Entre os questionamentos está a alegação de que Mendonça teria ultrapassado os limites da supervisão judicial e assumido funções próprias da investigação, interferindo na gestão das equipes da Polícia Federal e acessando diretamente materiais probatórios.
A utilização do documento provocou controvérsia, justamente porque a própria PF o classificou como material sem valor probatório e baseado, em alguns pontos, em hipóteses de baixa confiança.
CRISE SERÁ ANALISADA POR FACHIN
O caso está agora sob a condução do presidente do Supremo, Edson Fachin.
Fachin determinou que os documentos e as acusações envolvendo André Mendonça fossem retirados do inquérito das fake news, relatado por Alexandre de Moraes, e transferidos para um procedimento separado.
Também caberá ao presidente da Corte decidir sobre o encaminhamento do relatório produzido por ordem de Mendonça com as mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e Moraes.
A controvérsia expõe uma crise interna sem precedentes recentes no Supremo. De um lado, existem questionamentos sobre as relações de Moraes com pessoas envolvidas no caso Banco Master. Do outro, surgem acusações de que Mendonça teria conduzido as investigações de maneira seletiva.
NECESSIDADE DE TRANSPARÊNCIA
As acusações são graves e precisam ser analisadas com transparência, respeito ao devido processo legal e igualdade de tratamento entre todas as autoridades mencionadas.
O relatório interno da Polícia Federal não pode ser tratado como prova conclusiva contra André Mendonça. Ao mesmo tempo, os questionamentos apresentados não devem ser simplesmente ignorados.
Será necessário verificar se as decisões tomadas pelo relator tiveram fundamentos jurídicos e probatórios diferentes ou se realmente ocorreu uma postura desigual diante de autoridades em condições semelhantes.
A sociedade precisa saber por que algumas linhas de investigação avançaram mais rapidamente, enquanto outras receberam tratamento diferente. Essa explicação deve ocorrer por meio dos documentos oficiais, das decisões fundamentadas e da análise colegiada do Supremo.
Em uma crise que atinge diretamente a credibilidade da mais alta Corte do país, todos os envolvidos devem ter direito de defesa, mas nenhum nome pode permanecer acima da fiscalização e da lei.
Reportagem: Marcelo Rodrigues
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