VIDA DOS SANTOS | 09 DE AGOSTO

Igreja

SANTA EDITH STEIN — SANTA TERESA BENEDITA DA CRUZ

DA BUSCA PELA VERDADE AO MARTÍRIO EM AUSCHWITZ: A FILÓSOFA QUE ENCONTROU CRISTO E ENTREGOU SUA VIDA À CRUZ

Filósofa, carmelita, mártir do nazismo e copadroeira da Europa, Edith Stein transformou sua busca intelectual pela verdade em um profundo caminho de fé e entrega a Deus

Reportagem: Marcelo Rodrigues
Presidente do Rede Católica News e pesquisador da Vida dos Santos

Celebrada pela Igreja Católica em 9 de agosto, Santa Teresa Benedita da Cruz, mundialmente conhecida por seu nome de nascimento, Edith Stein, protagonizou uma das mais impressionantes trajetórias intelectuais e espirituais do século XX.

Nascida em uma família judia, tornou-se filósofa, atravessou um período de afastamento da fé, converteu-se ao catolicismo e ingressou no Carmelo. Durante a perseguição nazista, foi presa e deportada para Auschwitz-Birkenau, onde morreu em 1942.

Décadas depois, São João Paulo II a canonizou e a proclamou uma das copadroeiras da Europa.

UMA INFÂNCIA EM FAMÍLIA JUDAICA

Edith Stein nasceu em 12 de outubro de 1891, em Breslau, então território alemão e atual Wrocław, na Polônia.

Era a caçula de uma numerosa família judia. Seu pai morreu quando Edith ainda era muito pequena, e sua mãe, Auguste Stein, assumiu os negócios da família e a educação dos filhos.

Desde cedo, Edith demonstrou inteligência excepcional, personalidade determinada e grande interesse pelo conhecimento.

Apesar da formação judaica recebida em casa, durante a adolescência passou por uma profunda crise espiritual e abandonou conscientemente a prática religiosa.

Começava uma longa procura pela verdade.

A FILÓSOFA

Sua extraordinária capacidade intelectual levou-a ao estudo da filosofia.

Edith estudou em Breslau e posteriormente aproximou-se do filósofo Edmund Husserl, um dos principais nomes da fenomenologia. Prosseguiu seus estudos acadêmicos e, em 1916, concluiu o doutorado em Filosofia.

Em uma época na qual as mulheres ainda enfrentavam enormes obstáculos dentro das universidades europeias, Edith conquistou reconhecimento por sua capacidade intelectual.

Entretanto, sua busca não se limitava à filosofia.

Por trás da pesquisadora existia uma mulher procurando respostas para questões fundamentais sobre a existência humana, a verdade, o sofrimento e Deus.

O ENCONTRO COM SANTA TERESA D’ÁVILA

Um dos acontecimentos decisivos de sua vida ocorreu em 1921.

Edith teve contato com a autobiografia de Santa Teresa de Jesus, também conhecida como Santa Teresa d’Ávila, a grande reformadora do Carmelo.

A leitura teve profundo impacto sobre ela.

Na experiência espiritual de Teresa d’Ávila, Edith encontrou respostas para uma procura que havia atravessado anos de sua vida.

Sua aproximação com o cristianismo culminou no batismo na Igreja Católica, recebido em 1º de janeiro de 1922.

A decisão provocou sofrimento dentro de sua família, especialmente para sua mãe, profundamente ligada à tradição judaica.

Edith, porém, jamais negou suas origens.

Ao longo de sua caminhada cristã, continuou reconhecendo sua pertença ao povo judeu e, posteriormente, compartilharia tragicamente o destino de milhões de judeus perseguidos pelo nazismo.

CONHECIMENTO A SERVIÇO DE DEUS

Após a conversão, Edith colocou sua formação intelectual a serviço da fé.

Trabalhou como professora, escritora e conferencista, aprofundando temas relacionados à filosofia, à educação, à mulher, à pessoa humana e à espiritualidade cristã.

Sua produção buscava estabelecer um diálogo entre a fenomenologia e a tradição filosófica cristã.

Mas a Alemanha começava a atravessar um dos períodos mais sombrios de sua história.

HITLER CHEGA AO PODER

Em 1933, Adolf Hitler e o Partido Nazista chegaram ao poder.

A perseguição contra os judeus rapidamente passou a fazer parte da estrutura do novo regime.

Por causa de sua origem judaica, Edith Stein foi atingida pelas políticas discriminatórias impostas pelo nazismo.

Naquele mesmo ano, realizou um desejo espiritual que cultivava havia algum tempo: ingressou no Carmelo de Colônia.

Em 1934, recebeu o hábito carmelita e adotou o nome religioso de Teresa Benedita da Cruz.

O nome parecia antecipar aquilo que se transformaria no grande símbolo de sua existência: a Cruz de Cristo.

TERESA BENEDITA DA CRUZ

Dentro do Carmelo, Edith não abandonou a atividade intelectual.

Continuou escrevendo e aprofundando sua reflexão filosófica e teológica enquanto vivia uma rotina marcada pela oração, pelo silêncio e pela contemplação.

Em 1938, realizou sua profissão solene.

Naquele mesmo período, a violência contra os judeus na Alemanha atingia níveis cada vez mais graves.

Para tentar protegê-la, seus superiores decidiram transferi-la para o Carmelo de Echt, na Holanda.

Posteriormente, sua irmã Rosa, que também havia se convertido ao catolicismo, juntou-se a ela.

Mas nem mesmo a Holanda permaneceria segura.

A PERSEGUIÇÃO CHEGA AO CARMELO

Com a expansão da Segunda Guerra Mundial, as forças nazistas ocuparam a Holanda.

A perseguição aos judeus alcançou também aqueles que haviam se convertido ao cristianismo.

Em julho de 1942, os bispos católicos holandeses protestaram publicamente contra as deportações e perseguições promovidas pelos nazistas.

A reação do regime foi brutal.

Como represália, autoridades nazistas determinaram a prisão de judeus convertidos ao catolicismo.

Em 2 de agosto de 1942, Edith Stein e sua irmã Rosa foram retiradas do Carmelo de Echt.

Começava o caminho final para o martírio.

“VENHA, VAMOS PELO NOSSO POVO”

A tradição biográfica registra uma frase atribuída a Edith quando ela e Rosa foram levadas pelos nazistas:

“Venha, vamos pelo nosso povo.”

As duas foram inicialmente conduzidas ao campo de Westerbork, na Holanda.

Testemunhos posteriores recordariam a serenidade da religiosa naquele ambiente de medo e sofrimento.

Em meio ao desespero dos prisioneiros, Edith procurava consolar os aflitos e auxiliar especialmente mulheres e crianças.

A filósofa que durante tantos anos procurara compreender intelectualmente a pessoa humana agora enfrentava uma realidade em que a dignidade humana era brutalmente destruída.

O CAMINHO PARA AUSCHWITZ

Em 7 de agosto de 1942, Edith, Rosa e centenas de outros prisioneiros foram colocados em um trem com destino ao complexo de Auschwitz-Birkenau, na Polônia ocupada.

Dois dias depois, em 9 de agosto de 1942, Edith Stein e sua irmã foram assassinadas em uma câmara de gás.

Seus corpos foram cremados.

Edith tinha 50 anos.

A perseguição nazista encerrava sua existência terrena, mas não conseguiria apagar seu pensamento, sua fé e seu testemunho.

CANONIZAÇÃO

Mais de cinco décadas depois de sua morte, a Igreja reconheceu solenemente sua santidade.

Em 11 de outubro de 1998, o Papa São João Paulo II canonizou Teresa Benedita da Cruz, apresentando-a à Igreja como santa e mártir.

No ano seguinte, João Paulo II proclamou Santa Teresa Benedita da Cruz copadroeira da Europa, juntamente com Santa Brígida da Suécia e Santa Catarina de Sena, que se juntaram aos três patronos europeus já proclamados: São Bento, São Cirilo e São Metódio.

A decisão conferiu ao testemunho de Edith Stein um significado ainda maior para um continente profundamente marcado pelas guerras, pelo totalitarismo e pelo Holocausto.

UMA VIDA DEDICADA À VERDADE

A trajetória de Santa Edith Stein atravessou algumas das maiores questões do século XX: fé e razão, identidade, dignidade humana, liberdade religiosa, perseguição e totalitarismo.

Judia de nascimento, filósofa por vocação intelectual, católica por conversão e carmelita por chamado religioso, morreu vítima do regime que pretendia exterminar o povo ao qual pertencia.

Sua história tornou-se também um testemunho contra o antissemitismo, o racismo e qualquer ideologia que negue a dignidade da pessoa humana.

A mulher que passou grande parte da vida procurando a verdade encontrou na fé cristã o sentido definitivo dessa busca e permaneceu fiel até o martírio.

ORAÇÃO A SANTA TERESA BENEDITA DA CRUZ

“Ó Santa Teresa Benedita da Cruz, ajuda-me a ter um encontro verdadeiro com Jesus, a fim de morrer para as coisas deste mundo e viver apenas para Ele. Santa Edith Stein, interceda por mim a Deus Pai, para que logo estejamos todos juntos no paraíso. Amém.”

Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), rogai por nós!

VIDA DOS SANTOS
09 DE AGOSTO

SANTA TERESA BENEDITA DA CRUZ
EDITH STEIN
1891–1942

Filósofa | Carmelita | Mártir | Copadroeira da Europa

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