SÉRIE ESPECIALMARCELO CRIVELLAFÉ, POLÍTICA E ESPERANÇA

Política

EPISÓDIO 1 — DAS MISSÕES À VIDA PÚBLICA: A FORMAÇÃO, A FÉ E O TRABALHO SOCIAL QUE ANTECEDERAM A POLÍTICA

Reportagem: Marcelo Rodrigues

Antes de ocupar uma cadeira no Senado Federal, comandar um ministério, governar a cidade do Rio de Janeiro e chegar à Câmara dos Deputados, Marcelo Crivella percorreu uma trajetória que passou pela engenharia, pela atividade religiosa, pela música e por projetos sociais.

É nesse período anterior à sua primeira eleição que estão algumas das experiências que ajudariam a construir a identidade pública de um dos personagens mais conhecidos — e também mais controversos — da política fluminense nas últimas décadas.

O ENGENHEIRO ANTES DO POLÍTICO

Marcelo Bezerra Crivella nasceu no Rio de Janeiro, em 1957. Sua formação profissional foi na engenharia civil. O cadastro histórico do Senado registra formação superior em Engenharia Civil e pós-graduação na área, além de atividades como professor universitário de Materiais de Construção e diretor de planejamento da Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio de Janeiro.

A engenharia, porém, acabaria dividindo espaço com uma dimensão que se tornaria inseparável de sua imagem pública: a religião.

Crivella tornou-se bispo da Igreja Universal do Reino de Deus e desenvolveu atividade missionária fora do Brasil. Registros do Senado apontam que viveu por anos no continente africano, passando por países como Malawi, Uganda, Moçambique e Madagascar.

A experiência africana ocuparia posteriormente espaço importante em seus discursos e em sua maneira de apresentar questões relacionadas à pobreza e à desigualdade.

A MÚSICA TRANSFORMADA EM INSTRUMENTO SOCIAL

Paralelamente à atuação religiosa, Crivella desenvolveu carreira como cantor e escritor. O currículo arquivado pelo Senado relaciona diversos livros e discos gravados durante os anos 1990 e início dos anos 2000.

Foi justamente a música que se conectou a um dos projetos sociais mais associados à sua trajetória anterior à política: a Fazenda Nova Canaã, em Irecê, no sertão da Bahia.

Em pronunciamento no Senado em 2003, já depois de eleito, Crivella afirmou que recursos provenientes dos direitos autorais e apresentações musicais foram destinados ao projeto. Segundo seu relato, R$ 850 mil recebidos como adiantamento de contrato para o disco “O Mensageiro da Solidariedade” foram integralmente aplicados na implantação do Projeto Nordeste.

NOVA CANAÃ E A OPÇÃO PELO SERTÃO

A Fazenda Nova Canaã nasceu com uma proposta que ultrapassava a simples distribuição emergencial de alimentos.

O projeto pretendia combinar produção agrícola, irrigação, educação e assistência social no semiárido baiano. Em discurso de 2003, Crivella descreveu uma área de aproximadamente 450 hectares em Irecê, com poços artesianos e centenas de quilômetros de mangueiras utilizadas para irrigação por gotejamento.

O modelo tinha inspiração nos kibutzim israelenses e buscava criar condições para que famílias da região produzissem e alcançassem maior autonomia econômica.

Crivella não se limitou a participar à distância. Ele declarou posteriormente no Senado que chegou a morar em Irecê por causa do projeto.

Um dos principais braços da iniciativa foi direcionado às crianças. Em 2003, o senador informou que o Centro Educacional Betel atendia gratuitamente mais de 500 crianças, oferecendo alimentação, uniforme, material escolar, educação, assistência médica e odontológica, transporte e atividades complementares.

Dois anos depois, a Agência Senado registrou que a Fazenda Nova Canaã atendia 540 crianças e publicou reportagem sobre alunos do projeto que visitaram Brasília para disputar uma competição de judô.

A POBREZA PASSA A OCUPAR O CENTRO DO DISCURSO

As experiências na África e no sertão brasileiro apareceriam repetidamente nos pronunciamentos políticos de Crivella.

Em 2005, por exemplo, ele utilizou sua passagem pelo continente africano e sua experiência em Nova Canaã para discutir no Senado a situação de crianças pobres das periferias do Rio. Naquela ocasião, apontou a desigualdade de renda como um dos grandes problemas sociais brasileiros.

Esse elemento ajuda a compreender uma característica que acompanharia sua carreira: a combinação entre discurso religioso, preocupação social e atuação política.

Naturalmente, transformar experiências sociais em políticas públicas envolve desafios muito diferentes daqueles encontrados em projetos privados ou religiosos. E os resultados dos governos e mandatos de Crivella precisam ser analisados separadamente — algo que faremos ao longo desta série.

DAS MISSÕES PARA AS URNAS

A passagem para a política eleitoral ocorreu no início dos anos 2000.

Em 2002, Marcelo Crivella foi eleito senador pelo Rio de Janeiro, iniciando seu primeiro mandato em fevereiro de 2003. Mais tarde seria reeleito, permanecendo no Senado por dois mandatos.

Era uma mudança profunda.

O engenheiro, missionário, bispo, cantor e participante de projetos sociais passava a ocupar uma das mais importantes instituições políticas da República.

Mas sua chegada ao Senado não significaria o abandono das questões que marcaram sua trajetória anterior. Logo nos primeiros meses de mandato, Crivella levou ao plenário a experiência da Fazenda Nova Canaã durante discussões relacionadas ao combate à fome e ao desenvolvimento do Nordeste.

Começava ali uma carreira política que atravessaria diferentes partidos e governos, passaria pelo Ministério da Pesca, pela Prefeitura do Rio e, posteriormente, pela Câmara dos Deputados, onde exerce mandato federal no período 2023–2027.

FÉ, POLÍTICA E ESPERANÇA

Compreender Marcelo Crivella exige olhar para essa etapa anterior às grandes disputas eleitorais.

Muito antes das campanhas para governador e prefeito, das alianças partidárias, das crises administrativas e das batalhas judiciais que marcariam outros momentos de sua vida pública, já estavam presentes três elementos que posteriormente se tornariam recorrentes em sua trajetória: a fé, a preocupação com os mais pobres e a tentativa de transformar projetos sociais em propostas de alcance público.

Se essas experiências foram suficientes para produzir bons resultados quando Crivella passou a exercer o poder político é uma questão diferente — e será examinada nos próximos episódios.

O primeiro capítulo de sua história pública, entretanto, começou longe dos palácios.

Passou pelas missões religiosas na África, pelo sertão de Irecê, pelas crianças atendidas em Nova Canaã e por uma experiência social que antecedeu sua primeira eleição.

Em 2002, esse caminho finalmente chegou às urnas.

NO PRÓXIMO EPISÓDIO:

“A CHEGADA AO SENADO” — a surpreendente eleição de Marcelo Crivella em 2002 e o início de sua trajetória no Congresso Nacional.

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