Deputado estadual eleito foi preso na Operação Unha e Carne; PF investiga movimentações bilionárias em rede de postos, influência sobre nomeações e possíveis vínculos com grupos criminosos
A prisão de Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo e deputado estadual eleito, recoloca a política fluminense diante de suspeitas graves sobre a relação entre poder público, negócios e crime organizado. Detido nesta quinta-feira, 15 de outubro, ele é investigado na oitava fase da Operação Unha e Carne, da Polícia Federal.
O caso vai além da prisão de uma liderança política. A investigação descreve uma estrutura que teria reunido empresários, agentes de segurança e articulação institucional para movimentar recursos de origem suspeita e proteger interesses criminosos.
Canella foi o segundo deputado estadual mais votado do Rio nas eleições de 2026, com 197.178 votos. A prisão é preventiva e não representa condenação.
POSTOS DE COMBUSTÍVEIS NO CENTRO DA APURAÇÃO
Segundo a Polícia Federal, a organização investigada utilizaria uma rede de postos na Região Metropolitana como plataforma de lavagem de dinheiro. Um relatório de inteligência financeira do Coaf apontou movimentações superiores a R$ 7,6 bilhões em seis anos.
Esse montante corresponde ao universo financeiro examinado na investigação. Não significa que Canella tenha recebido pessoalmente esse valor, nem que toda a movimentação já tenha sido judicialmente reconhecida como dinheiro lavado.
A operação cumpriu seis mandados de prisão preventiva e 16 de busca e apreensão em sete municípios. A Justiça também determinou a suspensão das atividades de 112 empresas, das quais 96 são postos de combustíveis.
O PAPEL ATRIBUÍDO A CANELLA
Conforme reportagem da CNN Brasil sobre a investigação, a PF aponta Canella como “patrono político” e articulador de alto escalão do grupo. A suspeita é de que ele funcionasse como ligação entre o núcleo econômico, agentes públicos e estruturas políticas.
Os investigadores também atribuem ao político influência sobre a ocupação de cargos estratégicos por pessoas alinhadas aos interesses da organização.
Entre os episódios citados está a indicação do delegado Marcus Vinicius Amim Fernandes para postos de comando na administração estadual. Amim, ex-secretário de Polícia Civil, também foi preso nesta fase da operação.
MOVIMENTAÇÕES FINANCEIRAS SOB SUSPEITA
Ainda segundo a CNN, a análise bancária identificou aproximadamente R$ 2,5 milhões em créditos movimentados por Canella entre maio de 2025 e abril de 2026. Desse total, cerca de R$ 1,4 milhão envolveria transferências da empresa Brumar Empreendimentos e Participações cuja origem primária não teria sido esclarecida.
Anotações apreendidas também indicariam repasses em espécie superiores a R$ 139 mil, sem lastro contratual identificado pelos investigadores.
Esses elementos integram a hipótese policial de lavagem de dinheiro. A origem, a finalidade e a eventual ilegalidade de cada operação financeira dependem de apuração e análise judicial.
BARRICADAS, OBRAS E SUSPEITAS DE ACORDOS COM O TRÁFICO
Outra frente da investigação envolve a retirada de barricadas em Belford Roxo. Segundo o UOL, que divulgou trechos da representação policial, a PF suspeita de negociações com integrantes do Comando Vermelho para permitir obras públicas.
A hipótese dos investigadores é de que os criminosos consentissem com a retirada dos obstáculos e, em contrapartida, recebessem garantias de redução das operações policiais e retomada do controle territorial após as intervenções.
A representação aponta um oficial da Polícia Militar como intermediário. A suspeita é especialmente grave porque coloca em discussão se ações apresentadas como recuperação de espaços públicos teriam ocorrido mediante concessões ao tráfico.
A PF também descreve proximidade de Canella com Juracy Alves Prudêncio, conhecido como Jura, apontado como liderança da milícia Somos Comunidade. Essas alegações precisam ser examinadas individualmente e submetidas ao contraditório.
A PRISÃO ANTERIOR E A MUDANÇA DE ROTA ELEITORAL
Canella já havia sido preso em julho, durante uma etapa anterior da operação, após a localização de um fuzil em seu veículo.
Na ocasião, sua defesa afirmou que a arma pertencia ao policial militar responsável pela segurança do político. Ele foi posteriormente solto por decisão do ministro Alexandre de Moraes.
Canella chegou a ser apresentado como pré-candidato ao Senado com apoio de Flávio Bolsonaro. Depois, desistiu dessa disputa e concorreu à Alerj. A existência dessa aliança política não estabelece responsabilidade criminal de Flávio pelas suspeitas investigadas.
O QUE DIZ A DEFESA
Segundo manifestação divulgada pela Folha de S.Paulo, a defesa de Canella informou que ainda não havia tido acesso à decisão da nova prisão. Os advogados transmitiram a posição de que ele confia na Justiça e acredita que os fatos serão esclarecidos.
A defesa de Marcus Amim também informou que aguardava acesso à decisão para apresentar esclarecimentos.
A Polícia Civil declarou que não compactua com desvios de conduta e que sua Corregedoria participa da operação em apoio à PF.
O QUE AINDA PRECISA SER ESCLARECIDO
A investigação deverá estabelecer a origem dos recursos, a participação individual dos envolvidos e a existência de eventual proteção institucional ao grupo.
Para a sociedade fluminense, o caso exige respostas sobre nomeações, fiscalização de empresas e atuação dos agentes de segurança. A gravidade das suspeitas impõe investigação rigorosa, transparência e responsabilização de quem tiver participação comprovada.
Reportagem: Marcelo Rodrigues
Rede Católica News
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