TSE RECONHECE COMO FALSA NOTÍCIA SOBRE NOSSA SENHORA APARECIDA APÓS ERRO EXIBIDO PELA GLOBONEWS
Informação antiga foi apresentada como suposta movimentação atual, ganhou contornos eleitorais e alcançou milhões de pessoas; correção da emissora não conseguiu impedir o estrago nas redes sociais
Uma das maiores notícias falsas da reta final da eleição presidencial de 2026 ganhou dimensão nacional ao envolver a fé de milhões de brasileiros e a devoção a Nossa Senhora da Conceição Aparecida, Padroeira do Brasil.
A desinformação afirmava que o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), integrantes de sua família ou grupos evangélicos ligados à sua campanha estariam articulando a retirada do título de Padroeira do Brasil concedido a Nossa Senhora Aparecida.
A acusação não estava sustentada por qualquer projeto atual, declaração pública ou iniciativa de Flávio Bolsonaro. Mesmo assim, espalhou-se rapidamente pelas redes sociais e passou a ser explorada no confronto eleitoral.
A origem da nova onda de publicações ocorreu depois de um comentário apresentado no programa Em Pauta, da GloboNews. Na ocasião, a jornalista Maria Cristina Fernandes mencionou uma suposta reação de setores da Igreja Católica a grupos evangélicos que estariam mobilizando um projeto para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
A comentarista também avaliou que essa movimentação poderia beneficiar eleitoralmente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva entre os católicos.
O PROJETO ERA DE 2007 E ESTAVA ARQUIVADO
A informação apresentada pela GloboNews omitiu inicialmente um elemento fundamental: o projeto mencionado não era atual.
Tratava-se do Projeto de Lei 2.623, apresentado em dezembro de 2007 pelo então deputado federal Victório Galli. O texto pretendia substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.
A proposta foi rejeitada e arquivada pela Câmara dos Deputados em agosto de 2008. Portanto, não existia qualquer projeto em tramitação que ameaçasse atualmente o título de Nossa Senhora Aparecida.
Flávio Bolsonaro também não ocupava mandato no Congresso Nacional naquela época. Em 2007, ele exercia o cargo de deputado estadual no Rio de Janeiro e não teve participação na apresentação ou tramitação da proposta.
Apesar disso, recortes, comentários e publicações passaram a atribuir ao candidato presidencial uma suposta intenção de retirar o título da Padroeira do Brasil.
GLOBONEWS RECONHECEU O ERRO E PEDIU DESCULPAS
Horas depois da repercussão, a GloboNews apresentou uma correção durante a programação da madrugada.
A emissora esclareceu que a proposta havia sido apresentada em dezembro de 2007 e arquivada pela Mesa Diretora da Câmara em agosto de 2008. O canal encerrou a manifestação com um pedido público de desculpas pelo erro.
A correção, contudo, teve alcance inferior ao conteúdo original e às publicações derivadas dele. Quando o esclarecimento foi exibido, a informação falsa já circulava em páginas políticas, perfis eleitorais, grupos de mensagens e redes sociais.
O episódio demonstra uma das características mais perigosas da desinformação: a mentira ou informação incompleta se espalha rapidamente, enquanto a correção dificilmente consegue alcançar todas as pessoas impactadas pelo conteúdo original.
A retratação da emissora foi necessária e correta, mas não foi suficiente para desfazer imediatamente o dano político, religioso e moral causado.
TSE CLASSIFICA ACUSAÇÃO COMO “NOTORIAMENTE INVERÍDICA”
Diante da repercussão, a campanha de Flávio Bolsonaro acionou a Justiça Eleitoral.
Na sexta-feira, 25 de setembro, o ministro André Mendonça, do Tribunal Superior Eleitoral, determinou que Facebook, Instagram, TikTok, YouTube e X retirassem publicações que apresentassem como verdadeira a afirmação de que Flávio Bolsonaro ou sua família pretendiam retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
Na decisão, Mendonça classificou a acusação como “notoriamente inverídica”.
A ordem alcançou aproximadamente 1.170 links e estabeleceu multa diária de R$ 50 mil por plataforma em caso de descumprimento. Os provedores também foram orientados a atuar preventivamente contra novas publicações que repetissem a mesma informação falsa.
Embora André Mendonça também seja ministro do Supremo Tribunal Federal, a decisão foi tomada no exercício de sua função no Tribunal Superior Eleitoral — TSE. Portanto, juridicamente, foi a Justiça Eleitoral, e não o STF, que reconheceu a falsidade da acusação e determinou a remoção dos conteúdos.
MILHÕES DE VISUALIZAÇÕES E UM ESTRAGO DIFÍCIL DE REPARAR
Segundo os números apresentados pela defesa do candidato, mais de duas mil publicações relacionadas ao boato teriam acumulado milhões de visualizações.
A campanha afirmou que a notícia falsa teria alcançado mais de cinco milhões de visualizações em menos de 48 horas. Outro levantamento apresentado no processo apontou mais de 21 milhões de visualizações em publicações relacionadas ao assunto.
Os números foram apresentados pela defesa e demonstram a dimensão alcançada pela narrativa em plena reta final da eleição.
A associação de um candidato com uma suposta ameaça a Nossa Senhora Aparecida possui enorme capacidade de influenciar o eleitorado católico. A devoção à Padroeira do Brasil ultrapassa diferenças partidárias e está profundamente ligada à história, à cultura e à identidade religiosa do povo brasileiro.
Utilizar essa devoção como instrumento de disputa eleitoral, especialmente por meio de uma informação falsa, representa uma grave agressão à boa-fé dos fiéis.
QUANDO A CORREÇÃO CHEGA DEPOIS DO ESTRAGO
O caso levanta um debate necessário sobre a responsabilidade dos grandes veículos de comunicação.
Uma informação apresentada em uma emissora de alcance nacional recebe aparência de credibilidade e pode ser reproduzida imediatamente por milhares de pessoas. Mesmo que o veículo faça uma correção posterior, o conteúdo original pode continuar circulando sem o esclarecimento.
A responsabilidade jornalística exige apuração prévia, contextualização histórica e cuidado redobrado quando a notícia envolve religião e eleições.
O problema não foi mencionar a existência de um antigo projeto. A proposta realmente existiu. O erro foi apresentá-la como se houvesse uma articulação atual, sem esclarecer que o texto havia sido rejeitado e arquivado há 18 anos e sem demonstrar qualquer ligação de Flávio Bolsonaro com a iniciativa.
A partir dessa informação incompleta, as redes sociais construíram uma acusação ainda mais grave: a de que o candidato estaria pessoalmente comprometido com a retirada do título de Nossa Senhora Aparecida.
A VERDADE FOI RECONHECIDA, MAS O DANO PERMANECE
A decisão do TSE reconhece oficialmente que não existe fundamento para afirmar que Flávio Bolsonaro ou sua família pretendam retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil.
A GloboNews reconheceu o erro, apresentou a informação correta e pediu desculpas. As plataformas foram obrigadas a remover as publicações falsas. Entretanto, o estrago político já estava consolidado.
Muitas pessoas que tiveram contato com a primeira versão talvez nunca vejam a retratação da emissora, a documentação da Câmara ou a decisão da Justiça Eleitoral.
Este episódio deixa uma advertência para toda a imprensa: combater a desinformação também significa reconhecer que um erro cometido por um grande veículo pode provocar consequências tão graves quanto uma notícia falsa produzida por perfis anônimos.
Para o Rede Católica News, a verdade não pode ser relativizada conforme interesses eleitorais. Nossa Senhora Aparecida não pertence a um partido, a um candidato ou a uma estratégia de campanha. Ela é Padroeira do Brasil e símbolo da fé de milhões de católicos.
A informação responsável exige compromisso com os fatos, respeito à fé e coragem para corrigir erros — antes que uma mentira repetida milhões de vezes se transforme, para parte da população, em uma falsa verdade.
Reportagem: Marcelo Rodrigues
Rede Católica News — informação com responsabilidade cristã
Fontes: decisão do Tribunal Superior Eleitoral; Câmara dos Deputados; correção pública da GloboNews; informações divulgadas por Folha de S.Paulo, CNN Brasil e UOL — setembro de 2026.


