O político que não se curvou ao sistema, optou pelos excluídos.
EPISÓDIO 2 — A CHEGADA AO SENADO: DAS URNAS À CONSOLIDAÇÃO DE UMA NOVA LIDERANÇA NO RIO
Reportagem: Marcelo Rodrigues
A eleição de 2002 representou uma mudança definitiva na trajetória de Marcelo Crivella. Depois da atuação religiosa, das missões no continente africano e da experiência social desenvolvida em Nova Canaã, no sertão da Bahia, o engenheiro e bispo evangélico ingressava na política institucional por uma das portas mais importantes da República: o Senado Federal.
Naquele ano, Crivella disputou uma das duas vagas destinadas ao Rio de Janeiro pelo Partido Liberal (PL). A vitória colocou um estreante na política eleitoral diante de um mandato de oito anos e iniciou uma trajetória que, nas décadas seguintes, o levaria a disputar repetidamente o comando do estado e da capital fluminense.
A Agência Senado registrou Crivella entre os senadores eleitos pelo Rio em outubro de 2002, ao lado de Sérgio Cabral. Na apresentação feita à época, destacava sua formação como engenheiro civil e suas atividades como cantor religioso e bispo da Igreja Universal do Reino de Deus.
UM NOVO PERSONAGEM NA POLÍTICA FLUMINENSE
Crivella chegava a Brasília sem uma carreira parlamentar anterior.
Esse aspecto diferenciava sua trajetória de boa parte dos políticos tradicionais que alcançavam o Senado depois de passagens por câmaras municipais, assembleias legislativas, governos estaduais ou pela Câmara dos Deputados.
Sua base política havia sido construída por outros caminhos: a atividade religiosa, a presença junto às comunidades, o trabalho social e a projeção pública alcançada antes de disputar sua primeira eleição.
A partir de 2003, porém, seria necessário transformar essa popularidade em atuação parlamentar.
E Crivella começou a fazê-lo ocupando espaços importantes no Senado.
DAS COMUNIDADES PARA AS COMISSÕES DO SENADO
Os registros oficiais mostram que já em fevereiro de 2003 Crivella passou a integrar, como titular, duas comissões de grande relevância: a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) e a Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa. Também participou da Comissão de Serviços de Infraestrutura e, meses depois, da Comissão de Assuntos Sociais.
Nos anos seguintes, sua presença na área social tornou-se constante. Crivella foi titular da Comissão de Assuntos Sociais em diferentes períodos entre 2005 e 2010 e também participou de subcomissões relacionadas ao trabalho, à Previdência e à saúde.
Essa atuação institucional dialogava com uma imagem que ele procurava levar para Brasília: a de um parlamentar atento à pobreza, à desigualdade e às necessidades das camadas de menor renda.
O RIO DE JANEIRO NA TRIBUNA
Poucos meses depois de assumir o mandato, Crivella utilizou a tribuna para cobrar investimentos públicos no Rio de Janeiro.
Em abril de 2003, falou sobre problemas de segurança, desemprego, hospitais, crescimento das comunidades carentes e dificuldades enfrentadas pela população de menor poder aquisitivo para obter financiamento. Também reivindicou investimentos para o Norte Fluminense.
O episódio ajuda a revelar uma característica que se tornaria recorrente em sua carreira: a tentativa de associar as grandes discussões nacionais aos problemas concretos do estado que o elegeu.
Também levou para dentro do Senado experiências anteriores à política.
Ainda em abril de 2003, Crivella apresentou aos senadores os resultados do Projeto Nordeste, desenvolvido na Fazenda Nova Canaã, em Irecê, defendendo políticas de desenvolvimento social, combate às desigualdades regionais, educação, saúde e aproveitamento de recursos hídricos.
Era uma ponte entre o Crivella do trabalho missionário e social e o novo Crivella parlamentar.
UM SENADOR ENTRE DIFERENTES CAMPOS POLÍTICOS
A trajetória de Crivella também começaria a revelar outra característica importante: sua capacidade de dialogar e estabelecer relações com diferentes forças políticas.
Ao longo dos anos, essa postura permitiria que transitasse por ambientes políticos distintos e participasse de alianças que nem sempre correspondiam ao campo ideológico normalmente associado ao seu eleitorado religioso.
Esse pragmatismo produziria elogios e críticas.
Para seus apoiadores, representava capacidade de diálogo em benefício de projetos e interesses do Rio. Para seus críticos, seria uma demonstração das contradições das alianças construídas ao longo de sua carreira.
Essa tensão entre convicções, alianças e exercício do poder acompanhará Crivella em praticamente todas as etapas seguintes de sua vida pública.
A DEFESA DE PAUTAS SOCIAIS
Os primeiros anos no Senado também mostram Crivella abordando temas que ultrapassavam questões religiosas.
Em julho de 2003, por exemplo, manifestou preocupação com possíveis demissões decorrentes da então discutida fusão entre Varig e TAM e defendeu atenção aos direitos dos trabalhadores envolvidos.
Em setembro daquele ano, manifestou apoio à decisão do Supremo Tribunal Federal que considerou crime de racismo a divulgação de ideias antissemitas no caso Ellwanger.
Esses episódios ajudam a mostrar que a atuação parlamentar de Crivella não ficou restrita à representação do eleitorado evangélico.
Questões sociais, econômicas, trabalhistas e relacionadas diretamente ao Rio passaram a integrar sua agenda.
DE ESTREANTE A LIDERANÇA ELEITORAL
Mas seria nas urnas que a consolidação política de Marcelo Crivella ficaria mais evidente.
Durante seu primeiro mandato como senador, ele ampliou sua presença no cenário político fluminense e passou a disputar cargos executivos. Essa etapa seria marcada por vitórias e derrotas, mas também pela construção gradual de um eleitorado próprio.
A prova mais contundente viria em 2010.
Oito anos depois da primeira eleição, Crivella voltou às urnas buscando permanecer no Senado.
Desta vez, já não era o estreante de 2002.
Era um político conhecido em todo o estado.
Crivella foi reeleito com 3.332.886 votos, resultado que o colocou entre os dez senadores eleitos com maior votação absoluta de todo o Brasil naquele pleito.
A reeleição tinha um significado político importante.
O eleitorado que o levara pela primeira vez ao Senado não havia desaparecido. Oito anos de exposição política, disputas eleitorais e atuação parlamentar haviam mantido Crivella competitivo em um dos maiores colégios eleitorais do país.
UMA LIDERANÇA ESTAVA CONSOLIDADA
A eleição de 2002 abriu a porta.
A reeleição de 2010 demonstrou que Marcelo Crivella havia conseguido permanecer.
Entre uma eleição e outra, o missionário que ingressara na política transformou-se em uma das figuras mais conhecidas da política do Rio de Janeiro.
Sua identidade religiosa continuava presente, mas agora estava acompanhada por experiência parlamentar, participação em importantes comissões do Senado e sucessivas disputas eleitorais.
Crivella começava a construir uma característica que marcaria toda a sua trajetória: mesmo depois de derrotas políticas, permanecia eleitoralmente competitivo.
Sua história no Senado, entretanto, ainda reservaria um novo capítulo.
Depois de conquistar espaço no Legislativo, Crivella seria chamado a assumir uma função no Poder Executivo federal.
Era o início de uma experiência que colocaria à prova sua capacidade administrativa e, ao mesmo tempo, aproximaria ainda mais o senador das engrenagens do poder em Brasília.
NO PRÓXIMO EPISÓDIO:
“CRIVELLA MINISTRO” — A PASSAGEM PELO MINISTÉRIO DA PESCA E AQUICULTURA, A RELAÇÃO COM O GOVERNO DILMA ROUSSEFF E UMA DAS ALIANÇAS MAIS SURPREENDENTES DE SUA TRAJETÓRIA POLÍTICA.


