Produtora de “Dark Horse” afirma ter sido procurada por interlocutores interessados em uma colaboração premiada; citados negam envolvimento
Um documento apreendido pela Polícia Federal durante uma operação contra a empresária Karina Ferreira da Gama, responsável pela produtora do filme “Dark Horse”, registra alegações de que ela teria sofrido pressões para realizar uma delação premiada envolvendo Flávio Bolsonaro (PL).
A declaração havia sido registrada em cartório antes da operação e foi encontrada pelos investigadores durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão na residência da empresária, em São Paulo.
No documento, Karina relata ter sido procurada por diferentes pessoas que teriam sugerido a celebração de um acordo de colaboração. Segundo a empresária, uma das abordagens teria partido de Fernando Sarney, filho do ex-presidente José Sarney.
Karina afirma que Fernando Sarney ofereceu apoio jurídico, declarou possuir proximidade com o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), e disse que poderia ajudá-la caso tivesse interesse em realizar uma delação premiada.
A empresária, entretanto, ressalta no próprio documento que não presenciou qualquer conversa entre Sarney e Dino e que não possui elementos capazes de demonstrar que o ministro tivesse conhecimento ou participação na suposta abordagem.
Fernando Sarney negou as declarações. Ele afirmou não conhecer Karina Gama e declarou jamais ter mantido contato com ela ou com terceiros para tratar de uma possível delação relacionada à produção cinematográfica.
Karina também relata ter sido procurada por um pastor, descrito como amigo de longa data, que teria mencionado proximidade com integrantes do governo federal e ministros do STF. Conforme a versão apresentada pela produtora, o religioso teria sugerido que uma colaboração premiada poderia evitar que ela enfrentasse complicações ou fosse alvo de uma operação policial.
Outro contato registrado no documento envolve um jornalista da revista Piauí. De acordo com Karina, ele teria afirmado que a empresária estaria servindo de “bucha de canhão para o candidato”, numa aparente referência a Flávio Bolsonaro. A revista informou à CNN que não comentaria o episódio.
A produtora declarou que não tem informações comprometedoras para apresentar contra o candidato e afirmou que pretende demonstrar, por intermédio de sua defesa, a regularidade da produção do filme.
“Minha posição sempre foi a de esclarecer os fatos mediante a apresentação dos documentos pertinentes e o regular exercício do direito de defesa”, afirmou Karina no documento.
O registro não comprova que as pressões tenham efetivamente ocorrido. Trata-se da versão formalizada pela empresária, que deverá ser confrontada com depoimentos, registros de ligações, mensagens e outros elementos eventualmente reunidos durante a investigação.
O caso ganhou repercussão política porque Flávio Dino autorizou medidas da operação da PF que apura suspeitas relacionadas ao emprego de recursos provenientes de emendas parlamentares. Entre as determinações estavam buscas e apreensões, restrições contra investigados e a suspensão temporária do direito de algumas empresas participarem de licitações.
A coincidência entre a menção ao nome do ministro e sua atuação judicial no caso provocou questionamentos entre aliados de Flávio Bolsonaro. Até o momento, porém, não foi apresentada evidência de que Dino tenha participado, autorizado ou tomado conhecimento das alegadas abordagens.
A apreensão do documento confirma que Karina registrou previamente seu relato em cartório, mas não representa, isoladamente, uma comprovação das acusações nele descritas. Caberá às autoridades esclarecer as circunstâncias dos contatos e verificar se houve tentativa irregular de interferência na investigação.
O episódio também passou a ser utilizado politicamente por apoiadores de Flávio Bolsonaro, que sustentam que as investigações procuram encontrar irregularidades contra o candidato. Paralelamente, a PF continua apurando o financiamento e as despesas de “Dark Horse”, produção cinematográfica inspirada na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Fontes: “CNN Brasil” (https://www.cnnbrasil.com.br/blogs/caio-junqueira/politica/dark-horse-cnn-obtem-documento-em-que-produtora-relata-pressao-por-delacao/) e “Veja” (https://veja.abril.com.br/brasil/pf-acha-documento-em-que-produtora-de-dark-horse-relata-sofrer-pressoes-para-delatar/)
Reportagem: Marcelo Rodrigues
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