A classe artística, historicamente associada à contestação do poder, precisa explicar por que parte de suas vozes se torna seletiva diante dos governos que financiam seus projetos
O Brasil atravessa uma profunda crise moral. Escândalos, suspeitas de corrupção, desperdício de recursos públicos e serviços essenciais precários convivem diariamente com uma população que enfrenta hospitais sem estrutura, escolas abandonadas, violência e falta de oportunidades.
Diante desse cenário, chama atenção o silêncio de parte da classe artística. O mesmo setor que historicamente se apresentou como uma força de protesto, resistência e defesa da população parece, em determinados momentos, abandonar a postura crítica quando seus interesses financeiros se aproximam do poder público.
A arte sempre exerceu uma função social indispensável. Por meio da música, do cinema, do teatro, da literatura e das manifestações populares, artistas denunciaram injustiças, questionaram governos e deram voz às pessoas esquecidas.
Entretanto, essa credibilidade é enfraquecida quando a indignação se torna seletiva.
O SILÊNCIO QUE COINCIDE COM O FINANCIAMENTO
Governos de diferentes orientações políticas destinam milhões de reais à contratação de shows, produção de filmes, festivais, apresentações teatrais e outros projetos culturais. O investimento público em cultura é legítimo e necessário, desde que seja realizado com transparência, critérios técnicos e igualdade de oportunidades.
O problema começa quando a proximidade financeira entre artistas e governantes parece produzir constrangimento, dependência ou silêncio.
Não se pode afirmar, sem provas, que toda contratação pública tenha como finalidade comprar apoio político. Também seria injusto acusar todos os artistas de agir da mesma maneira. Existem profissionais independentes, coerentes e dispostos a criticar qualquer governo.
Contudo, a sociedade tem o direito de questionar quando figuras públicas que antes protestavam intensamente deixam de se manifestar justamente no momento em que passam a receber recursos, contratos ou incentivos provenientes do Estado.
Quando o dinheiro público entra pela porta e a consciência crítica sai pela janela, a arte deixa de fiscalizar o poder e corre o risco de se transformar em instrumento de propaganda.
INDIGNAÇÃO NÃO PODE TER PARTIDO
Corrupção não possui ideologia. O desvio de recursos públicos produz sofrimento independentemente da legenda de quem governa.
O dinheiro retirado da saúde pode representar uma cirurgia que não será realizada. A verba desviada da educação pode significar uma criança sem merenda ou uma escola sem estrutura. Recursos perdidos em fraudes poderiam financiar segurança, saneamento e políticas de assistência às famílias mais vulneráveis.
Por isso, artistas que se apresentam como defensores da população não podem selecionar quais escândalos merecem indignação conforme a identidade política dos envolvidos.
A coerência exige que a mesma voz utilizada para denunciar um governo também seja levantada contra os erros cometidos por seus aliados. Caso contrário, o protesto perde sua autenticidade e passa a parecer apenas militância partidária.
CULTURA PRECISA DE APOIO, NÃO DE SUBMISSÃO
Defender a cultura não significa entregar cheques em branco a artistas, produtoras ou empresas do setor. Todo recurso público deve estar sujeito à fiscalização, à prestação de contas e à divulgação acessível dos beneficiários.
A população precisa saber quanto foi destinado a cada projeto, quais critérios determinaram a escolha, quais resultados foram alcançados e quem efetivamente recebeu o dinheiro.
O financiamento cultural deve promover diversidade, preservar a memória, valorizar artistas locais e ampliar o acesso da população à arte. Não pode servir como mecanismo de favorecimento político, recompensa ideológica ou construção de uma rede de apoiadores silenciosos.
Artistas possuem o direito de apoiar partidos, candidatos e governos. O que não podem fazer é apresentar seus posicionamentos como defesa universal da democracia enquanto ignoram irregularidades praticadas pelo grupo político com o qual se identificam.
NEM TODOS PODEM SER COLOCADOS NO MESMO GRUPO
Uma crítica responsável não pode transformar toda a classe artística em culpada. Muitos profissionais sobrevivem com dificuldade, trabalham sem patrocínio estatal e continuam denunciando injustiças independentemente de quem esteja no poder.
A cobrança deve recair principalmente sobre aqueles que construíram suas imagens públicas como símbolos de resistência, mas demonstram silêncio diante dos erros cometidos por governos próximos de suas preferências.
Também deve alcançar gestores que utilizam eventos culturais sem planejamento, pagam cachês elevados sem justificativa clara ou destinam recursos a projetos escolhidos por critérios pouco transparentes.
A responsabilidade, portanto, não é apenas do artista. Ela também pertence aos agentes públicos que administram o dinheiro da sociedade.
A ARTE NÃO PODE SE TORNAR REFÉM DO PODER
Uma sociedade democrática precisa de artistas livres. Livres para criar, questionar, incomodar e denunciar.
Quando a arte se torna dependente do governante, perde parte de sua capacidade de confrontá-lo. Quando o artista teme perder contratos por criticar o poder, a liberdade de expressão passa a existir apenas formalmente.
O verdadeiro compromisso de quem afirma defender a população deve estar acima de partidos, ideologias e benefícios financeiros. A coerência não pode ser negociada, e a indignação não pode depender de quem ocupa o Palácio do Planalto, os governos estaduais ou as prefeituras.
O Brasil precisa de uma classe artística que volte a olhar para o sofrimento real da população. Uma classe que fiscalize o poder, questione os privilégios e se manifeste contra a corrupção, ainda que isso lhe custe contratos, convites ou patrocínios.
A arte que se curva ao dinheiro público deixa de ser resistência. Torna-se parte do sistema que deveria questionar.
Editorial: Marcelo Rodrigues
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