Segundo reportagem, ministro teria manifestado a Edson Fachin desconfiança sobre a atuação de Andrei Rodrigues; crise com Alexandre de Moraes teria sido decisiva para a medida
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), já considerava havia aproximadamente um mês afastar Andrei Rodrigues do comando da Polícia Federal. Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo, o agravamento da crise envolvendo o ministro Alexandre de Moraes teria sido o fator decisivo para que Mendonça avançasse com a medida.
No início de agosto, durante uma conversa reservada, Mendonça teria sinalizado ao presidente do STF, Edson Fachin, que uma decisão drástica poderia ser necessária. De acordo com a reportagem, o ministro suspeitava que Andrei estivesse conduzindo a Polícia Federal com viés político e tentando proteger a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A suspeita é uma avaliação atribuída a Mendonça por fontes de bastidores e não representa uma conclusão judicial ou um fato comprovado.
DESCONFIANÇA ENTRE MENDONÇA E ANDREI
Ainda segundo a Folha, a desconfiança entre o ministro e o diretor-geral da PF seria recíproca.
Andrei Rodrigues também teria procurado Fachin e demonstrado preocupação com a maneira pela qual Mendonça conduzia investigações relacionadas ao Banco Master e às fraudes envolvendo benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
O diretor-geral suspeitaria que determinadas medidas poderiam atingir pessoas ligadas à esquerda e, paralelamente, reduzir a pressão sobre aliados do senador Flávio Bolsonaro.
Esses relatos igualmente representam avaliações atribuídas a interlocutores e não acusações formalmente comprovadas.
FACHIN TENTOU MEDIAR O CONFLITO
Diante da escalada das divergências, Edson Fachin teria iniciado uma tentativa de mediação. O presidente do Supremo conversou com Andrei Rodrigues e com o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, buscando reduzir a tensão entre a Corte e a direção da Polícia Federal.
Também teria ocorrido uma reunião intermediada pelo advogado-geral da União, Jorge Messias. Na ocasião, Mendonça teria demonstrado disposição para reconstruir a relação institucional, deixando temporariamente de lado a possibilidade de afastamento.
Apesar da tentativa de conciliação, os desentendimentos continuaram.
Mendonça reclamava de supostas demoras da Polícia Federal no cumprimento de medidas investigativas, especialmente em apurações que mencionavam Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente.
Por outro lado, a direção da PF demonstrava preocupação com o que considerava interferência na autonomia da corporação, incluindo pedidos de acesso a materiais ainda não analisados ou incorporados oficialmente aos inquéritos.
RELATÓRIO AGRAVOU A CRISE COM MORAES
O conflito ganhou uma nova dimensão após Alexandre de Moraes utilizar informações de um relatório de inteligência da Polícia Federal para levantar questionamentos sobre a atuação de Mendonça.
O documento foi produzido depois que Mendonça retirou o sigilo de mensagens envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Parte do material fazia referência a um interlocutor identificado como Moraes.
Alexandre de Moraes posteriormente pediu a abertura de investigação contra Mendonça por possíveis irregularidades, entre elas abuso de autoridade. Foi nesse contexto, segundo a Folha, que a possibilidade de afastar Andrei Rodrigues voltou à mesa e acabou sendo concretizada.
Mendonça teria interpretado a produção e a utilização do relatório como parte de uma atuação irregular de setores da Polícia Federal.
AFASTAMENTO E REAÇÃO DO GOVERNO
André Mendonça determinou o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues dos cargos de diretor-geral e delegado da Polícia Federal. A decisão também alcançou Leandro Almada, diretor de Inteligência Policial da corporação.
O ministro ordenou ainda a abertura de procedimentos administrativos e criminais para apurar possíveis irregularidades na produção de relatórios de inteligência envolvendo autoridades.
A medida provocou forte reação dentro da Polícia Federal e no governo federal. Integrantes da direção da corporação manifestaram apoio a Andrei, enquanto a Advocacia-Geral da União apresentou recurso contra a decisão.
A Segunda Turma do STF começou a analisar o afastamento. Mendonça, Luiz Fux e Nunes Marques votaram inicialmente pela manutenção da medida, mas um pedido de vista de Gilmar Mendes interrompeu o julgamento.
RELATOS EXIGEM APURAÇÃO E CAUTELA
As informações sobre possíveis motivações políticas atribuídas à direção da Polícia Federal e sobre as intenções de André Mendonça fazem parte de relatos de bastidores publicados pela imprensa.
Até que provas sejam apresentadas e analisadas pelas instituições competentes, as suspeitas não devem ser tratadas como fatos definitivamente estabelecidos.
A crise evidencia a necessidade de uma apuração transparente, com respeito ao contraditório, ao devido processo legal e à autonomia das instituições. Divergências entre integrantes do Supremo e autoridades da Polícia Federal não podem comprometer a imparcialidade das investigações nem a confiança da sociedade nos órgãos responsáveis pela aplicação da lei.
Reportagem: Marcelo Rodrigues
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Foto: Adriano Machado/Reuters — 2.set.2026
Com informações da Folha de S.Paulo


