EPISÓDIO 3
BENTO XVI — O TEÓLOGO NO TRONO DE PEDRO
Defesa da fé e da razão, desafios internos da Igreja e a histórica renúncia
Reportagem: Marcelo Rodrigues
Em 19 de abril de 2005, poucas semanas depois da morte de São João Paulo II, a fumaça branca que saiu da Capela Sistina anunciou ao mundo a eleição do cardeal alemão Joseph Ratzinger.
Um dos maiores teólogos católicos de sua geração chegava ao trono de Pedro.
Aos 78 anos, Ratzinger adotou o nome Bento XVI e assumiu a responsabilidade de conduzir uma Igreja que entrava no século XXI enfrentando profundas transformações culturais, avanço da secularização, escândalos internos e grandes debates sobre o lugar da fé em uma sociedade cada vez mais marcada pelo relativismo.
Seu pontificado duraria menos de oito anos, mas deixaria uma profunda marca teológica e histórica.
Bento XVI procurou mostrar que fé e razão não são adversárias. Defendeu as raízes cristãs da Europa, combateu aquilo que chamou de “ditadura do relativismo”, enfrentou a crise dos abusos sexuais cometidos por membros do clero e surpreendeu o mundo ao anunciar, em 2013, uma decisão que não acontecia daquela maneira havia séculos: sua renúncia ao ministério de Bispo de Roma.
DE JOSEPH RATZINGER A BENTO XVI
Joseph Aloisius Ratzinger nasceu em 16 de abril de 1927, na Baviera, Alemanha.
Sua juventude coincidiu com um dos períodos mais sombrios da história europeia: a ascensão do nazismo e a Segunda Guerra Mundial.
Como muitos adolescentes alemães de sua geração, foi compulsoriamente inscrito na Juventude Hitlerista e, posteriormente, convocado para serviços militares durante a guerra. Sua família, porém, era católica e hostil ao nazismo.
Depois da guerra, Ratzinger seguiu sua vocação religiosa. Foi ordenado sacerdote em 1951 e desenvolveu uma brilhante carreira acadêmica.
Professor e teólogo, participou do Concílio Vaticano II como especialista — perito teológico — e se tornou uma das grandes referências intelectuais do catolicismo contemporâneo.
Em 1977, foi nomeado arcebispo de Munique e Freising e criado cardeal por São Paulo VI.
Em 1981, São João Paulo II o chamou para Roma e o nomeou prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.
Durante mais de duas décadas, Ratzinger tornou-se um dos colaboradores mais próximos de João Paulo II.
A ELEIÇÃO DE 2005
Após a morte de João Paulo II, em 2 de abril de 2005, os cardeais se reuniram em conclave.
Em 19 de abril, Joseph Ratzinger foi eleito Papa.
Escolheu o nome Bento XVI.
Em suas primeiras palavras, apresentou-se humildemente como “um simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor”.
A escolha do nome também carregava significado.
Bento XVI posteriormente explicou sua referência a Bento XV, o Papa que procurou promover a paz durante a Primeira Guerra Mundial, e a São Bento de Núrsia, um dos grandes patronos espirituais da Europa.
FÉ E RAZÃO
Uma das marcas fundamentais do pontificado de Bento XVI foi a defesa da relação entre fé e razão.
Para o Papa teólogo, a fé cristã não deveria ser apresentada como inimiga da ciência, da filosofia ou do pensamento racional.
Ao contrário.
Bento XVI sustentava que a razão humana, quando se fecha completamente à dimensão transcendente, também corre o risco de limitar sua capacidade de compreender o homem e o mundo.
Essa preocupação atravessou discursos, livros, homilias e documentos de seu pontificado.
Bento XVI procurou dialogar com o mundo acadêmico e intelectual e apresentou o cristianismo não apenas como um conjunto de normas morais, mas como um encontro entre Deus e o homem.
A “DITADURA DO RELATIVISMO”
Pouco antes de ser eleito Papa, o cardeal Ratzinger utilizou uma expressão que se tornaria associada ao seu pensamento: “ditadura do relativismo”.
Ele alertava para uma sociedade na qual nenhuma verdade permanente seria reconhecida e em que valores poderiam ser modificados conforme as circunstâncias e desejos individuais.
Como Papa, continuou denunciando o relativismo moral e defendendo a existência de princípios objetivos relacionados à dignidade humana.
Sua crítica alcançava questões como a defesa da vida, da família, da liberdade religiosa e da identidade cristã.
Para Bento XVI, uma sociedade que elimina completamente a ideia de verdade corre o risco de transformar a liberdade em simples vontade individual.
DEUS É AMOR
Apesar da imagem frequentemente apresentada de Ratzinger como um intelectual austero, sua primeira encíclica como Papa tratou justamente do amor.
“Deus Caritas Est” — “Deus é Amor” — foi publicada em 2005.
Bento XVI colocou o amor no centro da mensagem cristã.
Posteriormente vieram “Spe Salvi”, dedicada à esperança cristã, e “Caritas in Veritate”, sobre o desenvolvimento humano integral, justiça social, economia e responsabilidade moral.
Seus documentos demonstraram que o pontificado não poderia ser compreendido apenas pela defesa doutrinária.
Havia uma forte preocupação espiritual e social em seu magistério.
O PAPA PROFESSOR
João Paulo II havia conquistado multidões com seu extraordinário carisma e sua capacidade de comunicação.
Bento XVI possuía um estilo diferente.
Era essencialmente um professor.
Suas audiências, homilias e discursos frequentemente assumiam a forma de verdadeiras aulas de teologia.
Falava sobre os Padres da Igreja, os santos, as Escrituras, a liturgia e as raízes intelectuais do cristianismo.
Sua obra “Jesus de Nazaré”, publicada durante o pontificado em três volumes, tornou-se uma das grandes expressões desse desejo de apresentar Cristo ao homem contemporâneo.
A LITURGIA E A TRADIÇÃO
A liturgia ocupou posição central no pensamento de Bento XVI.
O Papa defendia que a celebração litúrgica deveria conduzir o homem ao mistério de Deus e não se transformar em simples expressão da comunidade.
Em 2007 publicou o motu proprio “Summorum Pontificum”, ampliando as possibilidades de celebração da Missa segundo o Missal Romano de 1962.
A decisão foi recebida com entusiasmo por católicos ligados à tradição litúrgica, embora também tenha provocado debates dentro da Igreja.
Bento XVI buscava uma reconciliação entre diferentes sensibilidades litúrgicas e uma continuidade entre a tradição anterior e posterior ao Concílio Vaticano II.
O DESAFIO DA SECULARIZAÇÃO
O Papa alemão observava com preocupação o afastamento de parcelas da sociedade europeia de suas raízes cristãs.
Igrejas vazias, queda das vocações religiosas e diminuição da prática da fé eram sinais de uma profunda transformação cultural.
Bento XVI insistia que a Igreja não deveria simplesmente adaptar sua mensagem para se tornar mais popular.
Para ele, a resposta à secularização passava por uma renovação da fé.
Foi nesse contexto que promoveu a chamada “Nova Evangelização” e instituiu o Ano da Fé, iniciado em 2012.
O DISCURSO DE REGENSBURG E A POLÊMICA COM O MUNDO ISLÂMICO
Em setembro de 2006, durante uma palestra acadêmica na Universidade de Regensburg, na Alemanha, Bento XVI citou um diálogo medieval envolvendo o imperador bizantino Manuel II Paleólogo.
A citação provocou forte reação em países de maioria muçulmana.
O Vaticano esclareceu que o Papa não pretendia apresentar aquela citação como sua própria opinião sobre o Islã.
Bento XVI manifestou pesar pelas reações provocadas e posteriormente intensificou iniciativas de diálogo com lideranças muçulmanas.
O episódio tornou-se um dos momentos diplomáticos mais delicados de seu pontificado.
O DIÁLOGO COM OUTRAS RELIGIÕES
Apesar das controvérsias, Bento XVI deu continuidade ao diálogo inter-religioso desenvolvido por seus predecessores.
Visitou sinagogas, mesquitas e encontrou representantes de diferentes religiões.
Também manteve forte compromisso com o ecumenismo, especialmente no diálogo com as Igrejas Ortodoxas e outras comunidades cristãs.
Seu objetivo era defender a identidade católica sem abandonar a busca pelo diálogo.
OS ABUSOS SEXUAIS E UMA DAS MAIORES CRISES DA IGREJA
Um dos capítulos mais dolorosos do pontificado foi a crise envolvendo abusos sexuais de menores cometidos por membros do clero.
Casos ocorridos durante décadas vieram à tona em diferentes países.
Bento XVI encontrou-se com vítimas, pediu perdão, condenou os abusos e adotou medidas disciplinares contra religiosos envolvidos.
Ainda como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Ratzinger havia assumido papel crescente no tratamento desses casos.
Como Papa, afirmou que os pecados existentes dentro da própria Igreja constituíam uma de suas maiores ameaças.
Seu pontificado marcou uma etapa importante na mudança de postura institucional diante da crise, embora posteriormente também surgissem questionamentos e debates sobre como casos haviam sido tratados em décadas anteriores.
A crise deixou claro que Bento XVI não enfrentava apenas adversários ideológicos externos.
Havia graves problemas dentro da própria Igreja.
O CASO Vatileaks
Em 2012, documentos confidenciais do Vaticano foram divulgados à imprensa.
O episódio ficou conhecido como “Vatileaks”.
As informações revelaram disputas, denúncias e tensões dentro da administração da Santa Sé.
O mordomo pessoal do Papa, Paolo Gabriele, foi posteriormente condenado por roubar documentos reservados.
O episódio expôs fragilidades administrativas e tornou ainda mais evidente a dificuldade de Bento XVI em controlar determinadas disputas internas da Cúria Romana.
A IGREJA DIANTE DE UMA NOVA ERA
O pontificado de Bento XVI também coincidiu com uma revolução tecnológica.
Redes sociais cresciam rapidamente, smartphones começavam a transformar a comunicação e a internet mudava profundamente a maneira como as pessoas recebiam informação.
Em dezembro de 2012, Bento XVI publicou sua primeira mensagem no Twitter.
Era um sinal de que até uma instituição com dois mil anos de história precisava encontrar novas maneiras de anunciar sua mensagem.
A DECISÃO QUE SURPREENDEU O MUNDO
Então chegou 11 de fevereiro de 2013.
Durante um consistório no Vaticano, Bento XVI fez um anúncio inesperado.
Em latim, comunicou que renunciaria ao ministério de Bispo de Roma.
O mundo ficou surpreso.
O Papa explicou que, devido à idade avançada, suas forças já não eram adequadas para exercer plenamente as responsabilidades do ministério petrino.
Não se tratava de abandonar a Igreja.
Bento XVI reconhecia seus próprios limites físicos diante da enorme responsabilidade de governar a Igreja Católica.
Sua renúncia tornou-se efetiva em 28 de fevereiro de 2013.
UMA DECISÃO HISTÓRICA
Renúncias papais são extremamente raras.
O precedente medieval mais lembrado era São Celestino V, que renunciou em 1294. Gregório XII deixou o pontificado em 1415 em circunstâncias ligadas ao fim do Grande Cisma do Ocidente.
Mas o gesto de Bento XVI, realizado livremente por reconhecer a diminuição de suas forças, não possuía paralelo na história moderna da Igreja.
Às 20 horas de 28 de fevereiro de 2013, a Sé de Pedro ficou vacante.
Bento XVI deixou o Vaticano de helicóptero e seguiu para Castel Gandolfo.
Uma imagem que entrou para a história.
“UM PEREGRINO NA ÚLTIMA ETAPA”
Em sua despedida, Bento XVI disse que seria simplesmente “um peregrino que inicia a última etapa de sua peregrinação nesta terra”.
Após a eleição do Papa Francisco, passou a viver no Mosteiro Mater Ecclesiae, dentro do Vaticano.
Recebeu o título de Papa Emérito.
Pela primeira vez em séculos, o mundo via simultaneamente um Papa reinante e seu predecessor vivendo dentro do Vaticano.
Bento XVI manteve uma vida predominantemente dedicada à oração, aos estudos e ao recolhimento.
A RELAÇÃO COM FRANCISCO
A presença de dois homens vestidos de branco inevitavelmente despertou especulações sobre possíveis divisões dentro da Igreja.
Bento XVI, entretanto, manifestou publicamente sua obediência e respeito ao Papa Francisco.
Os encontros entre os dois pontífices produziram imagens históricas.
Apesar das diferenças de personalidade, estilo e prioridades pastorais, Bento XVI evitou assumir o papel de liderança de uma oposição ao sucessor.
A MORTE DO PAPA EMÉRITO
Bento XVI morreu em 31 de dezembro de 2022, aos 95 anos, no Mosteiro Mater Ecclesiae, no Vaticano.
Seu funeral ocorreu em 5 de janeiro de 2023, na Praça de São Pedro.
A celebração foi presidida pelo Papa Francisco.
Era uma cena extraordinária na história da Igreja: um Papa celebrava as exéquias de seu predecessor.
O LEGADO DE BENTO XVI
Bento XVI talvez nunca tenha possuído o carisma público de João Paulo II.
Também não buscou possuí-lo.
Sua força estava em outro lugar.
Joseph Ratzinger era um intelectual, professor e teólogo que acreditava que o cristianismo precisava dialogar com o homem contemporâneo sem abandonar aquilo que considerava essencial à fé.
Defendeu a razão contra o irracionalismo.
Defendeu a fé contra uma visão de mundo que pretendesse reduzir toda a existência humana apenas ao material.
Defendeu a tradição sem considerar que tradição significasse simplesmente permanecer parado no passado.
E advertiu a própria Igreja de que seus maiores perigos poderiam nascer de seus pecados internos.
O TEÓLOGO NO TRONO DE PEDRO
Bento XVI governou a Igreja entre 2005 e 2013.
Foram menos de oito anos, mas atravessados por enormes desafios.
Secularização.
Relativismo.
Escândalos de abusos.
Crises administrativas.
Debates litúrgicos.
Diálogo com outras religiões.
Transformações culturais e tecnológicas.
No centro de tudo isso estava um homem cuja principal ferramenta sempre foi a palavra.
Professor antes de bispo.
Teólogo antes de cardeal.
E teólogo também depois de se tornar Papa.
Sua última grande decisão talvez tenha sido também sua mensagem mais surpreendente.
Ao renunciar, Bento XVI mostrou que o papado não pertence ao homem que o ocupa.
Para Joseph Ratzinger, o centro da Igreja nunca deveria ser o Papa.
Deveria ser Cristo.
Bento XVI entrou para a história como o teólogo no trono de Pedro — um pontífice que dedicou sua vida à defesa da fé, ao diálogo entre fé e razão e à busca da verdade em uma época de profundas transformações.
E, no momento mais inesperado de seu governo, teve a coragem de reconhecer que outro deveria assumir o leme da Barca de Pedro.


